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Mostrando postagens de 2016

Estive certa de que...

Na minha versão:
Estive certa de que era amor quando soube, definitivamente, que dividiria o protagonismo na sua vida. Ser o centro é a ambição do amor. Embora haja ciências como o Teocentrismo e o Antropocentrismo, não criaram, porém, uma corrente ideológica para o amor. Pois é querido que o sentimento amor – tão fundamental, aprende-se desde a infância – seja a prioridade absoluta. Então eu a amei no exato segundo em que percebi que não seria a sua primeira escolha.  Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, acompanhei-a de longe. Braços longos, alvos e hidratados, maquilagem leve de amanhecer, o rosto erguido, os olhos tão claros que pareciam cegos, amendoados, pungentes como a maturidade carregada nos seus cinquenta anos. Uma mulher magra e modelo à Christiane Torloni, à medida perfeita de catálogos de mulher-encarada-perfeita-capa-de-revista, sinônimo de feminismo e fortaleza. Chorando. Totalmente despedaçada. Agarrada à filha jovenzinha que partiria para outro…

Sobre São Paulo a sós IV

Compromisso era entre essas duas pessoas. Relacionamentos? Boa notícia: estavam livres de mensagens detetivescas para saber onde estava e a que horas voltaria. Decidiram mais tarde ir à casa dela para arrumarem um jantar com a rapidez de uma pizza pois logo sairiam para uma noite de MPB. Marisa Monte, Ana Carolina, Maria Gadú, tributo a Gonzaguinha, Nei Matogrosso no Anhembi... Quantos passos em São Paulo! – Refletiram sorrindo estrelas de Olavo Bilac ao ler a programação na Folha. Optaram estar e espiar à margem de uma música e outra. Foram se arrumando. O préstimo das cores adornavam o riso frouxo de batom vermelho. Dos lábios dela se assoviava Elis Regina. Outra interpretação para o “atrás da porta”, sendo o assovio uma escusa para atrair e dar o bote. Frente ao espelho, a miudeza daquele corpo era pingada por um short, uma camiseta desbotada de banda, pingentes simbólicos de paz e maquiagem assombreada. Um conjunto de boneca, deveras, que descarta os preceitos e os preconceitos d…

Sobre São Paulo a sós III

- Nossa! Se aquele dissílabo sorridente gerou tal argumento dela, quem ousaria entender? Apenas sentiria o começo de uma música que faria um castelo erguer-se na sofreguidão de mil venturas (previstas). *** Caminharam sobre a extensão de diversos assuntos. O Ibirapuera não cometeria com esmero a volta das horas como a haste horizontal do sorriso amigável da conversa. - Sabia que – olhava para o minúsculo relógio de pulso – já nos conhecemos há três horas? - Será que é fácil contar os sorrisos mostrados em cento e oitenta e cinco minutos? – Indagou ela. - Quando nos vestimos com o nosso melhor, a obra é um cálculo aberto da Eternidade. - Conceito: sorria sempre. – Ordenou a pequena. - A fantasia é um clássico significado. - É o que cabe no conceito. - E diversa. O que sabe? - Você tem poesia. - Descrita, ordinária e métrica.  Não houve tarde mais esquecida em São Paulo. Pinacoteca, Avenida Paulista, café na Casa das Rosas. A pequena paulistana explicava desde o concreto dos prédios à …

Sobre São Paulo a sós II

- Esta manhã colaborou com você. Verdade? – Perguntou a ela. Ela suspira resultando aquele risinho final malicioso. - Passei toda noite na Virada Cultural e amanheci com as buzinas da Brigadeiro. Fingi estar com amnésia e ainda não voltei para casa... Nem fui ao trabalho. Até estou mascando chiclete para dar o efeito de limpeza dental. Olhe. – ela bafora lentamente próxima a boca da pessoa ao seu lado. – Disfarça bem, não é? - Aroma de tutti-frutti. – respondeu – Tem um para mim? - Ah, aham! – ela abre a bolsinha tira-colo e acha um envelope de gomas em tabletes. – Pode pegar... à vontade! – frisou. E esta adverbial vontade foi mastigada junto com o intuito de saber mais sobre a menina, aliás, moça, aliás, mulher jovem que confiava suas artimanhas jocosas. A esguia matéria contida na sua figurada breve idade atraia os olhos daquela pessoa ao seu lado, que a assiste esperando aquilo que o cinema americano tem de melhor. Tomou coragem: - Eu ainda não acompanhei a Virada este ano. - Pô,…

Sobre São Paulo a sós

- Não, eu sou solteira. Imediatamente sentiu que lhe fora dada a melhor notícia. Quem sabe a amizade, nesta hora, seja percebida por dentro? – Felizmente a megalópole não deixa a pessoa só. – pensou assim que a conheceu. E ela? Sua idade, tal qual o tamanho “p” de suas vestes, traduzia um formato balzaquiano nas cruzadas pernas de Aline, de Iturrusgarai. Caminhava pelo Ibirapuera alternando a apatia, ora na rósea bola do chiclete, ora naqueles passos que indagam o porquê de nascermos compromissados com o sustento. Apoderou-se do banco do parque estirando suas pernas num aviso de pouca amizade... Não notou que ao seu lado havia alguém que bem a observava. - Sol do meio-dia. – disse ela na pretensão de ser porta-voz de suas pernas abafadas pela meia-calça acrílica. No princípio, quem a reparava receou responder com algum monossílabo grunhido. Talvez ela estivesse pensando alto ou, na pior das hipóteses, realmente falava privadamente consigo e cortaria de vez dizendo “não estou falando …

Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os…

E se enfim

E se enfim o sangue pudesse ter seu valor reconhecido por pintar o interior da capela? Logo também pelo seu rito genético dado no primeiro pedido em Genesis ao que o nascimento também pode ter seu significado de paz reprimido em um tiro...
Do crucifixo à cruz, a antítese de Pessoa confere o que Hegel entende de nós sobre a consciência. Dói, realmente sente. Mas prova da própria máscara para ver como será. Corre os olhos metaforizando a liberdade assistida. Exagera enquanto há corpo e oração, santificado seja enquanto homem!
Ainda haverá quem se dobre para forçar sua alma ao incólume final que lhe impõe. O perdão não convida à ceia, mas agrada na mudança. A fartura significa nova atitude. O ouro, a metáfora do bom-dia.
Como ser sangue se o tratado já foi assinado com a lança perfurante em nossa pele de alma cativa? E nós, lançados ao espaço, da palavra restou o gemido. Ah! O otimismo dos céus! Daquele otimismo que contamos carneirinhos buscando o sono e sem mais bocejamos incansáveis.…

Sobre sapiência acadêmica e disposição animalizada de se dizer o que pensa

Dentro de um sábado de sol lá fora, rindo à vontade do quão uma conhece a outra, resolvo nostalgiar um momento:
- Recordei-me quando estávamos entre amigos e, te apresentando a eles, disse que enfim havia eu encontrado a minha deidade...
- Ah! – pôs-se a gargalhar – Que vergonha... Assim retruquei: “de idade não, Larissa! De idade, não!”
- Haha... Mas não te acanhes, linda. Todos têm diversos significados para conhecer, seja por dia ou por uma vida...
- Eu percebi que depois deste meu fora, teus amigos ficaram de risinho sonso...
- Mas que – interrompi-a – a experiência de vida não te deixou abalar nem te rebaixar. Essa é a diferença entre a soma de títulos que eles se vangloriam ter e a experiência de tua idade que paga tributo ao teu singelo e sapiente modo de dar a volta por cima: finalizando com sorriso sobre as tuas falhas. Isso denota que não te preocupas e que assumes viver tais falhas humanamente. Isso é sabedoria...
- Tu tens a melhor forma de confortar meus cinquenta e poucos..…

“Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho que hoje eu passei batom vermelho”

A boca vermelha. Doce cor ressuscitada à Bela Adormecida do sexo. Está ela ficando velha e experiente em me deixar insone! Ao contrário das outras bocas encarnadas que ordenam aproximação, aquela boca afasta. É subvertida! E divertida ri da marca deixada por ela na minha bochecha. 
Corou essa com toda vontade dela. Da boca dela. Da palavra dela. Um desenho dela com a artística pesada daqueles lábios grosseiramente superiores a toda negação que eu lhe queira proferir... Prefiro-a! O vermelho pintou-a, tornou-a musa “alegre como dom” de sangue palpitado às nossas curvas tremidas dentro do vestido.
Deu corpo àquela carne de cor. Grudou óleo ao borrão entregue a sua nudez. Espalhou desespero e exaspero às finas arrugas dedicadas ao meu sabor. A pele minha ganha a cama da confissão dela “ao pé da boca”. Não há ouvidos senão para as promessas grunhidas daquela boca. Não há ouvido que mais se aguce senão para os desmandos daquela cor vermelha.
Desando... Desatando o laço. Dormir é uma peça de…

Aliança

Observou a roda viva que no símbolo figurava-se o moinho de voltas triturantes. São órgãos e lágrimas à água movida para não apodrecer. Somos crianças e incertezas a partir do silêncio que a promessa do fim prospera.
Sem mais, vestidos de moça não ventam a roda viva. Se promete ela sambar, que faça em cima do meu caixão. A fita amarela de sol antigo e brasante com bravura desmancha a ternura da voz ansiada ao ler o nome dela ali escrito. É dizer, salva-vida n’algum expresso suspiro ao nascimento qualquer.
No alento, uma queixa resumida. Foi na sua espera a criação da minha desculpa. Um tempo ardiloso em que a poesia torna-se a rima da hipocrisia... Sonhou a esperança. Cantarolei Cartola inspirando-lhe confiança à sua responsabilidade. Dei-lhe liberdade. Ela compromissou a liberdade dada. Significou amor.
Um pêndulo à sorte do humor. Exclamação duradoura durante o reticente amanhã vindouro. Perante as mesmas águas movidas pelo moinho já tomamos decisões importantes no seu final à beira-m…

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades II

- Ainda não compreendo tua tristeza desde que saímos. Tentei pegar a tua mão e te esquivaste. Tentei te acolher, mas desisti quando usaste a desculpa de preferir o envolto frio da echarpe ao meu abraço... Estás aborrecida! Diz-me por que.
- Porque tu me fizeste passar um mau momento.
- Eu?! Eu por quê? Alguém te ofendeu sem que eu visse? Ou...
- Não. Todos foram amáveis.
- Não gostaste dos meus amigos?
- Não são teus amigos! Não foi a comemoração! Não foi o local!
- Então o que foi?
- Fui eu! Eu! Eu que completamente estava fora de lugar!
-...
- Tu não imaginas, Larissa, o mal que me senti quando, por exemplo, me perguntaram “que opina: a convivência mata a paixão?”. Ah, como eu vou saber? Estou casada há mais de trinta anos. Nunca tive tempo para considerar. Outro fato “o que a senhora faz?”. Eu?! Agora estou aposentada, mas só me dediquei à minha casa, às minhas sessenta horas de colégio, a fazer as compras do mercado, a atender ao marido e aos filhos. Sim, eu tenho três filhos! – …

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…

A sorte da Rosa!

