sexta-feira, 31 de julho de 2015

Palco servido

Dia nublado pede o sangue decantado e generoso em todos os corpos... (Foto: Larissa Pujol)
O tapa da porta, fraterno encosto de amigo a confraternizar o costume escuro do fim. Boas prosopopéias naturam na selva lúdicas de cores elétricas seus gemidos tempestuosos de embriaguez e afago. Entre mulheres, as caras camuflam pássaros às suas penas hostis e laborais.
Dia nublado pede o sangue decantado e generoso em todos os corpos... Sangue correndo graça em partituras de riso, e sugerindo no imo a dança sublime, espremida no centro da alegria: a força num vai-vem duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos como voos angelicais, mas virilmente, contra o chão... Vórtice racional que docemente meus olhos começam a flamar seu preceito de conquista. Ao encosto do torpor, a sequência de mulher comanda os ímpetos de música e da saúde embebida em gélidos agitos no esôfago.



Ao meu jeito eu vou fazer um samba sobre o infinito...
A ciência feminina, cedendo-se num intróito extremoso de orgia religiosa, descomplica as suas curvas entrelaçadas por tabu. Às vezes o verbo possui uma saliva corrosiva e loucamente preenche a boca para inundar as fantasias desesperadas... O tempo empresta aos lábios a polpa mais exasperada, exequíveis em folhas da maquiagem sob coloridos rastros de luz. Eu a espreitava e a guardava na imaginação deformada de homogeneidade, impressa, ora em seus avanços pelos pés macios de dança, ora na viagem do seu vento rodado que chacoalhavam amuletos dourados em relevo sob o conluio clandestino que repreendia a libido mais escura. Enquanto incidia-nos o pequeno lume, entregamos nossos narizes obscenos a carregar uma da outra os nossos cheiros primitivos, vivendo em mórbido e viscoso apetite que se explora no rebento dos códigos proibidos. Paixão pressentida é um aço espicaçante de brado petalado...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Isolada pudícia II

Luz para disfarçar nus... (Foto: Larissa Pujol)

Convenço-me que nada mais influencia a pessoa como a elaboração moral. Sentimentos de sonhos a se concretizarem se despertada eu estiver! Abertos os olhos, tenho-a novamente me agradando com desejo e, portanto, com sofrimento. Desperta a sensação de lástima pelo término deste meu feliz e tranquilo olvido... Esperança de felicidade corpórea, alvoroço deste assunto, mescla de fragrância rosa... Sou ela vivida neste cataclismo que nos adeja.
Visto-me maquinalmente no mesmo lampejo selvagem que se descontrolava nos seus olhos ardentes e astutos vindos durante minha lembrança... Abotoada a camisa xadrez, deixando a mostra os volumes dos seios, descarada, alegre e solta de café-com-vinho, mascarada a Dolokhov, mas camuflada a Varenka! Ah, ela gosta de mim, e a aprecio desde sua voz soprana, no conjunto de olhar direto, flecha-negra atravessando meu intelecto, boca graciosa de sorriso pequeno e amontoado.
Paixão por ela, minha companheira de partitura: suas mãos finas, pianista, alongadas como a agilidade que ela leva suas claves e suas chaves para encerrar a porta, a sós comigo! Alongadas como seu nome sufixado em –ise; hoje, no meu gozo, a matriz... Ela adora ópera russa! Tudo em mim se organiza para opor-se aos desejos... Não! A vida é o único intervalo que estou livre! Que seja apenas Oblomov a prender-se na inação e no fatalismo. Minha maneira feminina de sofrer é na culpa nua da outra, na sofrível irradiação hepática do humor, num eu cínica e desiludida a Petchorin de um tempo anti-herói.
Aclive de poder a que se conhece um pensamento. Cita-me a paciência vermifuga de Lermontov, esta cigana emprestada à castidade russa... Continua sussurrando em mim: roeu-me a alma e a incendiou. 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Isolada pudícia

