sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Estive certa de que...

"É o ciclo sem fim que nos guiará, a dor e a emoção, pela fé e o amor até encontrar o nosso caminho, neste ciclo, neste ciclo sem fim..."


Na minha versão:

Estive certa de que era amor quando soube, definitivamente, que dividiria o protagonismo na sua vida. Ser o centro é a ambição do amor. Embora haja ciências como o Teocentrismo e o Antropocentrismo, não criaram, porém, uma corrente ideológica para o amor. Pois é querido que o sentimento amor – tão fundamental, aprende-se desde a infância – seja a prioridade absoluta. Então eu a amei no exato segundo em que percebi que não seria a sua primeira escolha. 
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, acompanhei-a de longe. Braços longos, alvos e hidratados, maquilagem leve de amanhecer, o rosto erguido, os olhos tão claros que pareciam cegos, amendoados, pungentes como a maturidade carregada nos seus cinquenta anos. Uma mulher magra e modelo à Christiane Torloni, à medida perfeita de catálogos de mulher-encarada-perfeita-capa-de-revista, sinônimo de feminismo e fortaleza. Chorando. Totalmente despedaçada. Agarrada à filha jovenzinha que partiria para outro país. Era o choro mais belo de assistir. O amor mais belo de assistir. Estive certa de me manter a deriva sabendo que o seu sentimento não podia ser parecido com ninguém que ela ousasse sentir. Isso fazia com que estivesse certa de amá-la assim mesmo. E por isso mesmo, ver aquela mulher machucada, totalmente vulnerável à insegurança de um suposto esquecimento da filha que substituiu o sonho pelas asas, da saudade que nascia prematura, como fosse ontem, ela nascia prematura!, da perda do seu todo pedaço, fez-me amá-la real e instantaneamente. Eu sabia que por qualquer palavra daquela adolescente que, por agora, cabia no colo nostálgico da mãe, eu seria abandonada, desmerecida. Era daquela adolescente, acima de todas as coisas, todas as pessoas. Entre minhas crises hepáticas e o dia mais feliz dela, qual seria a escolha da presença. A mão de quem ela estaria a segurar. Não seria a minha. Eu estaria pronta a deixá-la ir por ela, sem questionar. Estava apta a cada choro, queda, vitória, melancolia. Porque eu sabia que ela iria, mesmo quando aquele projeto de adulto dobrasse de tamanho e fosse maior que sua própria mãe. Mesmo quando eu estivesse a duas quadras e ela distante a milhares de quilômetros.  
Os passos seriam na direção dela. Estive certa de que era amor quando entendi porque o “amorcentrismo” não foi criado por nenhuma mente brilhante, pois já tinha o nome claro e irrefutável: chama-se Filha! Uma mulher capaz de em pleno lugar público se entregar daquela maneira, com destemida vergonha, a dor de ver uma filha ir embora era a maior certeza de amor. Abracei calada sua menina enquanto esta murmurava no meu ouvido para eu cuidar de sua mãezinha e que torcia pela nossa felicidade. Atravessou o portão de embarque. Então olhei para a mulher enquanto ela caminhava ao meu encontro e não tentava enxugar as lágrimas que lavavam sua perfeita maquiagem. Tão ferida, tão digna de amor, tão menos minha.

Na versão dela:

Estive certa de que era amor quando ela não disse nada. Qualquer palavra dela naquele momento talvez a repelisse para sempre da minha vida. Mas ela não disse nada. Fez o silêncio que eu precisava.
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, eu estava me despedindo da minha filha que optou pela nacionalidade alemã e ia morar lá com seus planos de recém concluinte do Ensino Médio. A minha namorada nos acompanhou, mas observou tudo a pouca distância. Enquanto eu sentia a dor mais cruel de uma mãe, ela estava lá, mas não quis roubar para si o protagonismo do meu sofrimento. Não quis ser o consolo que eu jamais seria capaz de ter. Ela me olhava como nunca. Era um olhar avassalador. Não pedi nada a ela. Não foi preciso. É uma coisa que só nós, mulheres, temos e compartilhamos sem ao menos precisar parir, o sentimento de mãe. Ela abraçou minha filha com este carinho. Ela me deu a única coisa que eu precisava: o respeito ao meu sentimento, o maior do mundo.   
Após minha filha atravessar o portão de embarque, lembro-me de ter segurado forte a mão dela enquanto caminhávamos pelo saguão do aeroporto em direção ao carro. Lembro-me que segurei tão forte que estive certa de que a machucava. Mesmo assim, ela não disse nada. Continuou segurando capaz de suportar minha dor interna que involuntariamente transmitia aos ossos dela, da minha namorada. Estive certa de que era amor naquele momento quando ela não quis ser o que não poderia. Quando não cabia ninguém na minha solidão, e ela me assistiu perder. Quando não diminuiu meus sentimentos de mãe, e tampouco usou a ocasião para se fortalecer como centro da minha vida. Uma mulher forte, centrada, real é minha namorada. E tão jovem... Ali eu passei a ser tão mais dela, tão menos minha.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós IV

Compromisso era entre essas duas pessoas. Relacionamentos? Boa notícia: estavam livres de mensagens detetivescas para saber onde estava e a que horas voltaria. Decidiram mais tarde ir à casa dela para arrumarem um jantar com a rapidez de uma pizza pois logo sairiam para uma noite de MPB.
Marisa Monte, Ana Carolina, Maria Gadú, tributo a Gonzaguinha, Nei Matogrosso no Anhembi... Quantos passos em São Paulo! – Refletiram sorrindo estrelas de Olavo Bilac ao ler a programação na Folha. Optaram estar e espiar à margem de uma música e outra.
Foram se arrumando. O préstimo das cores adornavam o riso frouxo de batom vermelho. Dos lábios dela se assoviava Elis Regina. Outra interpretação para o “atrás da porta”, sendo o assovio uma escusa para atrair e dar o bote.
Frente ao espelho, a miudeza daquele corpo era pingada por um short, uma camiseta desbotada de banda, pingentes simbólicos de paz e maquiagem assombreada. Um conjunto de boneca, deveras, que descarta os preceitos e os preconceitos de princesa. Muito rápida como um poema marginal, ela se transmitiu a verve das meias três-quartos, intercalou rima do colar dourado que escorria pelo seu tronco encontrando nela a luz em que a outra moça, ao fundo, na porta do dormitório, era sombra observante. A outra moça observava inebriada e cantarolava o pensamento para a sua pequena: “És fascinação. Amor...”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós III

A liberdade quando amada torna-se intimidade.