A insustentável dificuldade de domar sentimentos. Calar-se sobre eles. A gente se cala, mas muito se suspira... A gente reclama do domingo, mas se lembra que o melhor da vida ocorre nas suas madrugadas.
Pelo menos, a arte existe para eternizar os bons. A poesia acolhe e conflita com a imparcialidade de Newton – a prova de que o uísque, mais que o vinho, ascende aos céus na figura de um messias.
E canta suas Antífonas! Invoca, provoca o futuro incauto de que será amanhã. Espírito triste. Não resta enquanto imenso antes de estar entre os silêncios de uma música e outra, reconhecendo que não sabe mais contar os dias.
É sim a falta que ela me faz e que desfaz os dias! Infinitos pedaços! E o sentido apenas como a décima nona parte de toda felicidade...
Há um desses dias em que a pessoa me ama ou nunca mais, pois tudo de mim renuncia e derrama fácil. Para de escrever, longamente. – Olha-me ela. E aconteceu!
Sinto-me leve no sofrido conluio da garganta espremida por todos os lados. Não há c…

Quando caçar carícias...

Por favor, caça-as sem consciência. Pois não há culpa mais reincidente que a claridade culminada num corte de saber o que se faz. Quando caçar carícias, sê a paz do menino-balão que se torna a metáfora da festa terminada, num canto da sala a esvaziar-se na murcha morbidez de um amor despedido com silêncio.
Quando caçar carícias, faz de corpo quente e coração castigado. Perdoa apenas a ressaca de se merecer no abandono. A paz do abandono. Há paz no abandono?
O mundo não abraça sem enjoo. Embora retorne, não existe certeza: mas se conhece! A cada alguém de único desconstrói a ilusão do ritmo particular na tal ideia viciada pelo amor de ficção. É inconsciente uso-amo da casa à elegia das ruas e da família... Quando caçar carícias, não troques o “eu te amo”.
Por favor, quando caçar carícias, prevê insônias! Afugenta sonhos! Tem um jeito torto de gostar. Sim, antes torto que paralelo, que nunca se encontra... E depois, a conversa fora para descontinuar o sono.
Quando caçar carícias, faz precis…

A grande vaidade é ser modesto?

“O deus que habita em mim saúda o deus que há em você” Numa roda de conversa em que todos esperam alguma coisa num happy-hour de uma sexta-feira à noitinha...
- Bah, nos Estados Unidos foi criado um pequeno pulmão a partir das células tronco.
- Logo será comum, enfim, o transplante, aliás, a reposição do pulmão doente por outro fabricado – fez um gesto entre aspas – através das próprias células, reduzindo os índices de rejeição...
- Mais uma vez é o homem brincando de ser Deus...
- Discordo...
Calaram-se todos. Dizia eu que:
- Na verdade o homem está pondo em prática a sapiência que lhe é concedida enquanto ser humano. D’us nos disponibiliza o corpo, a saúde e o pensamento para que possamos agir sem a necessidade primitiva de pôr a fé sobre a inteligência, culpando, digo, transferindo ao Eterno as falhas ou a ideologia milagrosa cujas crendices apostam os mais indoutos...
- Simpatias, nem pensar! Não é, Larissa?!
- Meu caro, por trás da boa sorte, sempre existirá uma boa estratégia...
Serviram…

Mas aquele subterfúgio de te olhar casando...

Resistir, sofrer por antecipação isolando-se numa máscara de pausa tchekhoviana ao estender-se no palco dos teus olhos. O espetáculo é meu, mas antes lamurie para o meu silêncio a vaga dessa boca a estreitar-se do muito que lhe choro dentro de mim.
É uma oração! Clamo à Resistência na súplica a fim de que esse deus se convença e se infernize mais com o meu pensamento nela... Mas mais do ínferno satiriza-se o erro de não lhe falar... Mas não... A Resistência é a sabotagem da razão; um deus dela mesma que desta cruz na abertura dos seus braços a me saudar, eu fujo.
Que de boba eu não tenho um mínimo provérbio, apenas resisto. Amigo-me confortável no resquício laborioso igualmente assistido à sua palavra... Um fenômeno desfragmentado na sua verve sofista que mais crio a nós duas, futuramente.
Resistência: ela não quer. Desistência: ela me procura. Sigo-a. Ela fecha a porta. Não me deixa entrar.
Tenho de continuar a resposta para os lados... Não é o mesmo lugar quando outra se adora sobre o…

Sobre ex-namorados, paródia, e a premonição machadiana de sua velhice ridícula

Numa pechada casual, após os curtos cumprimentos de formalidade separatista entre um dos meus ex e mim:
- Soube que estás comprometida, que sequer agora olhas para os lados... Como era do teu costume, Larissa...
- Hahaha... Pois é, inclusive foi preciso tu jogares o teu corpo contra os meus passos para que recebesses a minha atenção. – Alfinetei.
- Dizem que a tua namorada é uma velha... Sério, que caída. Considera os diversos sentidos, certo?!
Solfejando Seu Jorge, cantarolei:
- Minha mina é velha, mas não tem problema porque sua juventude emana do interior... 
- Duvido que não te falte nada!
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- Eu vivo bem com ela, sem nenhum dilema. Eu sei que ela é cinquentona, mas eu dou valor!
- Acredito que ela rouba tuas maquiagens para diminuir a idade para essa que tu estás!
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- Às vezes eu me pego observando a ela, admirando a poesia de todo o seu perfil. E entre rugas e menopausa ela ainda faz beleza…

