sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Machuco o beijo

O limite mostra diversos caminhos que chegam a ele. Já agradeceu a sorte de ser escolhido? Teme se resolve pousar enquanto as asas não envelhecem ou se seus pés criam passos envolvendo lembranças. Em cada tentativa de censura, existe uma sabedoria capaz de cruzar o olhar com a luz. Então, os dias vão aquecendo a caminhada neste amor que, a-mar, transborda.
A carne jovem em dança evapora... Desaparece pelos passes a sua mágoa, e os olhos alegres rompem a aurora... Todas as horas levam ao fim, como baixando o véu róseo das figuras sombrias que se tornam os mais belos trejeitos abstratos do que se pretende. Meu D’us, há uma cintura em meu horizonte... À minha janela, por onde meus olhos lhe perseguem os vales, meu primor vem a ser a angústia de sua saudade...
Na verdade, amamos tudo o que nos desobriga! Mas, quando aprendemos que o sofrimento pode nos melhorar apreendendo-nos, virar o mundo de ponta cabeça, ocasionalmente, é questão de exercitar a resiliência. Sair da caverna de Platão para brincar de Aristóteles numa vida que transcende a filosofia... As idéias submersas dissolvem-se em pétalas além-flores de si. Descobre a bela ida mergulhada em si, cujo ar que a vive submersa, a inspira.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Pluma

Ela ia ao sabor da direção do vento. Testava o horizonte na percepção de uma nova ideogenia... Uma amenidade que me conteve ao mirá-la. Segui, então, a sua doutrina por alamedas e olhares facilitados. O espaço tinha a ela! Individual figura que me concedia o mito do belo, aliás, recompensava.
O dia se depauperava. O sol se despediu com imponência para o ciúme da noite que chega. Pessoas se afastavam fastidiosos, aceitando a desvantagem de suas energias... Os muros fechavam seus olhos com as sombras vindouras... Mas, ela, aqui permanece e torna clara a graça deste tempo, que sempre é hora de amá-la. Em minhas mãos ela se traz habituada com o meu silêncio... Solta-se e me dedica flores a mais na minha vida: uma composição para escrever em pé e repelir letargo! – Repito. Sequer a lua, que longe adornava o reinado estelar, é acrisolada como ela.
Fazer uma notícia que ontem provocasse, pois, a infância. A novidade, deveras, sente a ocasião deste nosso sinal, cuja displicência dos sonhos aformoseou da amizade ao carinho, da espera à ternura. Foi lesto o crescimento, e por nós ele se apaixonou... A fresta que permitiu a luz angaria a nossa necessária respiração imediata. O apoio tomou as proporções de um horizonte sinuoso, tal qual provocaste na primeira linha deste caminho, – como eu deslizo minhas mãos por tua cintura, otimista.   