- Nossa! Se aquele dissílabo sorridente gerou tal argumento dela, quem ousaria entender? Apenas sentiria o começo de uma música que faria um castelo erguer-se na sofreguidão de mil venturas (previstas).
***
Caminharam sobre a extensão de diversos assuntos. O Ibirapuera não cometeria com esmero a volta das horas como a haste horizontal do sorriso amigável da conversa.
- Sabia que – olhava para o minúsculo relógio de pulso – já nos conhecemos há três horas?
- Será que é fácil contar os sorrisos mostrados em cento e oitenta e cinco minutos? – Indagou ela.
- Quando nos vestimos com o nosso melhor, a obra é um cálculo aberto da Eternidade.
- Conceito: sorria sempre. – Ordenou a pequena.
- A fantasia é um clássico significado.
- É o que cabe no conceito.
- E diversa. O que sabe?
- Você tem poesia.
- Descrita, ordinária e métrica. 
Não houve tarde mais esquecida em São Paulo. Pinacoteca, Avenida Paulista, café na Casa das Rosas. A pequena paulistana explicava desde o concreto dos prédios à poesia de Haroldo de Campos. Pelo tempo que juntava, percebeu que este era o seu único compromisso: uma liberdade assistida de amar. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós II

"Deve ser louca, deve ser animal. Hálito de gim, vai fingir, vai gemer e dizer: Ai de mim! E de repente deve ter um engenho, um poder que é pra menina fraquejar, alucinar, derreter..."

- Esta manhã colaborou com você. Verdade? – Perguntou a ela.
Ela suspira resultando aquele risinho final malicioso.
- Passei toda noite na Virada Cultural e amanheci com as buzinas da Brigadeiro. Fingi estar com amnésia e ainda não voltei para casa... Nem fui ao trabalho. Até estou mascando chiclete para dar o efeito de limpeza dental. Olhe. – ela bafora lentamente próxima a boca da pessoa ao seu lado. – Disfarça bem, não é?
- Aroma de tutti-frutti. – respondeu – Tem um para mim?
- Ah, aham! – ela abre a bolsinha tira-colo e acha um envelope de gomas em tabletes. – Pode pegar... à vontade! – frisou.
E esta adverbial vontade foi mastigada junto com o intuito de saber mais sobre a menina, aliás, moça, aliás, mulher jovem que confiava suas artimanhas jocosas. A esguia matéria contida na sua figurada breve idade atraia os olhos daquela pessoa ao seu lado, que a assiste esperando aquilo que o cinema americano tem de melhor. Tomou coragem:
- Eu ainda não acompanhei a Virada este ano.
- Pô, está lin-da! Cê curte MPB?
- Claro! – Disse com o claro contentamento de enfim estar compartilhando um bom gosto.
- Parabéns, seus olhos brilharam! – Surpreende-se. – Não é comum encontrar alguém que afirme com tanto entusiasmo seus interesses. Quando pergunto, geralmente um marasmo inaudível mostra a incompleta capacidade de amar o que se acredita. Não sei se você me entende, mas tenha certeza de que sua resposta me emocionou!  

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós

A arte é um organismo livre...

- Não, eu sou solteira.
Imediatamente sentiu que lhe fora dada a melhor notícia. Quem sabe a amizade, nesta hora, seja percebida por dentro? – Felizmente a megalópole não deixa a pessoa só. – pensou assim que a conheceu.
E ela? Sua idade, tal qual o tamanho “p” de suas vestes, traduzia um formato balzaquiano nas cruzadas pernas de Aline, de Iturrusgarai. Caminhava pelo Ibirapuera alternando a apatia, ora na rósea bola do chiclete, ora naqueles passos que indagam o porquê de nascermos compromissados com o sustento. Apoderou-se do banco do parque estirando suas pernas num aviso de pouca amizade... Não notou que ao seu lado havia alguém que bem a observava.
- Sol do meio-dia. – disse ela na pretensão de ser porta-voz de suas pernas abafadas pela meia-calça acrílica. No princípio, quem a reparava receou responder com algum monossílabo grunhido. Talvez ela estivesse pensando alto ou, na pior das hipóteses, realmente falava privadamente consigo e cortaria de vez dizendo “não estou falando com você”, ou... Até que ela se virou para a pessoa ao lado e sorriu um “e aí?!”
O fato é que o sorriso, mesmo sem a graça dada ao vocábulo, vem a ser o divisor de águas entre o encontro de duas pessoas desconhecidas. Num cantinho tímido da boca concordaram logo os primeiros cumprimentos e as trocas ensaiadas de conversa sobre o clima de São Paulo. Entretanto, ficar no “vai ou não vai chover” fá-la-ia desistir do contato.  

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os ciclos se cumprem e se dissolvem no amanhecer que consola a pedra. Esses ciclos medem a vida, a pedra acompanha com testemunho cego, mudo e agourento dos segredos.
Tranca a porta e o tempo. É casa, é jazigo, é o caminho. Fez poeta, fez morte. Iludiu-se, educou. Esmaga, apóia. É a justiça enquanto tudo pede passagem.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

E se enfim

E se enfim o sangue pudesse ter seu valor reconhecido por pintar o interior da capela? Logo também pelo seu rito genético dado no primeiro pedido em Genesis ao que o nascimento também pode ter seu significado de paz reprimido em um tiro...
Do crucifixo à cruz, a antítese de Pessoa confere o que Hegel entende de nós sobre a consciência. Dói, realmente sente. Mas prova da própria máscara para ver como será. Corre os olhos metaforizando a liberdade assistida. Exagera enquanto há corpo e oração, santificado seja enquanto homem!
Ainda haverá quem se dobre para forçar sua alma ao incólume final que lhe impõe. O perdão não convida à ceia, mas agrada na mudança. A fartura significa nova atitude. O ouro, a metáfora do bom-dia.
Como ser sangue se o tratado já foi assinado com a lança perfurante em nossa pele de alma cativa? E nós, lançados ao espaço, da palavra restou o gemido. Ah! O otimismo dos céus! Daquele otimismo que contamos carneirinhos buscando o sono e sem mais bocejamos incansáveis. O otimismo que muito reza. O otimismo que, do amor cego, qualquer lampejo de visão é um pretexto para se apaixonar... Ainda gozamos dos gemidos!
Por ainda que tenhamos fé, a energia se desdobra no presente entre ela e a inteligência. Por mais científico que seja, escorre o sangue pelas rachaduras do próprio templo. De humano, o infinito concede o pensamento. De volta ao primitivo, a conquista ainda envolve brutalidade. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sobre sapiência acadêmica e disposição animalizada de se dizer o que pensa