Com as roupas de papai - Yahrzeit

Acendi a vela da memória; e dentro de casa, a flama esguia se espichava como criança ascendendo ao encontro d’alma lembrada. O jejum comum a todas as suas filhas, hoje dispersas, talvez fosse lembrado, mas o perdão da correria, quebrado por motivos de energia sobrevivente de salário.
No entanto, cumpri mais uma data de lembrança – já com o dobro da idade – no ritual encanto nostálgico trazido das palavras e sermões durante os anos que traduziram a alçada da existência. Após isto, um estudo complementar unindo força física, agitação e Sêneca... Meu El Malê Rachamin encontrado no descanso da alma que me deu a educação ideal.
Recitar a oração frente a lamparina d’alma lembrada ainda trouxe o olhar para o corpo que já envelhece em mim na cera da pele, porém no pensamento ilumina a curiosidade antes de derreter; é dizer, devo mérito à alma que criou... Medito a filha de suas ações – às vezes falhas, pois toda casa tem sua privada mas as famílias não se dão conta disso –, fecho os olhos me…

Sobre amor e prêmios

N’alguma hora da noite de sábado... Eram duas...
- Ei, espera! Uma chamada está passando na tevê. É sobre o prêmio!
- ... - A outra suspira impaciência.
- Tenho de anotar. O prazo encerra logo.
- Estávamos fazendo amor!
- Já, já eu volto... Fui menção honrosa num concurso famosíssimo. Logo, não vou perder a chance de conseguir uma classificação neste também.
- Bem disseste tu que não lecionas Literatura, mas faz amor com ela...
- Ô, meu mimo! – abraçou-a enquanto seus olhos vagos na parede branca projetavam os passos da sequência didática – Não cries em teus pensamentos um dilema como a música Boemia, que não há. Tu estás sempre à altura de uma grande poesia.
- Não é isso, amor... – escorreu nua e miúda entre os lençóis – Temo tua distância.
- Pronto! – concluindo suas anotações – Agora basta criar o relato e a avaliação.
- Não tens ambição de nós!
- Tenho ambição de ser. Não quero esperar a morte para saber que o “céu é o limite”...
- Tão linda e tão compromissada. Eu, aqui, aposentada, encontr…

Com as roupas de papai

As cores delas têm o mesmo coração posto nas estampas. São retas, geométricas de ponto ensolarado, ou palatáveis ao perfume exalado. O tecido desliza, mas transpira no abraço. O abraço deixado por ele bem para sempre me serve, me acolhe, me adorna. Tão bem me molda que até participa dos demais abraços que nele repousam.
Com tais vestes estive depois em tantos lugares, calando-me como ele em muitas músicas, exaltando rimas em noites altas e esféricas. Fiz um nó com sua camisa em minha cintura e ajo dentro de mim com todos admirando a pele e o tecido nobre. Mas agora estou sozinha e com sua lembrança converso.
Acredito que vestindo-o aprendi a assumir o através de mim... Questionei a preciosidade do vício que da verdade nunca é esperado nada. Encaro hoje o sol com a mesma ambição que ele me enxerga. O poder é pouco para quem faz da tempestade a sua educação...
Sinto-me confortável vestindo e adornando a criação de papai com palavras e suas roupas. O lugar daqui não há espaço, não há te…

Fulano de Tal e Sua Senhora (minha)

- Caros amigos, vejam quem sobe a Rio Branco cheios de pose: Fulano de Tal e a Sua Senhora (minha).
Como um casal moderno da música do Ney, eles tentam convencer que o prazer da foda está na procissão do sobrenome; mas os saltos dela embaixo da mesa já descobriram imediata e naturalmente a barra por onde se invade no meu vestido...
Hoje terá sessão única no Treze. Eles cumprimentam os amigos – aqueles que Machado de Assis já nos traduziu – e de braços dados se dirigem à saleta junto aos convidados de honra. A Sua Senhora (minha) exerce a mesma mecânica conversadora, conservadora cabisbaixa, armada e sorridente concordata, que entre os biombos me abraça fugidia confessando-se sem modos... Ensaiam pose para a coluna social, Fulano de Tal e Sua Senhora (minha).
Para o público hipócrita que não beija, ela bem disfarça com batom nude o cinismo de antes ter mordido meu hálito de uísque – com batom vermelho à Bakunin – se jogando sem governo em borrões de nudez...
Somente nós duas sabemos da i…

Sincronia

E no cigarro que acendo para expirar lembrança, te trago – em vício – comigo... Assim que a promessa curta se quebra anuviada, te trago – em vício – comigo... Quando aquela mulher se esvai da minha boca rápida-inalcançável, ou quando tenho da sua foto o melhor ninho. Envolvida num abraço fantasma de nicotina, te trago – em vício – comigo...
Quando resolvo despir os sentimentos escusos, te deixo – em cinzas perdidas – pelo meu caminho... Assim que deles recebo o colapso da minha existência, te deixo – em cinzas perdidas – pelo meu caminho.
De mim mesma os passos não serão encontrados; pois o vento profundo já derrotou os teus desmanches carbonizados... Eu te deixo assoprando lábios de beijo – em nuvens perdidas – pelo meu destino...
A covardia me faz traduzir a namorada numa simples inspiração: te expiro – em resignado destino – pelo meu vício. Toda tua lembrança denigre a boa-noite: em lençóis de nicotina te expiro – em resignado destino – pelo meu vício...
No fim das contas, querida, es…

Crônica-imagem de Fidelidade

Já contei os homens que fui para a cama. Daqueles que bastava ordenar "leve", e com engenho leve me conduziam dispensando qualquer bebida. Contei também os homens que fiz chorar. Sorrio agora e penso, melhor ainda, que contei única a mulher que gosta de me fotografar. Essa sim, sei que conquistei...
Minha namorada me despe para os outros e às outras, esquece-se do zoom e vem se aproximando cada vez mais da minha pele. A única câmera a criar de mim sua Lilly Braun, me comendo com os olhos, eternizando o desejo alheio. Zombando da imaginação e do tesão alheio... Eu a conto única. Ela conta vantagem sobre todos os demais.
De lentes para conseguir ler, namorada que zela pelo meu corpo, esconde meus segredos efêmeros de henna, ameniza meus defeitos, receita-me apetitosa com a fôrma da minha silhueta que não a ilude.
Mulher de breves cabelos cinzas desvendando as minhas obscenidades disciplinadas de professora, desde os meus pés, minhas pernas, minhas saboneteiras, meu pescoço... Rev…