Hoje eu amargo contigo a saudade que ela deixou...
 Tão logo o entusiasmo salvou a aquarela. Reencontrada no estúdio de ensombradas palavras, a distância ao fundo daquele cerne correu vazia, então a fechadura procurou tranqüilidade... Seu rosto escondia-se de álbum em álbum para não enrubescer-se... Mas de tempo eu lhe conseguia um sorriso registrado de memória e sua fala melíflua logo organizava as atenções para seu fantástico Hoffmann com Offenbach.
Pedir-lhe-ia a amante cigana que me cantasse “Minha lareira...” e que seu piano estirasse as oitavas. Contudo, o lume do meu olhar abobalhado desconversou meu corpo com a argúcia dela imersa em Bernard Shaw! São bonitos os seus dedos, mas é sem rosto, como título de Teleshov, a sua concentração! – Que eu acabe com esta, se não me acabar antes. – Naquela hora, o espelho a nossa frente sobrevinha à culpa juíza da sensação de prazer... Agrada-lhe interromper e deixar de ser lamento!  Sortilégio de amiga conversando coincidências para melhor se divertir, proporcionando a sua terminada declaração, como figurada em Tchapaev.
A tola última vez que a minha resposta a viu foi num doce entristecer de um blues que ela tocou... Uma atmosfera instagnante atormentou minha íntima cara fiel quando ela desistira: “Gosto-te, mas como gostar de ti, Lari, uma mulher que gosta de outra?” Representaram-me, naquele momento, as insatisfações de Ivanov e Treplev. Inútil ser da existência ideal, com a fidelidade que lhe faz sombra. Galhofa sentimento em indiferença e postura. A felicidade depois não teria nada de triste... Mas tornei à minha atração de análise moral nos anseios tolstonianos de Nikolenka Irtenev... 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Crônica epistolar: do meu leito...

Ah, este leito! Quão frio é o tecido na sua plástica receptiva. Pouco tempo ali observada, me pontuei aos olhos concretos sombrios que me encobriam. Minha amor, minha linda! Paradoxalmente tenho a falta do teu ninho! Entretanto, querida, prefiro que te mantenhas alheia ao que me lastima e adoece. Nada mais cruel seria para e em mim que causar-te desconforto. (7:36 a.m)
Rhode, minha colega, tuas mensagens, teus olhos, nossas bocas, nosso ser. Sorte abençoada que aproveito na tua moradia deste meu lado esquerdo, por ora, paralisado e dormente. Ainda aqui trabalham a sistólica e a diastólica maneiras, correndo vida nas idas do tempo, mas nas vindas do teu conforto, minha amor. Posso estar incompleta de corpo, mas de nós duas... Mais aspiro o oxigênio como de ti trago na boca o sentido amado que me dispõe teu prazer. (11:35 a.m)
O mais puro dos prantos se derrama espalhando a linha desenhada do teu rosto. Oh, minha menina verbena, como soubeste do ocorrido? Eu pedi para que te preservassem, pois angustia-me que a força em mim esteja prostrada e que mal possa eu te acolher em meu peito! Teu rostinho tem a virtude de bem-querer: sorte de mulher! Comemoro, então, com a destra a tua pele, deslizo a destra da beleza nos teus cabelos negros até o teu colo gracioso e macio, que logo mais o perverto nas iniciais costuras de tua blusa... Amo-te de mim, querida, que de tanta força tens para impulsionar meu moinho sanguíneo ao encontro das águas. (5:46 p.m)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A hemorragia da civilização

As épocas não perturbam o sentido aguçado da dominação. Educados ferros, à sorte besta da cara, surpreendem camuflados por flores o corpo da pele curtida à primavera... A beleza suscita a crença vituperada da imagem. Aniquilada transcendência a qual dissimila nossos passos macios na expectativa.
Justificada conversa cuja regra à mescla de voz tudo dissipa frágil e superficial. A dificuldade do abraço – a fluidez do adeus –, o tudo que se planeja aumentando o quando até o derradeiro murmuro. Sem colheitas com os olhos enamorados, o sorriso é pretexto da carne no movimento coletivo... Executaram-se trechos de si entre a atmosfera e o entusiasmo. Verdade prolongada, seja de horrores que provam o sobressalto d’um formigueiro inepto enquanto faz-se pândega de fortaleza marchada.
O combate é a nostalgia do interesse. Projeto e amor são bases, com angústia, indefinidas, mas considerados da alma e da pura desordem sujeitada. A ortografia do estímulo imediatamente quer a coerência das linhas num escorrer estóico sanguíneo. Vem da energia o término do mar de si! Levou-se. Tímida e velada, a esperança se encosta calada no disfarce costumeiro das oposições. De vazio, a indiferença parece a ela mesma um cantinho habitual de frases absolutas... A voz remota se conteve e se assombrou no gole do vinho transformado. Sopesou da boca o entusiasmo beatífico.