Dentro de um sábado de sol lá fora, rindo à vontade do quão uma conhece a outra, resolvo nostalgiar um momento:
- Recordei-me quando estávamos entre amigos e, te apresentando a eles, disse que enfim havia eu encontrado a minha deidade...
- Ah! – pôs-se a gargalhar – Que vergonha... Assim retruquei: “de idade não, Larissa! De idade, não!”
- Haha... Mas não te acanhes, linda. Todos têm diversos significados para conhecer, seja por dia ou por uma vida...
- Eu percebi que depois deste meu fora, teus amigos ficaram de risinho sonso...
- Mas que – interrompi-a – a experiência de vida não te deixou abalar nem te rebaixar. Essa é a diferença entre a soma de títulos que eles se vangloriam ter e a experiência de tua idade que paga tributo ao teu singelo e sapiente modo de dar a volta por cima: finalizando com sorriso sobre as tuas falhas. Isso denota que não te preocupas e que assumes viver tais falhas humanamente. Isso é sabedoria...
- Tu tens a melhor forma de confortar meus cinquenta e poucos... Mesmo assim admiro demais e gostaria muito de ter tido uma formação como a tua. Não tenho mais tempo para isso, logo chego à minha vitória com o orgulho que tenho de ti, amor...
- Gosto deveras de ti, namorada. És uma mulher madura de olhar acerado e, me arrisco a dizer, arrogante. Até vejo teu desdém pela cultura como algo escolar... Algo que mescla inocência e elegância, concentrando em grau o imaculado poder que te dás ao luxo de afirmar qualquer barbaridade sem que ninguém se importe... Ao contrário de mim, cuja academia leitora não permite se jogar instintivamente às críticas. No mais, ao aprender sobre relacionamentos, descobri pelo nosso namoro que há sempre uma Eduarda para alguma Mônica...
- A diferença da música é que a mais velha é a aprendiz e a mais nova é a inteligente...
- Viu como a completamos ainda mais mostrando mais um lado.
- O melhor presente que tenho é um parecer teu.
- Aprende então que a forma mais leve de lidar com notícias ruins é nos esforçarmos para melhorar o futuro. Leiamos, amada. E deixemos a imaginação fluir.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

“Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho que hoje eu passei batom vermelho”


A boca vermelha. Doce cor ressuscitada à Bela Adormecida do sexo. Está ela ficando velha e experiente em me deixar insone! Ao contrário das outras bocas encarnadas que ordenam aproximação, aquela boca afasta. É subvertida! E divertida ri da marca deixada por ela na minha bochecha. 
Corou essa com toda vontade dela. Da boca dela. Da palavra dela. Um desenho dela com a artística pesada daqueles lábios grosseiramente superiores a toda negação que eu lhe queira proferir... Prefiro-a! O vermelho pintou-a, tornou-a musa “alegre como dom” de sangue palpitado às nossas curvas tremidas dentro do vestido.
Deu corpo àquela carne de cor. Grudou óleo ao borrão entregue a sua nudez. Espalhou desespero e exaspero às finas arrugas dedicadas ao meu sabor. A pele minha ganha a cama da confissão dela “ao pé da boca”. Não há ouvidos senão para as promessas grunhidas daquela boca. Não há ouvido que mais se aguce senão para os desmandos daquela cor vermelha.
Desando... Desatando o laço. Dormir é uma peça de roupa que derrama em fios sem começo ou fim. Embolam-se no chão, fora do alcance do corpo, enquanto neste corpo ela costura energicamente com os dedos fios a boa-disposição da insônia. Princesa de beijo vermelho à outra princesa da cor de corpo... Ela conta a história decorando o quadro de pele de vermelho. Contamos declarações à cor do coração: feliz.


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Aliança


Observou a roda viva que no símbolo figurava-se o moinho de voltas triturantes. São órgãos e lágrimas à água movida para não apodrecer. Somos crianças e incertezas a partir do silêncio que a promessa do fim prospera.
Sem mais, vestidos de moça não ventam a roda viva. Se promete ela sambar, que faça em cima do meu caixão. A fita amarela de sol antigo e brasante com bravura desmancha a ternura da voz ansiada ao ler o nome dela ali escrito. É dizer, salva-vida n’algum expresso suspiro ao nascimento qualquer.
No alento, uma queixa resumida. Foi na sua espera a criação da minha desculpa. Um tempo ardiloso em que a poesia torna-se a rima da hipocrisia... Sonhou a esperança. Cantarolei Cartola inspirando-lhe confiança à sua responsabilidade. Dei-lhe liberdade. Ela compromissou a liberdade dada. Significou amor.
Um pêndulo à sorte do humor. Exclamação duradoura durante o reticente amanhã vindouro. Perante as mesmas águas movidas pelo moinho já tomamos decisões importantes no seu final à beira-mar. Transformamos períodos simples em questionamentos. Seguramos as mãos sabiamente fortalecidas contra os nãos. Seguramos as mãos sabiamente, não sacamos as armas.
Não cultuo a minha porção louca, mas também não a reprimo. Seria eu uma hipócrita se não deixasse qu’ela fizesse parte da minha responsabilidade. A pessoa antes distante, que deixa livre, sabe, ao voltar, achegar-se de novo... Escolhas e esperas combinam com amor.
Resta, portanto, se jogar no sofá – tão longe – trocando o vinho à beça na cabeça pelo uísque à beça n’alma. O caleidoscópio dos velozes enfim acha o tempo achado nos beijos furtivos. Somos Clarice à crônica alinhavada independente de.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades II