Silêncio em linha reta

Um pedido que amo à Quintana. Sem telhado, sem risco. Num céu sussurrado me declaro amando baixinho – minha baixinha – dentro da minha casa e dos meus tecidos.
Os pássaros somente em paz eu os deixo nos códigos de sua voz, que a mim deixam-me só nesse estômago seu para levar uma vida a me devorar como Cazuza amou num segundo.
Não há devagar, nem amada. Há um conjunto de breves, de ainda, de limite e de múltiplo. O paradoxo este que querer! Antes suave que tudo... Suave, consoante Drummond, como um anjo torto que vive nas sombras. Mas ao invés de dizer “vai...”, diz “vem...”
Por favor, sem perguntas sobre por que haveríamos de dançar. Se não, arrisco-te entre os meus braços provando o perigo de colocar o caos em movimento! Logo exprimo do meu corpo o nascer do sol mais lindo apenas para que aprecies despertar todo dia em mim...
Hum, namorada... Eu não ladro. Mas à Quintana te mordo baixinho rezando para um dia te encontrares e perceberes que o que falta em ti sou eu... Por enquanto desen…

De uma história

Com o estado d’espírito já lúcido para morrer, um caro esquecido busca a lealdade na tabacaria de Pessoa... Não nos apresentamos, fugimos da característica humana da palavra para alegrar o desconhecido que não nos alcunha.
O caro, esquecido de seu presente anoso, já revela seu infinito sensível... Compartilha ideias, trabalha seus fatos hoje desfalecendo na sua lenta linguagem afogada os pigarros por ser homem. Aproveitei-o ouvindo “a voz de Deus num poço tapado” e entendi que a ideia de felicidade é ir direto para o nada! Ainda que não haja escolha física ou honesta, sempre transitarei na rua que coloca defronte da outra a verdade e a realidade.
O caro esquecido pelos filhos também comentou que enfim fica só num canto para pensar e desvincular-se da pressa da ordem existencial. Suspirei o cigarro numa condição eterna de ser gente... E ele corrompeu a saudade num lapso esfumaçado de creditar no abandono uma melodia instrumental do vento que lhe acha a pele.
Então metade, um quarto, um s…

Crônica epistolar: Um beijo no escuro

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

                         Florbela Espanca

O fato de dizer que te amo é para mim um sofrimento, uma traição comigo mesma. Não apenas por ti, pelo amor que tu sentes por aquele outro. Uma traição minha.
Ah, como poderia eu te contar que te amo, se prometi a mim mesma este silêncio? É como se o medo fosse a cláusula presente no pacto comigo mesma, logo sucumbindo a conclusão que a esperança é um empréstimo que a felicidade nos faz.
Agora já escrevi, já me abri. O medo que eu tinh…

Ao abrir os olhos

Ao abrir os olhos já percebemos em nosso redor as sólidas experiências vestidas de guarda a nos transmitir a mais deslavada mentira sobre o verbo. Que cada ação corresponde ao seu ato com objetivo, o mesmo objetivo alcançado de Dostoiévski que principia a morte.
Tentam-nos sentar na carteira a desfrutar como terceira pessoa os casos de poesia passados nos livrinhos; mas que depois, no próprio corpo, os adultos nos convencem da nossa incapacidade de ser verdadeiros. Castigam-nos para este fim. O castigo coíbe a evolução. Logo, chegamos a crescer escusos da permissão, saboreando luas de queijo, chegando ao sétimo céu com tapete voador de borboletas e tornando-nos o próprio Epaminondas que trata o diagnóstico drummondiano incurável para o nosso sério caso de poesia.
Mesmo assim vamos nos desabsorvendo com a brevidade da sobrevivência. Existe o capital do tempo na promiscuidade das ideias. O paradoxo de viver num mundo de fronteiras e identidades fluidas. De nos informarmos no mesmo segund…

O registro do poema

Sexta-feira, antes de ir ao colégio, tentei fotografar um poema, o mesmo poema que desafiou Manoel de Barros nas figuras anímicas do silêncio. Despertei um tanto depois das suas quatro da manhã, e diferente da festa que ele voltava, eu me preparava para a semana que resta... Ainda não se ouviam ruídos nem murmúrios sorvidos do chimarrão na minha vila.  O outono estava parindo friamente mais um dia...  Ia pelo céu o carregador desta foto, era o mesmo silêncio que agora carregava as nuvens bêbadas. Nuvens que tropeçavam com os passos tontos do breu, esbarrando nas portas e nas frestas das janelas com pálpebras valsadas querendo pregar-se como lesma - mais à existência do que ao começo petrificado do dia. Este mendigava levantar-se olhando do alto com o mesmo azul-perdão...  Era a mesma paisagem velha desabando sobre o teto do sempre. Mas o que se fotografa no interior do sempre?  Logo mais, esses braços de nuvens colocariam a sua calça, e seguiriam com Manoel e Maiakovski sendo a poesi…

