sexta-feira, 26 de junho de 2015

Das rodas nas horas contadas:

Don Yaosú Valladolid

Amealharam o sorriso das bocas pálidas
Figurou-se um olho de lança sobre o talho da face
A ruga profunda de um riso
O chacoalhar dos ossos corroídos

A sina do ritmo das notas
Uma só viola
Junto ao caminhar monótono do cansaço

Cantávamos em sol maior
Ao alvorecer da aurora
Alguns passos bailados em volta do solo
O grito do patriarca anuncia
                          O próximo cavalgar
            De Don Yaosú Valladolid

Rumo a Tarragona
Um passo rápido pela ilha maior
Perde-se no seu rastro a areia
        Dos calcares pedidos da mátria -

Cantai irmãos!
Na rédea do meu cavalo,
vossos sorrisos
Que muito me servirão de armas.
Para voltar a essa roda de bailas,
Na minha partida, adornai meus ouvidos com vossos refrões...

O pio de uma coruja rasante

Certamente, tu, predadora,
Na falta do teu já adulto filhote
Cantarás até ouvir um gemido de saudade
Eu também te ouvirei, minha mãe...
É de tua natureza saber minhas burlas no engendro da canção.
Não te preocupes, na vitória ou na tristeza,
Meu canto soará alto...
E não haverá ais...

O último sorvo de vinho na taça
Prontamente brindado
Sopesou cingindo-a entre seus dedos
Ocorrera-lhe um caimento do olhar
Tragou sem medo o fortuito gosto acre

Na guisa flutuante o marejo do adeus
Desmancha-se o sono dos crentes
Valha o descuido da serpente e o desmaio do véu

            Ornado peito ferido

O olho da sombra lhe encaminha ao orbe
Da noite que avoluma o medo do instinto
A lua avoca o assovio do vento detrás da lufa
Assomaram-se as nuvens, ocultou-se a lucidez.

Se houver algum vago espectro
Complete minha boca com as mais amargas águas
Mastigo a pele sensível do couro azedo
Dispersando o sopro da coragem ávida

A jovem loba que me amamentou
Farejou meus rastros, cansada e anciã
                Anseia o ninar triste da morte.

                Sobre a curvatura cega que nos separa...

            [Vislumbrando o cantar monocórdio da coruja]
O pio soluçante da fome e da perda
No buraco oco do infinito
O pressentimento futuro de pedra

No abalroamento dos inimigos
Há o ruído da risca do sangue
Se me for desenhado ou apagado do meu corpo,
Pedaços velhos de mim cairão e as novas formarão a gana cicatrizada
Loba-mãe seca, seus olhos não mais me vêem,
Não mais me perseguem
E o seu uivo não mais me revive...

Abandonar o resto da carne
O cerne entre os dentes
Fragmentos das cinzas qualquer
Entre as pálidas garras e seu ventre
Não permitais, meus pais, que eu me consuma em terra!

Caminhar entre o joio e a armadilha
O pêndulo da luz sobre meu nome
Fulgura o sorriso naquela que de mim se despedira
Num olhar mais morto que a próxima esquina...

Vilipendiosos sois vós,
Não marquem a talho minha dor
A alegria somente uma flor
Na sua rósea pálida face,
O furor de um beijo torna-se sua foz

Jamais deixarei que
    a anosa tez de meus pais
            Se contradiga
            Nas minhas lágrimas
            Que caem
            Tal como
            Suas peles

Ser e deixar
O âmago da lança imunda
Carcaças nuas em seus túmulos de firmamento
Acinzentadas chagas de uma Terra
Volto a pé...

Ele regressou
Foi-nos o forte desejo liberto

Sim, amor-lar
Arremesso a sorte ao alto
Cada um terá sua parte...
E os tolos se identificarão na espera.

Para ti a maior das frutas
E a mais nova das carnes
Irmão, sirvo-te minha mulher,
Para que descanse...

Fala o que queres
Ouvirás o que o outro deseja, meu caro.
É-me apreciável a sua maciez
Seu cheiro atiça o regaço
Mas suas pernas não me entrelaçaram
Com sua mesma certeza...