- Ainda não compreendo tua tristeza desde que saímos. Tentei pegar a tua mão e te esquivaste. Tentei te acolher, mas desisti quando usaste a desculpa de preferir o envolto frio da echarpe ao meu abraço... Estás aborrecida! Diz-me por que.
- Porque tu me fizeste passar um mau momento.
- Eu?! Eu por quê? Alguém te ofendeu sem que eu visse? Ou...
- Não. Todos foram amáveis.
- Não gostaste dos meus amigos?
- Não são teus amigos! Não foi a comemoração! Não foi o local!
- Então o que foi?
- Fui eu! Eu! Eu que completamente estava fora de lugar!
-...
- Tu não imaginas, Larissa, o mal que me senti quando, por exemplo, me perguntaram “que opina: a convivência mata a paixão?”. Ah, como eu vou saber? Estou casada há mais de trinta anos. Nunca tive tempo para considerar. Outro fato “o que a senhora faz?”. Eu?! Agora estou aposentada, mas só me dediquei à minha casa, às minhas sessenta horas de colégio, a fazer as compras do mercado, a atender ao marido e aos filhos. Sim, eu tenho três filhos! – arquejou – Meu Deus! Três filhos! Que inconsciência! Que mulher hoje tem três filhos? Não, Larissa. Na minha época se tinham os filhos que se pariam e ponto! Nunca tive tempo para pensar! Tampouco para saber o que queria com uma graduação meia-boca, sei lá, e ganhar em sessenta horas de serviço o que tu recebes em vinte horas pelo teu doutorado. Ah, então, aparece quem já interagiu com textos feministas: o que a senhora pensa a respeito de Camille Paglia ou de Susan... Susan não sei quê?
- Sontag. Susan Sontag.
- Isso! Susan Sontag. Obrigada.
- Querida, há temas comuns em cada geração e conhecê-los não implica...
- Não delires, Larissa! Não me venhas com isso! Se não, o que seriam, pois, os temas comuns à minha geração? “Quanto é o quilo do tomate?” ou “assumir o sobrenome do marido e se portar em todas as festas da família dele como se a minha não existisse mais” ou as fraldas, a mamadeira do bebê... O quê?! Vamos lá, escolhe um tema dos menos chatos para “debatermos”! Mas nada de Mario de Andrade, de Lygia, de Chico Buarque, de Bakunin e ideais que me façam pensar, certo?! Ou, ah, tu consideras que trinta anos de casamento são desculpas suficientes para que o mundo existisse lá fora sem mim?
- Não, querida.
- Também não, Larissa. – Ela pega a bolsa.
- Espera! Aonde vais?
- É tarde. Acredito que... muito tarde para tudo. Menos para me lamentar... – Ela fecha a porta. E eu a abro, atrás dela:
- Claro! Afortunadamente tarde. – esbravejei – Confortavelmente tarde porque assim tu podes seguir a tua vida como até agora! Seguramente tarde porque seria difícil e doloroso se ainda estivesses a tempo de que o mundo não seguisse o seu curso sem ti, claro, porque então terias de mudar!
-...
- Espera-me, eu te levo. – acalmei e peguei as chaves do carro – Não, melhor, deixo as chaves contigo. Eu te empresto o carro. Vai. Vai antes que um resquício de vontade de viver te invada e arruíne os teus planos de não formar parte da vida.
-...
- Anda! O que esperas? Vai. Vai ao encontro da tua “idade” que te coloca venda nos olhos, tampão nos ouvidos e te canta uma canção de ninar para que a vida não te arruíne. Quem sabe assim não tenhas mais um “mau momento”.
-... – Dá meia-volta.
- Espera! Posso te perguntar uma coisa?
- Posso evitar que o faças?
- De que te lamentas? De ter me conhecido? De ter aceitado essa relação? De que passamos momentos agradáveis? De sentir? De quê?
- De não ser jovem para ti...
- Vem, querida. Vem. Não dês atenção ao que falas!
- Mas sou, Larissa. Dentro de quatro dias farei cinquenta e seis anos.
- Bom, então tu não és vinte e seis anos a mais que eu... És vinte e cinco anos e cento e trinta e quatro dias. Que alívio, verdade?!
- Lari... Lamento tanto te amar.
Aproximo-me do seu pescoço...
- Não. Não devo te amar! Tu não tinhas direito algum de entrares assim na minha vida! Tu me despertaste uns sentimentos que... não sei como lidar. Eu vivia tão tranquila antes de te conhecer. Realmente. Tranquilíssima! Sabia quem eu era... Agora vivo dependente de uma visita, de um telefonema, um “whats”, de que me chames nas horas mais erradas; ainda assim angustiada e com medo que um dia deixes de me amar...
- Agradeço-te.
- Lari, não posso viver sem ti. Sem teu sentido, sem tuas sinestesias, sem tuas poesias, teus medos, tua hipocondria... Eu não quero viver sem ti! No entanto, te parece divertido adentrar na minha vida e... levar toda minha vida adiante.
- Tu te enganas.
- Mas são sentimentos que eu jamais devo sentir! Que devia ter deixado para lá.
- Que sentimentos?
- Estes sentimentos. Estes sentimentos.
-...
- Se não tivesses me deixado sozinha, talvez eu não me aborrecesse com perguntas sobre “Susan Sontag”, por exemplo.
- Nunca te deixei sozinha.
- Não?! E quando apareceu aquela tua colega te puxando para uma conversa particular?
- Eu estava te notando a cada segundo! Não ficaste só e isso foi rápido.
- Mas eu senti que não tinhas olhos sem que fosse para ela!
- Minha ciumenta!
- Não te envaideças. – vai à janela – Além disso, por que eu teria de ter ciúme da tua colega? Para nada. Para nada porque tens razão, Larissa, sim, estou com ciúme!
- Vou te colocar ciúme mais seguidamente então... Pois te tornas linda quando me amas...
- Que vaidade é essa, professora? Vaidade de saber que os ciúmes são o amor?
- Se não são, se parecem...
Ela dá às costas.
- Olha para mim. Olha... – taco-lhe levemente a tampinha da garrafa do uísque, ela se vira e sorri docemente – Olha... Tu não tens nada a temer.
- Nada. Nada. Somente tornar-me louca por ti.
- Eu te amo, querida. Amo-te muito. – beijo-a – Pensaste em me deixar?
- Sim. Todos os dias. Enceno. Fujo de mim.
- E não consegues.
- Não. Amo-te.
- Queres acreditar que eu também?
- Sim.
- Ao invés de dizer...
Calei-me e beijei-a por tudo que era face e respiração. Abracei-a ternamente. Prendi-a entre as mãos e desfiz a sua prisão têxtil. Ela preferiu apagar a luz...        


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

Aprendi a mexer nela, desaprendi a tempestade...

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta tanto a minha idade?
- Por que te aborreces quando te falo da minha?
- Porque te amo.
-...
- O que me pira não é a quantidade de anos que estás a minha frente...
- Desculpa, não quis te ofender.
- A cortesia sobre a verdade é virtude dos cinquenta?
-...

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Entre amigas: a passividade do possível


Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso antes da Primeira Guerra... Pegando o seu eixo freudiano, sem a infelicidade, a frustração e o trauma, provavelmente não haveria cultura. Já interagiste com o Mal-Estar na Cultura?
M: Não, mas já trato de procurá-lo! Adoro Freud.
L: A fascinação pelos períodos difíceis deixa-nos revelar que o interesse pela felicidade é aparente. Há, sim, uma sedução pela tirania, pelo terror, pela morte e, consequentemente, pela infelicidade.
M: Mas agora, por favor, completa isso com João Cabral!
L: Ah, sim... – Sorri – “A felicidade dá trabalho!”
M: Este “trabalho” parece algo de mau-gosto...
L: Falar sobre felicidade foi se conduzindo para ser um estímulo à inveja, pois ainda é importante a pessoa manifestar certa dor existencial.
M: Felicidade é cultuada por alguns como sendo “falta de consciência”... Pois, se tomamos vista, por exemplo, os casos de miséria, fome, desigualdade e outros tais que indagam “por que você está rindo?” e ordenam com chantagem “você devia estar chorando!”, vimos que o ato de ser feliz tornou-se algo delituoso.
L: Por exemplo, por que os períodos de felicidade política, como na Grécia clássica, eram importantes, mas também períodos como o nosso, do individual, é causada pela “auto-ajuda”, já que hoje o indivíduo – desobedecendo Drummond – é mais importante que o coletivo?
M: Que perguntas mais tu recomendas? Amemos a ignorância!
L: Hahahaha... Amar é temer jamais. Isso cria uma epifania maravilhosa: pesquisa e textos bons! Ler é uma companhia enorme.
M: Perguntas interessantes com resultados difíceis, mas que sejam uma experiência permanente.
L: Tu sabes que esta experiência é chamada de Democracia, né?! Ela revela absolutamente a capacidade do ser humano de integrar a diversidade...
M: Temos a habilidade de criar história.
L: No entanto, sem escolher circunstâncias, não como bem entendemos, ao passo que diria Marx, e sim baseados naquilo que nos foi transmitido pelo passado.
M: ...
L: Bom, já é tarde. Vamos lá, precisamos ir e deixar segunda acontecer.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A sorte da Rosa!

