sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Relato docente: a dúvida e o questionamento

Enquanto eu mediava o processo criativo dos alunos – que se acertavam entre poesia e disposição visual – um deles me evoca:
- Criei inspirado no jogo do “pac-man”, dos anos 80. Os caminhos a seguir, melhor, a escolher: o certo, o errado e o duvidoso. Que a senhora acha?
- Hum... Os monstrinhos no errado, os pontos no caminho certo. No duvidoso, ambos se juntam ao bônus... A proposta é interessante, mas... Tu erraste a palavra!
- Como assim, professora?
- Imagina tu chegando frente à placa na qual diz que o próximo passo é duvidoso. Tu recusarias a seguir em frente, verdade?! Ou te atrasarias muito ao tentar decidir com o medo que te enfrenta este caminho: logo te prenderias somente ao ponto de partida.
- É verdade, “sora”. Nunca pensei no quanto a dúvida nos amedronta. Mas, ai... Agora eu fiquei ansioso. O que faço?
- Tu mesmo te respondeste...
A face do aluno, como um filho, questiona.
- Sim. O caminho auxiliar ao certo e ao errado, meu caro, é o questionamento! A questão te prepara e reforça teus passos. Esses podem, até, ser mais curtos ou tardios, no entanto a curiosidade ao questionar te dará alguns “bônus” para evoluíres de etapa e te defenderes dos perigos. A dúvida instiga o medo, a volta, a desistência! É a ânsia de acertar numa terra de ninguém.
- Então, “sora” Larissa, existem os caminhos certo, errado e o questionável. Claro!
- Ponto! Bingo! Gol! – Vibrei com o caminho que ele escolheu para além da atividade...
Assim voltei com a minha torcida para os demais questionamentos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Àquela que eu não citei as cores

Se tu me deixas desfrutar
Esse róseo pálido do teu fruto
Belo feito bruto diamante
Digo-me amortecer num halo encoberto crepúsculo

Faltam-te as cores

Doente pálida cara funérea
O róseo movimentar dos lábios
E o oco escuro da tua boca
Que esconde a serpente vermelha
A sobreviver pelo ataque

Rósea coloração das pulsadas
                                 cardíacas
Em múltiplos caminhos azulados,
O roxo hematoma do beijo mordido
Suga o sangue, vampiro do colarinho degolado...

Na pele branca
Os dentes brancos
A liba vermelha e escorregadia da obsessão

Não te falta a fome

Tampouco o sorriso amarelo
No pouso das rodas do pássaro prateado.
Guardadas as asas quebradas
As penas cinzentas flutuantes apaziguarão este remendo...

Sobram-te praças

Banhas-te em pingos de folhas verdes
Algumas velhas amarelas páginas, roídas folhas
Desgraçadas traças manuscritas...
Cerco escuro alumiado fumê
Desta noite...
Estrelas te alimentam.... Alento branco esfumado em tua boca...

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Um causo daqui (para os anais da escola)

Passada mais da metade da manhã, tudo na escola se conduzia para o primeiro desfecho. Os professores, já esclarecidos das reuniões, cruzavam o portão se despedindo. Alguns continuavam no refeitório a esperar o próximo turno, outros resolviam pendências na Direção, outros ainda não haviam descido do terceiro piso...
Lá se encontrava o quarteto vice-diretora, supervisora, secretária e coordenadora, anotando, repassando, ajustando pedagogicamente as sobras da manhã conforme a rapidez frouxa da fome que se apertava...
No emaranhado da concentração e da discussão, todas ouviram um estouro. O primeiro estouro (ou estampido, logo três delas assim o definiram)! Silenciaram-se atônitas e ouviram o próximo “estampido”.
- Meu Deus! Um atirador! – apavorou-se a secretária decidindo-se por fechar a porta da saleta na qual elas estavam...
Enquanto isso, a coordenadora seguiu sentada com cara de paisagem, a supervisora conseguia se aninhar embaixo da escrivaninha, e a vice-diretora buscava escapar ora tentando calcular os metros que pularia da janela ao chão lá fora, ora tentando se encaixar dentro da geladeira que ali tem... Mais três estouros num espaço de três segundos!
- Quietas! – ordenou a que tinha voz mais baixa – se não o atirador vê que estamos aqui e sai atirando a esmo!
- Shiuuu! – completou a supervisora.
(a colega que estava sentada com cara de paisagem continuou assim assistindo à cena)
Os passos se aproximaram da sala onde o quarteto estava. Chegou à porta uma respiração arfante que lá dentro, ao contrário, todas ouviam respirando o menos possível para não serem descobertas. Eis que a voz procura:
- Senhora vice-diretora! A senhora está aí?
- É a Marieta. – disse a secretária.
- Não abras! – ordenou a vice-diretora.
- Vou abrir sim! – esbravejou desobedecendo-a – Se o atirador a encontra ali, sozinha, já era! – E abriu a porta puxando Julieta com um safanão para dentro da sala.
Marieta, assustada, perguntou que havia. A secretária correu a dizer “É o atirador! É o atirador!”
- Silêncio! – soprou a supervisora, ainda embaixo da mesinha.
- Ouvimos cinco disparos. – continuou a vice-diretora.
- Cinco estouros, na verdade. – completou a coordenadora ainda com a cara de paisagem. Marieta então abriu o rosto com expressão de remorso...
- Ai, senhora vice-diretora, me desculpa! Eu não queria causar esse transtorno pra vocês!
- Ahn?! – uníssonas.
- É que eu estava limpando uma das salas do segundo ano e, como os alunos fizeram uma festinha, resolvi tirar tudo e estourar os balões... – justificou Marieta.
Até o desfecho da trama (e o fechamento daquela sala), os disparos de gargalhada matavam-nas com tamanha graça.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

E se amanhã a angústia

Ela pediu que o meu corpo renascesse em Corradini...

Amo-a calmamente entre os meus e os seus braços. Amo-a para esquecer, seja por um instante, que somos escravos da pressa que nos resta. O medo ainda pode ser um cuidado com as mesmas mãos que sufocam o trajeto do livre ar durante o corpo. Mas, do abraço dela eu tenho a composição para escrever em pé e repelir letargo...
Então, neste tácito mergulho de pelos que ornamenta o piso, juntamente estampado com suas peças íntimas e com suas arrugas, estudo um pouco sobre as relações entre modernismo e mimetismo animal. Desfaço-me da arapuca: a arte é um organismo liberto. Nada que te cobre vale tanto quanto o que te despe.
Entretanto, ela não era resoluta, tampouco senhora de si mesma. Permiti-me a sua aflição, sua controvérsia de criação. Deixei-a se questionar (e a se cobrir). Não mais a olhei... Cada eu sabe de sua liberdade. A irresponsabilidade ao usá-la vem do desconhecimento sobre si mesmo (ela continuou protegendo os seios, abraçada nos próprios joelhos). Assim confirmei que a chegada da proibição traz uma forma de comodismo... “A esta altura da minha vida” – surpreendeu-se consigo aos seus quarenta e poucos.
Cabe a educação esclarecer a dicotomia “culpa e vergonha” aos infantes e à velha teimosa guarda. A vergonha está ligada à ilícita continuidade até que se saiba do dolo. A culpa, por sua vez, percorre ao lado da autonomia: certificar-se do erro e prever-se pela consciência. “Tu estás entre ambas?” – procurei-a. “Não... E menos ainda sou acomodada, Larissa!” – revelou-me assim gostar do conhecimento, tirando da minha pele o alimento para a sua inconformidade.