Indispensável assim

E o café segue esfriando durante a névoa quente do por que... Enfim conclui a maquiagem. A fuga é a mais longa das respostas, que chovem também embaçando a janela. Nem a manhã tirou a nossa fotografia da cinza, porém o teu abraço ao dizer que espera por mim me faz ter o cuidado que isto não é mal...
Antes de dormir adquiri algumas pendências nas estórias que contigo adormeço. Perdi um quarto de hora nessa bossa que tu passas a ter cara de passado – embora eu tenha sequência de mim neste ninho, embora eu tenha aqui os dias que irão surgir, embora num destes dias eu não dure até o fim... Então ao dormires depois de mim me faz ter o cuidado que isto voa para a minha graça – a graça de mais um dia ao teu lado – ah, tens no abraço a minha melhor morada dos dias que se despedem da vida...
Do trabalho à porta, enfim, uma verdade que no teu beijo cesso a luta. De mãos comigo até a cozinha, tu me entregas um pedaço de bolo “receita da família” e uma xícara de chá ainda esfumaçando a miragem... …

O capítulo das bolsas

Sábado, e como de costume, passei a noite anterior no apartamento da minha cônjuge. Entre os amanheceres que preparam o chimarrão, o café e as roupas para lavar, combinávamos por onde passearíamos e se sentíamos falta de algo na despensa. Acertamos de ir ao shopping próximo à residência logo após o almoço.
Arrumávamos, compartilhávamos maquiagem e vaidade. Minha pequena, muito bela enaltecia sobre o salto agulha a gala casual do jeans; eu, por outro lado, preferi me colocar na sombra de um sobretudo preto - combinado com o manto cor de creme escorrido pelo tronco - que dissimulava a calça de alfaiataria, ainda andando com todo o sorriso que me conforta um Oxford feminino... Ah, além disso... Eu já estava pronta enquanto ela concluía, já vestida e carregada de uma bolsa vermelha no ombro, a sua maquiagem.
Eu esperava por ela na sala. Relia o jornal com um pouco mais de crença. Ela se aproximou elétrica, radiante, verificando de impulso se não havia esquecido algo. E esqueceu: voltou …

Sobre as cláusulas

Quantos afagos constituem uma perda? Quantas lágrimas semeiam uma cura? Quantas orações atendem um milagre? Quantas promessas cegam uma ilusão? Quantos minutos contam um esquecimento? Quantos sonhos realizam uma vida? Quantas derrotas nos fazem arrependidos? Quantos abraços constroem um abrigo? Quantas recusas tentam uma nova espera? Quantas esperas geram a esperança? Quantos suspiros silenciam uma confissão? Quantos sorrisos determinam uma paixão?
Quantos sussurros sentem um arrepio? Quantas convicções formulam a ideologia? Quantas mudanças mobilizam uma revolução? Quantos sabores pintam um beijo? Quantas idas-e-vindas o amor ainda confia?
Quantas retaliações fazem a violência? Quantos direitos articulam a solução dos conflitos? Quantos conflitos somam apostas? Quantos direitos formalizam a violência? Quantos impasses cultivam o ódio? Quantas guerras decretam a falência do direito? Quantos direitos cultuam a violência? O direito fracassa na guerra? A religião coíbe ou cultiva o ódio? …

O concreto de nós

Esta é a casa que tenho uma vontade indelével de brincar de amarelinha. O céu é logo ali, mas há quem resista desviando. Quando precisamos nos isolar para voltar a crer no mundo? Quando e como será que o mundo voltará a acreditar em nós? Paz é o significado que nós encontramos – e deixamos – no mundo? Ou que levamos conosco?
As flores que nós colhemos por conta própria têm mais perfume. Assim agrupamos o recolhido buquê como taças para que ninguém deixe de brindar. De quatro em quatro num cecererececê que logo multiplica dezesseis na orgia... As intenções se perdem em meio ao titilar dos corpos. Cirandam-se os copos e o suor das mãos como se fossem brincadeira de roda. Meus malditos inocentes. Somos essa miscelânea de boas canções. Trilhamo-nos gratos sempre enternecidos pela gratidão.
Caso a sorte desfaleça em nossa mão, plantemo-na. Há de (re)nascer em trevo de quatro folhas. Alguém sobre a brevidade colherá asas de borboletas, privilegiado do acaso de suas altruístas ações. Bonitas …

A própria caverna

Assim o toque ancestral desfez a premissa de sua angústia. De pássaros em pássaros criava seu rumo sem se esquecer do ninho, e codificava seu novo conceito cantando. Mas, epicurista no seu vestido todo branco, ela era toda ela! Nem as clássicas Rita e Pombinha dançavam alçando voo, nem a queda lhe trazia tanta satisfação nos passos...
Bicho de lápis definido na ponta fina de seu caminhar. De pássaro em suavidade, o tempo era um endosso de seu amálgama. Lá, em sua terra natal de si, Platão sequer a escurecia – pois de tom confessional, era ela uma prosaica entrega.
Foi do balanço de seus cabelos a música de uma nota só que soava desta paixão grega em solilóquio. Algures seus sintonizavam a pergunta sem que a certeza fosse pontuada n’algum necrológio... Os animais se extinguem, a poesia de Meireles na língua fica. Da perda ainda resiste o objeto à espera de inspiração. E ela segura em seus dedos o mundo todo de si com suas agruras pessoanas, respondendo à paixão grega com sua canção de c…

Cruzar a linha

Fundei um planeta em seu rosto. Desde as pequenas conduções fluviais de gotas cansadas e somadas que dele fluem desembocando prazer de oceano gargalhado ao chegar a sua boca. Uma terra servil continente de sua pele firme no dia-a-dia, logo com céus a espreitar desse seu olhar ao alto brilhante o sonho ileso no tempo.
Do seu rosto surge um mundo que exploro no meu lado só, na guarida mais recôndita das desculpas antes de cruzar a linha... Porque não na ponte que me leve à criação que lhe fiz... Mas há um suspiro, um toque de voz, um amor que causa o caminho, um invisível que vê no rosto dela toda a metafísica que cria a liberdade. Um invisível que vê na presença dela uma abstração da eternidade.
As luas que compõem suas feições sorriem, fantasiam, choram, traem sobre escolhas plantadas, ceifadas ou mortas. Seus astros fazem o muro desta linha entre ela e mim. O amor é um caso que se põe frente a mim – a face realidade na ferida de um desastre herdado. Eu criei esse rosto, que antes é…