Foto: Larissa e...


A insustentável dificuldade de domar sentimentos. Calar-se sobre eles. A gente se cala, mas muito se suspira... A gente reclama do domingo, mas se lembra que o melhor da vida ocorre nas suas madrugadas.
Pelo menos, a arte existe para eternizar os bons. A poesia acolhe e conflita com a imparcialidade de Newton – a prova de que o uísque, mais que o vinho, ascende aos céus na figura de um messias.
E canta suas Antífonas! Invoca, provoca o futuro incauto de que será amanhã. Espírito triste. Não resta enquanto imenso antes de estar entre os silêncios de uma música e outra, reconhecendo que não sabe mais contar os dias.
É sim a falta que ela me faz e que desfaz os dias! Infinitos pedaços! E o sentido apenas como a décima nona parte de toda felicidade...
Há um desses dias em que a pessoa me ama ou nunca mais, pois tudo de mim renuncia e derrama fácil. Para de escrever, longamente. – Olha-me ela. E aconteceu!
Sinto-me leve no sofrido conluio da garganta espremida por todos os lados. Não há como desafinar Cazuza: Eu preciso dizer que te amo...

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Quando caçar carícias...

"Amor, eu me lembro ainda que era linda, muito linda... Um céu azul de organdi..." 

Por favor, caça-as sem consciência. Pois não há culpa mais reincidente que a claridade culminada num corte de saber o que se faz. Quando caçar carícias, sê a paz do menino-balão que se torna a metáfora da festa terminada, num canto da sala a esvaziar-se na murcha morbidez de um amor despedido com silêncio.
Quando caçar carícias, faz de corpo quente e coração castigado. Perdoa apenas a ressaca de se merecer no abandono. A paz do abandono. Há paz no abandono?
O mundo não abraça sem enjoo. Embora retorne, não existe certeza: mas se conhece! A cada alguém de único desconstrói a ilusão do ritmo particular na tal ideia viciada pelo amor de ficção. É inconsciente uso-amo da casa à elegia das ruas e da família... Quando caçar carícias, não troques o “eu te amo”.
Por favor, quando caçar carícias, prevê insônias! Afugenta sonhos! Tem um jeito torto de gostar. Sim, antes torto que paralelo, que nunca se encontra... E depois, a conversa fora para descontinuar o sono.
Quando caçar carícias, faz precisando deixar alguém ir. Mesmo havendo de machucá-la... E deixa flores. Flores frente ao epitáfio belo, carnal e frouxo, ali desvantajoso e virado para o lado, mais uma vez, inconscientemente, a caçar carícias...

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A grande vaidade é ser modesto?

“O deus que habita em mim saúda o deus que há em você”
 
Numa roda de conversa em que todos esperam alguma coisa num happy-hour de uma sexta-feira à noitinha...
- Bah, nos Estados Unidos foi criado um pequeno pulmão a partir das células tronco.
- Logo será comum, enfim, o transplante, aliás, a reposição do pulmão doente por outro fabricado – fez um gesto entre aspas – através das próprias células, reduzindo os índices de rejeição...
- Mais uma vez é o homem brincando de ser Deus...
- Discordo...
Calaram-se todos. Dizia eu que:
- Na verdade o homem está pondo em prática a sapiência que lhe é concedida enquanto ser humano. D’us nos disponibiliza o corpo, a saúde e o pensamento para que possamos agir sem a necessidade primitiva de pôr a fé sobre a inteligência, culpando, digo, transferindo ao Eterno as falhas ou a ideologia milagrosa cujas crendices apostam os mais indoutos...
- Simpatias, nem pensar! Não é, Larissa?!
- Meu caro, por trás da boa sorte, sempre existirá uma boa estratégia...
Serviram-me mais uma dose de uísque.
- Não estamos brincando de ser D’us! Estamos, sim, considerando aquela máxima “Deus está dentro de cada um de nós”. Verdade?!
- Certíssimo.
- Fico até com vergonha da minha idade perante tua visão de mundo...
- Quando sentires a paz do abandono, desejar-te-ei uma boa estratégia. Aliás, gente, respondam-me: Há paz no abandono? 
- ...
- Ih, mais uma tese que tenho de desenvolver...
- Verdadeiramente Deus, então, revoluciona. Estamos nos revolucionando, né, Larissa?! A sós.
- Acredito que tal é a inteligência que usamos de degrau evoluindo o significado recíproco que verdadeiramente concerne ao ser humano... Agora, quando o cara resolve matar... Aí, sim, podemos afirmar que está se utilizando das decisões divinas com “má-fé”.
- Porque não é para evoluir o outro, mas para destrui-lo.
- Caráter é uma nuvem que diferencia o homem.
- E isso divinamente revoluciona.
- E a gente sabe.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Mas aquele subterfúgio de te olhar casando...

I don't belong here... (Foto: Larissa Pujol)

Resistir, sofrer por antecipação isolando-se numa máscara de pausa tchekhoviana ao estender-se no palco dos teus olhos. O espetáculo é meu, mas antes lamurie para o meu silêncio a vaga dessa boca a estreitar-se do muito que lhe choro dentro de mim.
É uma oração! Clamo à Resistência na súplica a fim de que esse deus se convença e se infernize mais com o meu pensamento nela... Mas mais do ínferno satiriza-se o erro de não lhe falar... Mas não... A Resistência é a sabotagem da razão; um deus dela mesma que desta cruz na abertura dos seus braços a me saudar, eu fujo.
Que de boba eu não tenho um mínimo provérbio, apenas resisto. Amigo-me confortável no resquício laborioso igualmente assistido à sua palavra... Um fenômeno desfragmentado na sua verve sofista que mais crio a nós duas, futuramente.
Resistência: ela não quer. Desistência: ela me procura. Sigo-a. Ela fecha a porta. Não me deixa entrar.
Tenho de continuar a resposta para os lados... Não é o mesmo lugar quando outra se adora sobre os meus seios cujo arfar ondula os cabelos jogados com espírito ao meu lado.
Deu-se Resistência até a derrocada da pedra. Ela continua pedra – o futuro próximo do mesmo lugar falado, não encorajado desde aqui.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Sobre ex-namorados, paródia, e a premonição machadiana de sua velhice ridícula

