sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Crônica epistolar: eu, tu, nós duas já temos uma ilusão...

Quer ser... Amada? Mas amada pra valer?
Planejamos do labor ao confessionário: ensinamentos ativos de conteúdos projetados rapidamente para o fim, para enfim o resto ter de nós duas o desleixo do segredo... Reter na concupiscência do assunto louco, em meio à pedagógica renovação, aquele beijo reticente dado por certo. Tudo ou mais nos parênteses visíveis da razão, esta também negada às grades que ensombram os códigos emotivos entre um café e outro, transpassando bandeira e olheiras...
Tenho para ti as dúvidas, até que o tempo se arraste, somente para eu ficar ao teu lado... Arranjo besteiras formadas pelas tuas teorias e tudo que me choras acerca de família, trabalho e amor. Não percebes, mas a tua experiência te abre a mim. Arrasa comigo... Rasga minha intenção de ser sua amiga, mas, aberto futuro, chega a me dar medo do que eu te preciso: dizer “eu te amo”.
Fecho e abro a carteira de cigarros durante páginas inteiras... Se eu junto as peças e misturo-as resgatando nos gestos teus alguma sinestesia gostosa de estar a duas, n’outra parte pode se situar o engano – e jamais quereria eu provocar-te dano! – mas, perco a destreza, viro após a despedida apenas para te acompanhar com os meus cuidados... Ah, e tão lindos passos fazem-se caminho, que minha verdadeira casa é levada no teu mais profundo regaço! Logo, o abandono se apraz na irascível conduta da espera, lá num cantinho... Eu te observando: coisa de menina.
L.P.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A minha Helena...


É rosto? É jogo? O que te apaga? O que me apega? – Meu samba valsado – procura-se, busca-se, aos mil dias antes de te conhecer... Teu nome? Que clássico és tu? O que te comanda? Que verdade és tu? – Ou és mito? O nome da música? Tuas musas?
Tua legenda? Tua cultura? Tua moldura?
O velho sentido. Que sentes? O que te existe? Que realidade me és tu? E teu resto? E tuas sobras de sombras mensageiras?
Haja décadas e tua cara...
Haja conflito e tua cara...
Haja poetas e tua cara...
Quem?
Algum arauto me declame sua vontade! Não que me venha a integral bonança, a qual exaspero, mas aquela que sua despedida seja cômoda... Helena, a irmã andante dos olhos – imaginativos e circunstantes ao jeito apregoado do espírito. Nem mulher, nem natureza: amor. Sobre as ameaças do beijo, o rigor plácido, amêndoa santa da ceia, parece ser a garganta espessa dos gemidos salivados de Safo. Ah, Helena! – apelido machadiano que lhe concedo... Os paradigmas são verticais como as pernas. E tais normas de Helena têm todo um passeio de mãos entre línguas por sua meia-calça e sua saia tradutora d’um joelho que eclode carência... São montes, massagens pacientes e sinuosas. Entre elas, generosa trança que afunda o regaço do olho nu! Ah, Helena! Helena de tabu e normas grossas e brancas! Eu acostumaria minha cara entre os vales de Helena, e Helena de bruços sobre a curvatura do mundo...

- Quero ver se tu és tão forte, a ponto de, nem bem lá no fundo, não desejar... – Testei Helena.
- Posso provar com ação em vez de palavras?
Então ela brincou comigo como o menino Chico, com o meu arrepio, e arrancou com os dentes a minha resistência marcada para o fim... Quando percebi, Helena encostava a cabeça e a boca nesta minha montanha, arrepiando-me com suas finas mechas louras e recolhendo todo o corpo líquido de sua aspirância...
He-le-na! Ventura desta sirena que decide, náufraga, servir à morena bela cobertura das águas... Rimando a minha Helena, a borboleta noturna cobra de sua mulher a corrente das próprias melenas que ela puxa, obscena...

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Molde quadro

Molde Quadro (1992)

Se fosses areia, eu, o (a)mar, te levaria... (Foto: Larissa Pujol)

O ocaso anuncia,
            Em sua áurea crepuscular,
O moldurar do repouso

Enquanto tuas madeixas se movem
No arfar do meu colo,
É desejo da falange acompanhar
Os mesmos traços da tua guisa:
           
            A escreverem novas histórias...

A boca duvida entre teus olhos
            E tuas mãos

A breve passagem do inteiro
Sem início, tampouco volta;
Talvez seja este o lugar do céu –
No solo do sentir dos braços...