Por ventura deseja-me a escravidão
Daquele beijo distante
Úmido como um sorriso chorado
Urdido como o sol e o clarão

Contemplo a sua beleza
Com todo o rigor de minha adoração
Seu vestido dependurou-se no galho
A enfeitar a fortaleza feminina da árvore fértil
                  Carregada de frutos

        E eu de sementes,
        E de saudade veemente...

Escuso tua mulher, irmão,
Diferencia-a, por favor, aproveitando o teu melhor padecer.

Aos ventos, suas mãos e sua voz:

Aproximai de mim, parentes!
Quão peremptório é o trajeto deste dia
Alguns se arriscam na velha guia
Dos raios que afrontam o crepúsculo dormente.

Antiga esta minha cara
Volúveis estes meus olhos
Cadavérico este meu corpo

Deixo-vos a nova cantiga!
Aos pés dos vestidos
A poeira deste chão nos brinda

Viva terra que me engole
Com seu ruminar suave – volto logo – a ser raiz.

Voltarás tu, Yaosú, a ser raiz!
É tempo de janeiro

Grisaram as pompas
        Massacradas           
        Na palma do gigante Vento

Esta as joga para os outros
Vários lados do infinito   
        É a brincadeira,
        É o riso, é o riso...

Nós de obstáculos,
Nós de paredes
Abaixo do guiso esculpido
        Pelas palmas
        Sem cálculo
Terno descanso
O canto do toque das palmas gigantes dos ventos
        A brincarem...

Pompas grises sobre nós
        Sobre o riso
        Sobre o obstáculo
        Sobre acolá
   
Não se desmancham; são os brinquedos do vento...

É a sede, é a sede
Vem a seca, vem a seca...
De cara no rio

O curso do rio
E as maneiras da face
Retas, se duplicam,
E volta a falar

Cheia das águas
Transbordos dos olhos
A seca rastreada da pele
O solo marcado pelo seu tom

O riso aberto
A boca calada
Desemboca o rio noutro rio    
        Desbocado, depois,
        Noutra boca qualquer
   
    Uma sobrenadante folha...
                Tragada
    Em meio aos encontros
       Entre o rio e a face

Na seca da terra
São as gotas do humor
O cílio no rosto
É a folha a ondular

    O percurso do rio
    O sorriso, o olhar
    Mudou-se o caminho
    Um beijo lá, outro cá...

Em linha reta ou nos seus desvios
É o rio
É a cara
É o sim, é o não
O talvez do talvez
Da chuva que cairá...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Dos laços, meus braços...

... em teus braços no nosso planeta chamado cama. Foto: Larissa Pujol
 É a pressa da carência, de uma pelúcia aquecida de mãos a tapas no meio da história que falece. De tamanho eu dispo minh’alma e afogo a calma salivando um beijo teu... Vamos sem chão, podendo a solidão ser duas. Eis que o amor planeja o cuidado que te tenho, mas a saúde não se dispõe ao tempo. O lucro, então, brilha cruzando mordaças, canta sua sorte, e cansa a morte na satisfação...
Ao que aspira, o comando negligente da utopia faz do sujeito a sua procura. Muito astuta, a resiliência atroante principiou o alheio. Deste, apenas a galhofa se comete na sua própria narrativa. No entanto, haveria de esbravejar a distância que de perto acena às escondidas? Ah, o oco do vazio: a lonjura das ausências... Tive amores que de ponte serviram para chegar a ti, meu bem... Mesmo assim eu choro o perdedor bradado por Tchaikovsky...
Tradução caseira de "Alicia en el país de María". Foto: Larissa Pujol
O Mistério é a incerteza que nos leva ao futuro. Nós duas incertas, mas futuras?  “Que aconteça logo!” – digo a expressão que anuncia o poder esmagador da ansiedade! Juventude esta que, de experiência em experiência, vem a conhecer realmente a vida. Então, seu ímpeto combatente fenece e, resignada, não mais se espanta ao compreender a própria miséria moral de que “tudo está errado”. Ah, mas Tudo é incrível enquanto o amor resistir! Embora amemos a vida (e com vida), minha amada, não nos esqueçamos da natureza – a única para a qual não há substituto –, e que esta é a esperança de tudo, inclusive da morte...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Crônica epistolar: yesterday.