Numa pechada casual, após os curtos cumprimentos de formalidade separatista entre um dos meus ex e mim:
- Soube que estás comprometida, que sequer agora olhas para os lados... Como era do teu costume, Larissa...
- Hahaha... Pois é, inclusive foi preciso tu jogares o teu corpo contra os meus passos para que recebesses a minha atenção. – Alfinetei.
- Dizem que a tua namorada é uma velha... Sério, que caída. Considera os diversos sentidos, certo?!
Solfejando Seu Jorge, cantarolei:
- Minha mina é velha, mas não tem problema porque sua juventude emana do interior... 
- Duvido que não te falte nada!
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- Eu vivo bem com ela, sem nenhum dilema. Eu sei que ela é cinquentona, mas eu dou valor!
- Acredito que ela rouba tuas maquiagens para diminuir a idade para essa que tu estás!
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- Às vezes eu me pego observando a ela, admirando a poesia de todo o seu perfil. E entre rugas e menopausa ela ainda faz beleza, toda linda com seu estoque de cremes Renew... 
- Para de debochar com samba, Larissa!
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- Meus ex-namorados ficam de cara, ao ver uma moça, assim, poeta como sou... – Ri.
- Aham, daí caíste na graça de uma mulher velha...
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- São coisas que acontecem por causa do amor – com semínima irônica – ô, ô, ô, ô...
- Logo, logo, tu te enjoas da pele murcha!
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- Quem ama o antigo, a sapiência lhe apetece... Ô, ô, ô, ô...
- Eu te digo por experiência masculina. Não te iludas com tuas paródias filosóficas de caixinha de fósforo!
- Hahahaha... - Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- A juventude está na experiência de quem a sente... – com semínimas de ironia – ô, ô, ô, ô...
- A mesma mulher irritante, argumentativa e, agora, fiel! Fiel!
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- Tenho o velho hábito de dar valor a quem merece... Ô, ô, ô, ô...
- Sexo direto?
- Nós somos sexo.
- Que saudade sinto eu!
- Toda saudade é uma espécie de velhice. Já dizia o Guimarães Rosa.
-...
Ainda solfejando Seu Jorge, cantarolei novamente:
- A juventude está na experiência de quem a sente... A juventude está na experiência de quem a sente... A juventude está na experiência de quem a sente...
Ainda risonha acenei despedindo:
- A juventude está na experiência de quem a sente...   

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Com as roupas de papai - Yahrzeit

Acendi a vela da memória; e dentro de casa, a flama esguia se espichava como criança ascendendo ao encontro d’alma lembrada. O jejum comum a todas as suas filhas, hoje dispersas, talvez fosse lembrado, mas o perdão da correria, quebrado por motivos de energia sobrevivente de salário.
No entanto, cumpri mais uma data de lembrança – já com o dobro da idade – no ritual encanto nostálgico trazido das palavras e sermões durante os anos que traduziram a alçada da existência. Após isto, um estudo complementar unindo força física, agitação e Sêneca... Meu El Malê Rachamin encontrado no descanso da alma que me deu a educação ideal.
Recitar a oração frente a lamparina d’alma lembrada ainda trouxe o olhar para o corpo que já envelhece em mim na cera da pele, porém no pensamento ilumina a curiosidade antes de derreter; é dizer, devo mérito à alma que criou... Medito a filha de suas ações – às vezes falhas, pois toda casa tem sua privada mas as famílias não se dão conta disso –, fecho os olhos me separando do mundo e refletindo na conduta humana as carências que determinam as mazelas entre a fé e a inteligência, relativas também ao próximo.
Boas decisões foram a sua alma lembrada. O cosmo superior, responsável também pela alegria, ampara os destinos deixados aqui e a sua emancipação. Cada destino por si num todo que tal alma ensinou: o verdadeiro ensino é a lembrança.

Permitiu-me o bom gosto da alma lembrada uma coletânea de boa solidão...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Sobre amor e prêmios

"Feito avarenta conto meus minutos... Cada segundo que se esvai cuidando dela que anda noutro mundo; Ela que esbanja suas horas ao vento, aí... Às vezes ela pinta a boca e sai. Fique à vontade, eu digo, take your time!" (Recado da pessoa amada de cabelo cinza que imagina as suas cinzas-das-horas efêmeras... Respondo-lhe: você é um blues que vale a pena)
N’alguma hora da noite de sábado... Eram duas...
- Ei, espera! Uma chamada está passando na tevê. É sobre o prêmio!
- ... - A outra suspira impaciência.
- Tenho de anotar. O prazo encerra logo.
- Estávamos fazendo amor!
- Já, já eu volto... Fui menção honrosa num concurso famosíssimo. Logo, não vou perder a chance de conseguir uma classificação neste também.
- Bem disseste tu que não lecionas Literatura, mas faz amor com ela...
- Ô, meu mimo! – abraçou-a enquanto seus olhos vagos na parede branca projetavam os passos da sequência didática – Não cries em teus pensamentos um dilema como a música Boemia, que não há. Tu estás sempre à altura de uma grande poesia.
- Não é isso, amor... – escorreu nua e miúda entre os lençóis – Temo tua distância.
- Pronto! – concluindo suas anotações – Agora basta criar o relato e a avaliação.
- Não tens ambição de nós!
- Tenho ambição de ser. Não quero esperar a morte para saber que o “céu é o limite”...
- Tão linda e tão compromissada. Eu, aqui, aposentada, encontro sem limite um céu a minha frente...
- Compreende-me com tua maturidade – amontoa-se em seu colo – e confia meu repouso na aliança do teu carinho.
- Queres aquela música, minha menina?
- Por favor, minha pequena.
- “Acho que nem sei direito o que ela fala, mas não canso de contemplá-la...” – E parou – Queres algo mais importante para duas amantes? – Completou beijando-lhe as costas...

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Com as roupas de papai

Tenho delas uma coleção de heróis. (Foto: Larissa Pujol)

As cores delas têm o mesmo coração posto nas estampas. São retas, geométricas de ponto ensolarado, ou palatáveis ao perfume exalado. O tecido desliza, mas transpira no abraço. O abraço deixado por ele bem para sempre me serve, me acolhe, me adorna. Tão bem me molda que até participa dos demais abraços que nele repousam.
Com tais vestes estive depois em tantos lugares, calando-me como ele em muitas músicas, exaltando rimas em noites altas e esféricas. Fiz um nó com sua camisa em minha cintura e ajo dentro de mim com todos admirando a pele e o tecido nobre. Mas agora estou sozinha e com sua lembrança converso.
Acredito que vestindo-o aprendi a assumir o através de mim... Questionei a preciosidade do vício que da verdade nunca é esperado nada. Encaro hoje o sol com a mesma ambição que ele me enxerga. O poder é pouco para quem faz da tempestade a sua educação...
Sinto-me confortável vestindo e adornando a criação de papai com palavras e suas roupas. O lugar daqui não há espaço, não há tempo. Há vida inteira para ir de frente e diferente. Pela minha porta já me acompanha o melhor vício – a mulher. Mas, eu estava sozinha, e resolvi vesti-lo.
Encarnei as mais lindas cores de anjo pela sua gravata! Papai tinha bom e artístico gosto como o meu. Tinha a mesma solidão. Tinha a mesma parada da ira de um rio escuro e profundo como o sofrimento verdadeiro do ser humano.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Fulano de Tal e Sua Senhora (minha)