Minha amada, minha oração

Assim leio os versos de Hafez, lembrando a oração que minha amada me é. Aquela que se encontra o Supremo somente ao citar seu nome. Os desertos saberiam que do beijo seu oriunda toda uma vertente expressa de olores e paraíso diáfano: um sorriso pausado com aqueles seus grandes olhos – amor. Sim, o Eterno criou a ordem do Éden a partir daquela face retratada à maravilha sobre o mundo. Amada minha: minha oração.
Ela também chora na minha presença; e digo que quão tempestuosa revolta se dá dentro de mim, que suas águas refletem de mim alguém desconhecido pela ira. No entanto sei que o dilúvio dela interna a mim provando a mudança camuflada pela serenidade, naquele ímpeto primitivo e corpóreo de destruir tudo para que ela, tão somente ela!, desfrute a soberania.
Possuo o prazer egoísta de cuidar dela. Em surdina persigo-a a minha frente, impedindo que o seu sorriso se inquiete com as noites desse mundo... Levo o mundo a sério pela minha amada, minha oração, para que as chagas deste não m…

Aurora branda

Erguendo a maré amarga do tempo, aquilo que mantive retornou um passo à frente e a fundo de mim que conheço supostamente. Quem me deu um abraço assim, maior que esta fama da maré? Velhos amigos indo rosto-a-rosto, levados à frente e a fundo de mim, apagando-se da mente.
Te voilà! – Imortalidade à sombra da expressão “bom-amigo”. Alguns personagens sepultos, à ode dos vermes, que jucundos desaparecem os vultos, urgem logo adiante na prosa famigerados como cães e percepções! No mais existiu alguma amada como amou Catulo... Mencionada hoje nos becos onde suga óbolos do magnânimo Remo. Vênus e Cupido choram a maré da apóstrofe moral: uma das permitidas deidades do amor.
Outra cauda já recolhida como Lálage encerra a sina repetida da âncora decorosa que um trecho verbal se desprendeu. A todo nu da estátua de Isolda merecida como metonímia dos laços do corpete que apertam, ainda faço a franqueza da dama emprestada com meus dedos de Hera presos entre as suas fendas; e escorrendo, a mesma maré…

Gôngula em papiro II

Não há por aqui tal primavera cidônia de Íbico, aquela que traz seu séquito. As Mélides e as ninfas chegam emergidas d’água durante a corrente no asfalto, simulacras à ventania ruidosa, paisagística e selvática da Trácia.
Vulto tênue que se apega. Dela é movida em meio ao ciclo do vinhedo coberto de um feroz brilho. Vai-se sem deixar pulso nas veias – ela que então torna-se árvore agarrada a sua vida sem ar que a parta.
Folhas se esvaem das Mélides simulacras. Uma álgida folha cinza-oliva dela desliza na boa relva que passos perduram úmidos. Cada uma, pequena canção nua e impudente ao pé-ligeiro do sopro. Pertinente preferência d’alguma ninfa iludida e arguida vertigem da emoção.
Pintura dela que não nega a sua progênie. Fino supor da estação em seus quarenta anos. Aqui sou-lhe de arcaísmos sisudos a cumprimentá-la de língua para fora; às vezes contando as anedotas de Cibele, e ruflando sua saia pudica ao falar-lhe sobre joelhos e quadril. Dela, sobre os seus joelhos e seu quadril, vem …

Gôngula em papiro

Plácido, o outono se despe à essência da solidão característica. Visto-me no tanto de seu ocultismo a sentir leve frustração que purifique a dose da nostalgia. A casa, flagrante lembrança do caminho na relva, entristecia não me ser todas as partes; ou que todos os outonos não fossem um único outono, tal como as mulheres de Byron.
Acredito estar concentrada em um único objeto ao meu favor. Ter força imita, porém, algo que valha a pena. No fim aqueles que se escusam na excessiva chama de candeia tropeçam na guardada paz transcrita em luz. Reger-se pela escuridão tempestuosa e outonal restaura a visão à confiança da própria covardia burlando-a um pouco.
Ler como o outono ousa significar de si mesmo. Qualquer modo cumpre a missão limitada e virginal à inquieta emancipação do dilúvio. Morto como um inteiro, a hora psíquica do breu cuida o evento de pequenos cosmos sacudidos. Em seus lugares, a força que se sabe está referido aos outros de si em movimento...
Páginas têxteis idolatrando a d…

Reia

Provoca-me Reia com seu gemido grego proferido dos lábios finos. Inquieta como o resto cansado, a saciedade de Reia ainda me é intacta em seus seios pequenos. Toda ela pequena...
Aos corações do pó, Reia conta seus segredos de boas entrelinhas das soluções que alguém acerte o enredo. Tem a garganta em Chalais: o junto não a iguala. Discórdia que me lavra a separação dantesca na última pessoa do inferno.
Que suporia Reia ao tramar-se com aliança? Erguia, pois, os olhos distanciando-se como os altos álamos... Lá onde cheguei um dia a compor-lhe, ciumenta, tais floreios que adornassem sua atenção melhor que o outro! - Ah, se tu, outro, soubesses que as angústias de Reia já se apoiaram sem fôlego em mim, o seu muro. – Reia, a andorinha de momento, tingindo os cumes altos da exclusividade dos sonetos petrarqueanos, embora retorne à canção olhando curiosa e ávida o meu rosto, lembrando-se das mortas esquecidas nele.
Reia é para pequenas emoções, não para o epos... Tampouco ela dança; ninguém …

