sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O rastro e o caramujo

Sem mais inflamam-se os maus juízos proferidos pela pausa dos que esperam. As pernas correm a pé apenas o sangue circundante, cavado nas veias da sistólica ansiedade de qualquer maldizer...
As coxas apoiam o projeto, descansam o labor. Somente a inspiração, ao alto sonhado, voltou-se para ali e despencou desfazendo o nome nos fiapos do cansaço. Os dias provocaram! – é a desculpa do desleixo emocional que os deixou de lado – para trás. No entanto, a cinza do asfalto e das calçadas recebeu os passos voados sem adequação do tempo na vontade de si mesmo, enquanto a lesma antecipou sua lenta precisão e grifou sua passagem de um sinuoso caminho a outro.
Ninguém viu sua pressa voraz. A avaliação se fez seca e paupérrima na deficiência de sua própria marca. Não fez para melhorar, restaram-lhe as informações abandonadas pela saliva. O mais trabalhoso também tortura a gente pela morosidade... E o suor dá polimento à coroa que premia o sonho.
Ser a percentagem que convém a firmada permanência de si nas habilidades. Cálculo da letra somada à amostra de um bom tempo, com o qual se tem a sorte nata de praticá-la. No chão incidem os rastros do caramujo, este permaneceu na vida do pensamento compartilhando caminhos. A pessoa se desfaz da lenta apreciação e se elogia com a casca sem rastejar. Não pressiona o passo, não permanece. Voa o tempo, mas não voa o seu ideal. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Tão inesperada quanto intensa...

 Esta noite tive um sonho
Um sonho muito atrevido...
Apalpei na minha cama
A forma do teu vestido
(Mário de Andrade)

A sua chegada comporta uma erótica. Com breve vestido, Rhode é tão inesperada quanto intensa! Intensa na sua certeza, inesperada na audácia de sua guisa brincalhona do tempo. Rastrear a obra de Rhode, do seu sorriso transitivo ao poema fragrante, observa a tensão da matéria erótica... Namoro-a desde sua medicina à sua sensualidade. Talvez a sinta dispersa e realmente intensa por tais fragmentos desorganizados de ímpeto e deleite que coleto à ordem do erotismo.
Corpo miúdo de uma “pornografia desorganizada”. Cultura popular de sua beleza – tesouro exemplo na feminina compreensão de vida. Ela elenca o meu eu-lírico que a desenha apalpando-a na ordem estética, com sua forma vestida do proibido. Meu Eros típico de sonho atrevido, que antes desperto convence o domínio do proibido na minha vontade de dar forma ao escondido, derivando o desejo...
Maria atravessou o regato
Molhou a barra do vestido
Na água deixou o retrato
De tudo o que estava escondido
Quero avançar a questão com o outro rosto – escondido sob o vestido – de Rhode. Deste outro rosto clandestino figura-se o retrato sutil daquilo que imagino nela! Sou peça no jogo do que é proibido e do que é representado, cuja artimanha da palavra de Rhode vence o calado. Sua desbocada argumentação se repete gozada naquela risada aberta de grande preenchimento e elaborado buraco – ao qual enfio a minha linguística sequestrada, aparecida sob vários disfarces para se referir ao seu outro rosto, oculto. Faço a evocação dela com inúmeras observações que a retiram do tabu (e do trato de ser minha colega!). O que se redime nela é a falta pelo excesso, isto é, as substituições que ampliam o desejo deste proibido indefinidamente e que marcam a erótica praticada por Rhode na mulher. Uma particularidade sugestiva e provocante, de vestes decentes, mas muito maliciosas.
Engenho magistral de hermética ancestralidade com eclipse. Regrada lira de grave verbo à face animal do que ficou escondido no celeste retorno do proibido. Desastre natural e devastador de Eros no que a ama lado a lado com o preconceito.
Digo o verso objeto da censura: dizer mais que o original. A mulher em Rhode é alusiva e afirmativa. Ela contorna e toca no centro! Vence o proibido com essa criatividade de corpo e palavra. Na vida, o meu Eros a ela é silenciado: hoje falo o que a reduz ao proibido, e o que me preenche ao buraco desta mulher, que é (muito) mais embaixo...

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Em terceira pessoa

Percorrer o cimento: há flores pelos trilhos.
Não deixar escapar entre os dentes o sorriso: há fome de Ser!

A busca, como Maria, tem a estranha mania de ter fé na vida. Tem o romântico ceticismo de não acreditar na volta, no renascer. Para ela, a morte guarda com carinho os presentes que a vida lhe dá. Logo, o momento se diz fim d’um último segundo.
Enquanto espectros, somos seres de uma dança sem lugar ao som de uma música sem tempo... Sim, a morte possui uma estranha felicidade: diferente da vida, ela é sem tempo e sem espaço, como qualquer amante.
Nunca pensemos que o problema é solitário, já que o corpo é livre como o público. O erro apenas se torna infeliz na discordância do outro; e este é o ouro que salva o pensar do incômodo... De ti mesmo saberás com que certeza o mundo te olha. De nós, logo receptivos, saberemos, como o ser humano terá de melhorar. Voltar sete vezes no anteontem, se for necessário, num amanhã de novos tipos de pessoas da mesma mudança.
A história comoveu leis, misturou alimento com sangue. Fez-se curiosa na criança que mais quer saber. Quanto mais se define, menos se conclui... Mais ainda se tocamos o conhecimento no outro: sem segredos, não há amor. Região fronteiriça e dual o indivíduo com sua linha tênue chamada matéria, que o difere na imaginação – este mar de dentro em meio à tempestade num corpo d’alma.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Reflexões entre colegas: o doce e o maduro