- Caros amigos, vejam quem sobe a Rio Branco cheios de pose: Fulano de Tal e a Sua Senhora (minha).
Como um casal moderno da música do Ney, eles tentam convencer que o prazer da foda está na procissão do sobrenome; mas os saltos dela embaixo da mesa já descobriram imediata e naturalmente a barra por onde se invade no meu vestido...
Hoje terá sessão única no Treze. Eles cumprimentam os amigos – aqueles que Machado de Assis já nos traduziu – e de braços dados se dirigem à saleta junto aos convidados de honra. A Sua Senhora (minha) exerce a mesma mecânica conversadora, conservadora cabisbaixa, armada e sorridente concordata, que entre os biombos me abraça fugidia confessando-se sem modos... Ensaiam pose para a coluna social, Fulano de Tal e Sua Senhora (minha).
Para o público hipócrita que não beija, ela bem disfarça com batom nude o cinismo de antes ter mordido meu hálito de uísque – com batom vermelho à Bakunin – se jogando sem governo em borrões de nudez...
Somente nós duas sabemos da imoralidade escondidas nas suas intenções. Que ela desce do carro de luxo e se deleita a pé na chuva para depois eu lhe recitar os Andrades, Anaïs, Telles, Gilka, Sand (ou Aurore)...
- Estimada poeta!
- Caro senhor, permita-me, pois, um aperto de mão...
Penso, ah, se o Fulano soubesse que com a mesma força eu aperto os quadris de Sua Senhora (minha)... A ela dirijo um cumprimento leve de bochecha, sussurrando-lhe no ouvido com o mesmo ar quente do cigarro: - a cor do batom é inspirada na cor dos teus mamilos, verdade?! – A Sua Senhora (minha) desequilibrou a pose do olhar, mas ainda se manteve firme no salto da boa-vida...
- Desejo tudo de bom aos senhores, Fulano de Tal e Sua Senhora (minha)... E que D’us os acompanhe, senhor Fulano de Tal e a Sua Senhora (minha!) 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Sincronia

E no cigarro que acendo para expirar lembrança, te trago – em vício – comigo... Assim que a promessa curta se quebra anuviada, te trago – em vício – comigo... Quando aquela mulher se esvai da minha boca rápida-inalcançável, ou quando tenho da sua foto o melhor ninho. Envolvida num abraço fantasma de nicotina, te trago – em vício – comigo...
Quando resolvo despir os sentimentos escusos, te deixo – em cinzas perdidas – pelo meu caminho... Assim que deles recebo o colapso da minha existência, te deixo – em cinzas perdidas – pelo meu caminho.
De mim mesma os passos não serão encontrados; pois o vento profundo já derrotou os teus desmanches carbonizados... Eu te deixo assoprando lábios de beijo – em nuvens perdidas – pelo meu destino...
A covardia me faz traduzir a namorada numa simples inspiração: te expiro – em resignado destino – pelo meu vício. Toda tua lembrança denigre a boa-noite: em lençóis de nicotina te expiro – em resignado destino – pelo meu vício...
No fim das contas, querida, esta minha inútil expectativa ridicularizada à invisibilidade expirada, pela atmosfera que te vejo ir embora, retorna exasperada: te trago – em vício – comigo... 

Why does it always have
To end with humiliation for me?
[...]
I'm in a love with the girl, I am...
Who's smaller and stronger and brave
Than I'll ever be...
(Yoñlu)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Crônica-imagem de Fidelidade

Cotidiano que me faz sorrir até perder a pose...
Já contei os homens que fui para a cama. Daqueles que bastava ordenar "leve", e com engenho leve me conduziam dispensando qualquer bebida. Contei também os homens que fiz chorar. Sorrio agora e penso, melhor ainda, que contei única a mulher que gosta de me fotografar. Essa sim, sei que conquistei...
Minha namorada me despe para os outros e às outras, esquece-se do zoom e vem se aproximando cada vez mais da minha pele. A única câmera a criar de mim sua Lilly Braun, me comendo com os olhos, eternizando o desejo alheio. Zombando da imaginação e do tesão alheio... Eu a conto única. Ela conta vantagem sobre todos os demais.
De lentes para conseguir ler, namorada que zela pelo meu corpo, esconde meus segredos efêmeros de henna, ameniza meus defeitos, receita-me apetitosa com a fôrma da minha silhueta que não a ilude.
Mulher de breves cabelos cinzas desvendando as minhas obscenidades disciplinadas de professora, desde os meus pés, minhas pernas, minhas saboneteiras, meu pescoço... Revela quando tudo o que inunda vem de dentro! Disfarça com sombra a rigidez dos meus seios recém-saídos das suas mãos! Namorada com câmera que enfatiza com luz as próprias partes carentes dela, as que ainda não tocou hoje...
Naturalidade dispensa correções. Ama-me ela sem filtros na minha pele branquinha, sem máculas e marcas de bronzeamento que envelhecem. Ela não perde o instante da minha boca entreaberta, da mão displicentemente jogada, do cabelo ruivo como véu... Escurece minhas pernas a esperá-la, clareia minhas costas com liberdade. Ela se fez única dentre todos os muitos! E, soberba, faz esses muitos que foram e os que desejam se moerem e triturarem seus corações e inflarem fantasias impossíveis comigo... Minha dona solitária do make-off com gozo! Desdenha minha vaidade e é insolente com minhas poses. Namorada-além! Pega-me desavisada, planejando aula, molhada, desprevenida. Capta o arrepio tateando meus ângulos numa óptica sua! Rima imagem com minha legenda... São palavras dela a serem colhidas em pixels para compor poesia. Possui-me de novo a cada par de olhos castanhos dela a me admirar. Ela me grafa nas retinas mecânicas ganhando todas as páginas do meu álbum. Fotografa-me, pois, a fidelidade.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Silêncio em linha reta