Deixo-o na caixa

Love brings such misery and pain I guess I'll never be the same Since I fell for you... Enquanto as crianças brincam, são os seus saltos que sobem as escadas ditando ao coração as nervosas batidas com passos do seu vestido aveludado...
Então percorro os corredores. Abro todas as salas com a esperança que ela esteja n’alguma... Agora minha pena e minha nicotina procrastinam... Ela sempre me diz para fazer as coisas do meu jeito – que assim eu a alegro.
Quando cheguei hoje, ela passou por mim com seu bom dia... Prontamente lembrei-me dela tão linda naquela comemoração do ano passado, reclamando, inclusive, que o sol atrapalhava as luzes da festa. E, ajudando a desarrumar, perguntei sobre o enfeite de Natal. – Deixe-o na caixa. Assim, seja o material ou o meu sentimento, é o que faço: Deixo-o na caixa! Tão somente deixo-o na caixa!
Na minha carta tudo é igual e escondido. Esforço o oposto, visto que ela me conhece. Viro-me para o lado, não quero que nada nela me deite o olhar! No entanto,…

A escrava, então, não era a Isaura, nem a Poesia...

Mario e eu nesta última semana:
Também tenho uma parábola. Mario diferenciou-se com Cristo. No meu caso, entre o médico e mim existe uma diferença que estabeleço: “Seu doutô” diz: esta é a verdade. E segundo a exatidão, talvez tenha ele uma mea-razão. Digo-lhe, porém: meu corpo é a minha verdade. E tenho razão. Vamos à alegoria!
Adão teve de sua costela retirada por Hashem um ser que os homens proclamavam a coisa mais perfeita da criação: Eva. Invejoso e bocudo, o primeiro homem resolveu criar também. E como não sabia o porquê d’um bisturi para uma arte “tão interna quanto extraordinária”, tirou-lhe do próprio sangue escorrido (ou seria do próprio hemograma?) um outro ser. Era também – o primeiro plágio realístico da história – uma mulher. Humana, forte, peitos e músculos, como a letra de Caetano: linda, mais que demais!
Para dar modelo aos novos fitoterápicos, Adão, envaidecido, colocou essa mulher nua, sanguínea, logo, eterna, nos fins da Tessália. Depois que Evagrius nomeou os set…

Para me conhecer, tive de amá-la

Podemos arranjar um tempo para sermos mais que amigas? De frente para a porta eu converso com o pessoal, porque atento a cada movimento desta que pode trazê-la, dentre os sorrisos possíveis, sorrindo para mim... Mas o seu sorriso possível é para todos, nunca é apenas para mim; e você não apareceu...
Faço deste nunca um lugar seguro para nós duas! Entretanto, nem mesmo uma catarse isso nos é. Depois do expediente, amor, eu tenho bebido. Respondo aos recados da minha namorada forjando um engano ao escrever para você. Desculpo-me do “te amo” enviado, e retorno pela manhã juntando conhecimento com algumas (de) nossas palavras idiotas que me fizeram feliz na hora de mimá-la. É perigoso quando todos funcionam ao nosso redor... Faz tempo que eu tenho calado em cada abraço: Podemos ficar a sós?
Quando o nosso tempo será para usufruirmos mais que amigas? Mais que amigas!
Eu não tenho medo, tampouco vergonha. Contudo, fico na minha e evito acreditando que a minha culpa pode desesperá-la, matá-…

Frente ao inverno do bom café (cena noturna)

Ah, e a lisboeta ali, em outro vácuo temporário de descontentamento, erguendo para si um mundo que se movia romanticamente, requintadamente e um tanto tragicamente comigo sentada à sua frente... Eu tanto a observava na personagem trágica que se impusera, como a mim mesma desempenhando o papel de uma atriz cujo termo balzaquiano se adere ao meu perfil dissolvido n’algumas dobras adiposas de pele, mas capaz de atuar a menor deixa em qualquer momento. Doutro lado, enquanto isso, as mais jovens amarguradamente roem as unhas tingidas nos bastidores.
“Vem cá!”, ordenou, e eu atendi. Na sua lusitana fosca pretensão surgiu-lhe novamente a trágica e jovem acossada sensação de perda. Então me dei conta da triste fecundidade do mundo e do realismo esperançoso que engana a si mesmo. “Quero um beijo teu!”, fixou ela, Joana, tornando-se um animal desajeitado e decomposto pela obsessão.
Não! Eu não lhe tinha sequer o mais fraco movimento de rejeição. Suas mãos tombaram sobre minhas coxas enquanto e…

Frente ao inverno do bom-café

Lisboa, fevereiro de 16.

“Larissa é uma poeta”, disse-me a outra mulher, cuja pele da face se aconchegava como veludo no sorriso suspeito entre os olhos predatórios, sem piscar, um tanto obscenos. Fiz-lhe uma leve mesura: o nosso sexo jamais falha em questões de tato, minha cara.
“É preciso desculpar as poetas pelo que fazem...”, continuou a lisboeta, querendo ainda me chamar de poeta. A poesia – expliquei-lhe – tal como a lei, é o derradeiro refúgio do problema, do coxo, do imbecil, do cego. Diria até, minha cara, que Cezar inventou a jurisprudência para se proteger dos poetas.
“O negócio é a tua esperteza, poeta” – continuou então com um riso melífluo, com som saído da boca das crianças... “Faz tempo que não dizes que me amas?” – cobrou-me a gaja tocando-me o rosto com a ponta dos dedos, no meu cabelo escorregadio em desalinho. “Muito tempo” – confirmou. “Desde ontem, lá na Baixa Chiado, pelo menos”, concordei e completei dizendo que a amo (como aquela camiseta do Fernando Pessoa q…