Semelhante entrelaçar dos dedos
Olhares do por que num corpo primeiro

Inexaurível relação
Entre o asfalto e as matérias,
Adormece e desperta na sua mesma face imóvel
O sol, a enchente, a noite e os passos...

São suas visitas...

Assim como o caminho entre tuas mãos e teus olhos
Ou no desconhecido maior em ti...

Parte das quatro estações,
Cerne que anseia o brando ninar do calor...
No continuar da boca? – a palavra, o sorriso...
Bramidos.
Inócua pintura de um quadro,
Permito o salivar das tintas...
Seguirás? – a tua resposta?

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Pessoalmente a Clarice: um poema de conversa

As conversas se trocam entre beijos compartilhados indiretamente...

Pessoalmente a Clarice: um poema de conversa...
(De Larissa Pujol, vencedora do Concurso Literário Felippe D'Oliveira, na categoria melhor autor)

Distorcidas páginas manuscritas
A bege maquiagem e os olhos turvos
Misturam-se o álcool perfume
O álcool remédio
O álcool transição

Nossas vestes femininas
Tua boca traçada e poema
Meu sentimento esquema
O espelho contrário das roupas íntimas

Pensar é teu ódio
Sei e te procuro porque sabes
As conquistas em contramão observamo-nos,
- O testemunho litígio dos nossos dissabores -
A face esculpida por antônimos
A feição entendida por sinônimos

Alento e olor são tuas palavras
Sussurradas e surradas de sentimentos...
O tripé contingente em ambas
Defeito perigoso destruído em nossa planta
Perpetuam-se os platônicos enredos
Nas figuras sépias dos nossos álbuns viris

Sem cerne, nosso dístico ainda planeja o furor feminil
Pela falta desta dureza em nosso regaço
Impossível encontrá-los, homens, na virtude do nosso pó

As tuas celeumas narrativas conselheiras
Infortúnio traço divisório da coragem
                              [entre o grito e o maligno silêncio]
Oblitera-se a mão amiga nos desvios da incessante busca...
Reformula-se a página semelhante
Entre as riscas do descrito atavio e as espirais perguntas sem respostas...

Uma carta, amiga poeta;
Sei e te procuro porque me ajudarás a saber;
Retiro os olhos do instinto sonolento de pensar
                            [vistas a atuar nas emoções eternas]
Diferente do corpo-matéria que me instrui o medo
Admiradas, esperamos o edificado fátuo dos nossos homens,
- Ironicamente dedicadas - mas são estes que desejamos!...

Circular solidão do anel de saturno
Dar a volta por cima,
Em cima da esteira giratória dos erros taciturnos
Perigo que me indicas tu, poeta,
A ânsia de acertar,
                                    [a correção das minhas verdades]
Nesse obediente papel de ser,
Confesso-te, eu só posso sentir
E pior, sentir sem coragem...

Quiçá neste sucumbo contato eu o toque...
Entre os corpos antônimos, os sinônimos...
Tu gritas e pedes para eu gritar novamente
A vogal primeira do surto sabor amargo do impossível
Zênite encontrado em nossa verve!

Encontrar-nos em vezo nesta dissimulação mutante
Os caleidoscópios a nos criarem figuras indeléveis
Múltiplas vozes confundem o apreciado modo de viver

Solilóquio; as palavras dissolvidas neste meu curto espaço
E são muitas dentro de mim, poeta...
São as tintas jorradas em telas registradas antigamente
Conversas para os ouvidos destas paredes
Certamente, não sou eu. É o meu ambiente...  

Nas palavras, o teu domínio sobre o mundo, caríssima poeta!
Resumo-me na cala desse sôfrego entendimento
Obrigas-me a respeitar-me e a não perturbar minha infinidade
Sei que sou menor que este vórtice descoberto em mim
- Planos derrocados para me alcançar...

Esses teus olhos no peso da lembrança...
Desconhecemos os próprios mistérios
Encobrimos nossos segredos nos mistérios alheios
Semelhamo-nos aos seus enigmas
Por mor de complicar a solução de si mesma...

Rendo-me às tuas palavras, estimada poeta,
Sem procurar entender, apenas viver o novo
                                                       [ou o novamente]
Criou-se um impossível, logo sou...
Das faces maquiladas ou amanhecidas,
O “quase tudo” nas procelas do corpo feminino
Toque de fina textura em nossas sedas
As palavras alinhavadas nas agulhas das semelhanças...
Para ti, cosemos as perguntas sem buscar sê-las
A sina rudimentar de conseguirmos viver, sempre, apesar de.

Despeço-me.