Ensolarado final da manhã em que minha colega e eu nos dispusemos os pés para fora da escola e, enfim, conversar algo somente nosso... Aos passos da rua, ora reta, ora escorrida, ora íngreme e escalada para o céu da fadiga, as velocidades dos mobilizados partiam sem dó os nossos assuntos. Falar alto, dar licença, desviar dos esperados e estar sobre as regras da faixa soavam o antissocial íntimo de nós duas. No rabiscado trajeto dos temas comuns e alheios, minha colega comenta sobre uma conhecida:
- Ela tem o hábito de jogar frutas maduras no lixo... Desperdício estúpido! A fruta madura está no seu estágio maior de doçura e deleite amolecido...
- A natureza frutífera e nós, humanos, na sua magnitude senil... Percebe, somos a elas idênticos.
- Verdade. Meu Deus, nem no meio do fervor transeunte tu deixas de ser filósofa, Lari...
- Quando jovens e adultos, temos a rispidez a favor. Temos a intolerância da razão, o ganho da subserviência sobre a sobrevivência de si. Somos verdes, belos por fora, antes sustentados por finas ramificações paternais com toda generosa gravidade que nos mantém na soberania e na soberba da bela conquista. Não obstante, somos rijos por dentro. A boca emocionada que experimenta tal fruto novo e verde se enojará com tamanho azedume de tempo para isso, salário para aquilo, mais os planos à saliva gasta com o melhor argumento para o trabalho e reprodução familiar...
- Continua me adoçando, por favor... – Exigiu a nobre colega.
- A companhia de pessoas maduras, com mais de 50, é a melhor paz. Logo, sente-te convencida! Apraz-me muito estar contigo. – Enrubesci este elogio inocente e sem-vergonha a sua maturidade...
- Minha paciência já não é mais provada. Estamos aptos e prontos a tudo. Cada tamanho de vida é viver novamente nesta fase. Experiência para mulher é mania.
- Então o fruto maduro, que a tudo já acompanhou, terá de si a própria rigidez vencida e a paciência mole agirá com sorriso... Um sorriso como o teu.
- Ainda mordo. – Riu copiosamente esta linda!
- Mas tua mordida fecha os olhos e sorri as bochechas. As linhas expressas ao redor da boca ilham todo conteúdo gostoso de satisfação. Ao contrario da testa que se rasgou com a juventude pensante e aspiradora de surpresas... Voltando a fruta, querida colega, a casca madura pode ter sua fealdade, mas o fruto dentro é o costume do bem sentir. A nostalgia, na maturidade é uma saudosa alegria de fruto! Tudo passou e se tornou cantiga de roda...
- Tu és saudosa, Larissa. Isto é um traço do Romantismo, não é?
- Sim, o romântico é saudoso. Pelo menos, particularmente falando, a pessoa se ilude com minhas histórias, não com minhas promessas.
- Que teoria bacana, minha amiga. Desenvolve-a. Ainda mais que a tua casca está e é linda... Tu és um conjunto completo. Vivida e linda.
- A velhice é um clássico pela alegria. Recordo-me de um trabalho apresentado pelos alunos, no ano passado. Tratava-se de relatar opiniões experientes sobre os modismos regentes. Um grupo entrevistou alguns idosos no Calçadão, perguntou sobre a dança funk, e eles responderam que achavam legal... Isto causou a comoção geral da pesquisa, que os alunos contestaram durante a apresentação.
 - Imagino, no que tange ao possível feio e ao grupo...
- Pois é. Disse-lhes que o “achar legal” é totalmente compreensível no momento em que a senilidade se encontra. A juventude destes entrevistados, - continuei – se expandiu para conhecer o mundo, se aborreceu, julgou, brigou, argumentou, ferrou-se, levantou, venceu e cansou... Agora, para eles, até cuidar da própria doença é um motivo de alegria... Pois o cuidado os mantém comprometidos, sentindo-se úteis a si mesmo... Tudo, a partir de todos os momentos do hoje, para eles, é maravilhoso.
- Teu comprometimento com os alunos é fascinante. A sensatez é um dos quesitos da reflexão, e a dúvida instaurada antes com a pesquisa dos alunos, fomentou a sabedoria, orientada por ti.
- Ah, são os seus olhos...
- E posso-te dizer que deito à sombra da melhor árvore que já conheci: tu.
- Bom saber que te sentes acolhida, nobre colega. Fascina-me muito que estejas ao meu cuidado... Pelo meu tamanho, com certeza tua imaginação viu em mim uma figueira... – Sorri ao brilho infantil da sua pareidolia...
- Ah, Larissa! Tão querida e espirituosa. – E se envolveu em mim, porque nada mais na cidade nos importava...
Até que eu encostei meus olhos numa cantina de açaí durante o seu abraço dela...