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O segundo sopro

Resolvemos dormir. Quem confia, na aliança do hábito matrimonial, o espaço de total descompasso do repouso, sabe que o sono apenas chega com o embalo de ambas as respirações, naquele abraço circundante da mesma noite.
Entre um comentário e outro brevemente fechamos os olhos. Era “meio-da-semana” e o meu descanso já penava durante o trabalho. Talvez ela houvesse dito mais algumas palavras, que o movimento taciturno do assunto me acomodou ainda mais em seu ninho...
Passaram-se três, quatro horas de repouso até que ela me acode, me reanima assoprando todo seu ar para dentro de mim, segundo seu relato:
- Amor! Graças a Deus! Estás bem? – ela não esperou minha resposta... – Tu tiveste apnéia! Tu simplesmente paraste! Paraste de respirar! A tua pulsação parou! E tu ainda não me respondeste! – Nesta hora observei que nem meu pai havia dito tantas exclamações numa só frase... Comecei, por fim:
- Não sei... Digo... Parece que “voltei”. Estou com uma forte dor no peito, mais ainda no pescoço, em sua musculatura, e nos canais aéreos que conduzem o ar aos pulmões...
- Não fales muito. Mantém-te acordada! Vou buscar água para ti.
E lá vinha ela com rara carinha séria confundindo seus quarenta e cinco anos entre as agruras da preocupação e o medo infantil de perder algo considerado valioso. Minha pequenininha...
Bebi todo o conteúdo do copo. As dores aliviaram. Ela fez massagem com relaxante muscular nos pontos dos quais me queixei. Fui melhorando aos poucos – aliás, aos pouquinhos, para ter suas mãozinhas me abençoando por muito mais tempo... 
- Como tu “descobriste” meu mal-estar?
- Porque eu despertei com a falta do teu “embalo” e do leve sopro que sinto quando respiras. O costume faz isso... Se tu não tens o que te é cômodo, tu despertas!
- Continua...
- Então notei que teu braço estava muito pesado. Foi apenas colocá-lo estendido ao teu corpo que ele “desabou” e levou todo o teu tronco para o lado. Desci da cama, acendi a luz. A tua cena me assustou, Amor. Eu te chamei uma, duas, três vezes. Eu te gritei! Mas tu permanecias inaudível e com corpo mole. Tomei teu pulso: nada. Tentei perceber um fio de respiração: nada. Não! Não pensei, nem penei chamando o Socorro porque sei que com a lengalenga deste serviço tu não sairias dessa, querida! Assim, puxei tua cabeça para trás e te soprei todo ar que eu dispunha nos pulmões...
- Faz sentido. Enquanto “voltava” senti como se esvaziassem um balão de ar na garganta.
Olhei-a com todo significado. Tornar-se-ia para um deus enquanto ela continuava com sua carinha de precaução.
- Que curioso... – sorri-lhe tremendo os lábios - Tu me deste o segundo sopro da vida.
- Isso se chama “primeiros socorros”... – sorriu timidamente.
- E único. Bastou para pegar uma parte de ti... De ser tu...
- Daqui a pouco serás tu a me devolver o sopro.
- Quem sabe começo pela tua nuca...
De fato, então, eu me mantive acordada, suspensa pelo fio condutor da vida chamado sopro - ora chamado fôlego, ora chamado tesão! Ela não compactuou com minha exaustão cardíaca, mas beijou esta região expandindo toda sua boca... Passado o dia, voltei do trabalho; e sobre a mesinha do telefone estava um bilhete com letras graúdas e corridas, agendando meus horários para diversas especialidades médicas... A minha pequenininha, como namorada, é uma ótima mãe...

sábado, 5 de dezembro de 2015

“Minha bela Marília”

Elegia. Desenho a lápis de cor e toque de caneta pinche.

Tomás ao seu nome agraciava com altivo vigor a calma da pétala no toque de sua pele. A beleza sua, Marília, usufruía o tamanho da paz, e as liras de pesar ainda lhe complementavam o encanto do meu pensamento.
O gosto em mim não faltou, Marília. A misteriosa flama criou de minha pequenez o corpo santo do meu fantasma adulto. Acreditei na memória implícita ao ter a consciência do depois. Agi automaticamente, Marília, ao lado que você não me via: era a benevolente capacidade da boneca que sua imagem me servia bela.
Não sabia, mas não parava. Melhor, tinha-lhe eu a mais rósea curiosidade. Ah! Aquela cara de Marília! Cara moldada na profundidade sanguínea dos diálogos de todas as gentes que dela nasciam... Cara de Marília, argumentada na melhor disposição da ventura de qualquer pessoa. E de tão minha pessoal, embora outro dia, ela ficava para sempre; pois não se despedia. Marília me era um ciclo.
Sua cara longilínea, com completo universo frequentado pelas projeções de anônimas vidas que ela se permitia nos espelhar. Marília tinha de nós o seu repertório. Dedicava-se a nós, aperfeiçoava-nos desde a fragilidade à polêmica – um rico recurso atribuído aos gênios...
A Marília foi uma das amadas platônicas que vivi, quiçá a primeira. Admirava a habilidade daquela larga risada que enjaulava dentro de sua boca a minha tenra idade de menina... Desde lá eu via na moldura daqueles lábios de Marília, como ela citou, o quadro inacabado do, por exemplo, meu apreço que lhe confiro até hoje. Não, "minha bela Marília", de você nada passa. Tudo vive! Tua verve.