Nosso dia 12, teu dia seguinte...
Quero esta música, amada, para amanhã, mas ontem nascida contigo e entregue na festa escusa do sentimento. Também és a pessoana que tanto te entrego alcunhas disfarçadas... Ah, as turbulências deste dia comemorado, cujo apreço chora no seu final... Entretanto, já nos nomeiam, já nos unem – alheios começam a compreender e a vida nossa amanhece em paz, querida. O ontem, nossa crença, amadurece a cegueira deste nó feito de aço: ferrugens de vínculo então precavidas contra a separação humana.
Minha, são diversas as nossas gêmeas! Somos cantadas, lidas, conflitadas e acarinhadas num ninho sábio de reclusas namoradas, de reclusos lençóis. À margem das vestes, a cama inaugura um planeta apenas nosso: de constelações ruivas e morenas, de vales deleitosos em mãos e fontes amadas da interna redenção sobrevivente. Sem mais, querida, amar-te é um novo mundo com cabelos selvagens à primária comoção desnuda...
Muito anseio dela o dia de ontem... Eu a amo de ontem ao primitivo destino traçado... Foto: Larissa Pujol
Nosso e teu dia bradados na sala fechada. Amor no vácuo desprendido de condenação... As alianças nos nossos dedos polegares não tardam, querida. São sóis que se encontram e devoram a terra caída da realidade. Existe qualquer amanhã para nós duas, linda! Somos plenas de estamos aqui! Uma casal de amor que “abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo” – com o nosso próprio tempo pensado em nosso planeta... – ajuda-me, querida, a entender do que as fases se harmonizam numa única lua de nós – mas que não nos amanhece juntas..., embora, graças a D’us, eu te viva, amor de colega, amor de pessoa, amor de namorada, todo o dia! Cheguei. Chegaste. Na escola tu me pegas pela mão e deixas o amor também chegar... Seja entre os lados ocultos das paredes, na evasão do mundo que, então, solitárias preenchemos de ansiedade, de entrelaces, de vontade, de cura! De várias maneiras até o sinal no fim da tarde, junto à predileção que me dizes, mesmo sobrecarregada de profissão: fica mais um pouquinho...   
O dia se despede, mas despistaste a mesa com teus filhos e tua máscara conjugal. Eis que a vampira de tuas virilhas te ama de forma dilacerante e impetuosa!
Feliz dia nosso, minha amor!
Teu aniversário de legenda

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Líquidas

Perseguir saboneteiras bonitas: atitude de quem muito lê Vinicius de Moraes. Foto: Larissa Pujol.

Enquanto jaziam as roupas ao fim do suor, a água, o perfume e a morena chovem dentre os meus pelos na física obediente do amor. Aleatórios toques oprimidos das suas mãos que suspendem com todo crime as desleixadas ordens de ser minha. E eu, antes dela, fui das sobras nas quais escoa o cotidiano...
Macia e fragrante, o risco iminente da sua boca existe na transparente leveza que me despeja... Olor taciturno como derretido na vela. Querer tal qual a sua chama que tenta alcançar o infinito... Pertencida no que há de mim, a morte não é, então, pretexto. Minha querida acolhe outra vida e me a entrega em seu ninho! Sabe ser pele, sabor, perfume e destreza... Nua ao que ela me pede, desmancha-se, pois, na minha saboneteira com toda ninfa das águas que lhe acompanham. Belíssima fantasia que forte traçam-na os jatos: Baudelaire cortou-a em pedacinhos para cada todo agradar-se e divertir-se...
O medo sarou o corpo, o sabonete deslizou a ternura, a pétala de suas mãos escoou a mulher, a verdade curou o receio. Na purificação reclusa, este retalho de vida própria entre nós, a sorte flui compilando a saudável prestação entregue à trama exagerada. Condensou a conquista, o começo e o laço. Quão líquido e diário nosso crédito de encontro. Interpretação esperada do fino e apurado vínculo. Consentidas, nós-naturalmente, desperdiçamo-nos, porém, líquidas em nossos vãos sem vigilância.