Um pedido que amo à Quintana. Sem telhado, sem risco. Num céu sussurrado me declaro amando baixinho – minha baixinha – dentro da minha casa e dos meus tecidos.
Os pássaros somente em paz eu os deixo nos códigos de sua voz, que a mim deixam-me só nesse estômago seu para levar uma vida a me devorar como Cazuza amou num segundo.
Não há devagar, nem amada. Há um conjunto de breves, de ainda, de limite e de múltiplo. O paradoxo este que querer! Antes suave que tudo... Suave, consoante Drummond, como um anjo torto que vive nas sombras. Mas ao invés de dizer “vai...”, diz “vem...”
Por favor, sem perguntas sobre por que haveríamos de dançar. Se não, arrisco-te entre os meus braços provando o perigo de colocar o caos em movimento! Logo exprimo do meu corpo o nascer do sol mais lindo apenas para que aprecies despertar todo dia em mim...
Hum, namorada... Eu não ladro. Mas à Quintana te mordo baixinho rezando para um dia te encontrares e perceberes que o que falta em ti sou eu... Por enquanto desenho no vidro do banheiro embaçado um coração com nossas iniciais. Desenho conformada em ver um amor platônico se dissolver em cálidas lágrimas...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

De uma história

Com o estado d’espírito já lúcido para morrer, um caro esquecido busca a lealdade na tabacaria de Pessoa... Não nos apresentamos, fugimos da característica humana da palavra para alegrar o desconhecido que não nos alcunha.
O caro, esquecido de seu presente anoso, já revela seu infinito sensível... Compartilha ideias, trabalha seus fatos hoje desfalecendo na sua lenta linguagem afogada os pigarros por ser homem. Aproveitei-o ouvindo “a voz de Deus num poço tapado” e entendi que a ideia de felicidade é ir direto para o nada! Ainda que não haja escolha física ou honesta, sempre transitarei na rua que coloca defronte da outra a verdade e a realidade.
O caro esquecido pelos filhos também comentou que enfim fica só num canto para pensar e desvincular-se da pressa da ordem existencial. Suspirei o cigarro numa condição eterna de ser gente... E ele corrompeu a saudade num lapso esfumaçado de creditar no abandono uma melodia instrumental do vento que lhe acha a pele.
Então metade, um quarto, um sexto, um inteiro. Todas as fases são opacas. Fora da cama, a nossa verdade apenas tem sonhado para si mesmo. No entanto, tentamos conquistar o mundo sob a realidade. Ao menos, fumamos com tanta verdade extirpando do vício a acolhida das nossas filosofias. Na mesma tabacaria o caro esquecido e eu naquela mesa à Nelson Gonçalves, defronte “sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície.” Assim para que não haja metafísica que conheça a esperança de um caro esquecido. Dada a hora, tive de acenar-lhe um adeus. E ele sorriu leal ao poema de Pessoa com o mesmo universo sem ideal e vencido, “como se soubesse a verdade”...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Crônica epistolar: Um beijo no escuro

Foto: Larissa Pujol

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

                         Florbela Espanca

O fato de dizer que te amo é para mim um sofrimento, uma traição comigo mesma. Não apenas por ti, pelo amor que tu sentes por aquele outro. Uma traição minha.
Ah, como poderia eu te contar que te amo, se prometi a mim mesma este silêncio? É como se o medo fosse a cláusula presente no pacto comigo mesma, logo sucumbindo a conclusão que a esperança é um empréstimo que a felicidade nos faz.
Agora já escrevi, já me abri. O medo que eu tinha, eu não tenho mais. Não tenho! Dá-me a chance de te mostrar, minha querida. De te fazer esquecer, entre outras coisas, esse indivíduo que, mesmo vivendo sob o teu mesmo teto, nunca teve olhos para ti. Desculpa se sou egoísta, mas é que estou precisando ser para, enfim, te provar que meu amor é verdadeiro.
Desculpa... Aliás, também não tenho que te ficar pedindo desculpas! Amar é jamais ter que pedir perdão, como dizia o velho O’Neal. Eu não quero te pedir nada, quero te dar. Oferecer-te o que tem de mais puro em mim. Quero te oferece alguma coisa, muita coisa, porque dentro do meu coração sozinho apenas existe o dom de ser teu.
Eu te amo.
L.P. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Ao abrir os olhos

Ao abrir os olhos já percebemos em nosso redor as sólidas experiências vestidas de guarda a nos transmitir a mais deslavada mentira sobre o verbo. Que cada ação corresponde ao seu ato com objetivo, o mesmo objetivo alcançado de Dostoiévski que principia a morte.
Tentam-nos sentar na carteira a desfrutar como terceira pessoa os casos de poesia passados nos livrinhos; mas que depois, no próprio corpo, os adultos nos convencem da nossa incapacidade de ser verdadeiros. Castigam-nos para este fim. O castigo coíbe a evolução. Logo, chegamos a crescer escusos da permissão, saboreando luas de queijo, chegando ao sétimo céu com tapete voador de borboletas e tornando-nos o próprio Epaminondas que trata o diagnóstico drummondiano incurável para o nosso sério caso de poesia.
Mesmo assim vamos nos desabsorvendo com a brevidade da sobrevivência. Existe o capital do tempo na promiscuidade das ideias. O paradoxo de viver num mundo de fronteiras e identidades fluidas. De nos informarmos no mesmo segundo sobre um atentado e sobre um ato beneficente no mundo. Com a brevidade da sobrevivência – esta sólida experiência – finalizamo-nos em corpo. A vida, lição de casa segundo Quintana, deixa as questões mais difíceis para o tempo, não mais delirando o verbo como no princípio... Adoecemos da razão de gostar do verbo e da palavra presos. Finalizamo-nos antes durante crianças de castigo e hoje endurecidos de tumor capital, sem derreter o tempo em poema e acreditando que a felicidade é um lago parado.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O registro do poema

Agora, o próximo desafio: fotografar o interior do sempre... Foto: Larissa Pujol.

Sexta-feira, antes de ir ao colégio, tentei fotografar um poema, o mesmo poema que desafiou Manoel de Barros nas figuras anímicas do silêncio. Despertei um tanto depois das suas quatro da manhã, e diferente da festa que ele voltava, eu me preparava para a semana que resta... Ainda não se ouviam ruídos nem murmúrios sorvidos do chimarrão na minha vila. 
O outono estava parindo friamente mais um dia... 
Ia pelo céu o carregador desta foto, era o mesmo silêncio que agora carregava as nuvens bêbadas. Nuvens que tropeçavam com os passos tontos do breu, esbarrando nas portas e nas frestas das janelas com pálpebras valsadas querendo pregar-se como lesma - mais à existência do que ao começo petrificado do dia. Este mendigava levantar-se olhando do alto com o mesmo azul-perdão... 
Era a mesma paisagem velha desabando sobre o teto do sempre. Mas o que se fotografa no interior do sempre? 
Logo mais, esses braços de nuvens colocariam a sua calça, e seguiriam com Manoel e Maiakovski sendo a poesia a noiva a casar-se somente de véu... 
O dia - fotografado - amanheceu legal...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Indispensável assim

Foto: Larissa Pujol.
 
E o café segue esfriando durante a névoa quente do por que... Enfim conclui a maquiagem. A fuga é a mais longa das respostas, que chovem também embaçando a janela. Nem a manhã tirou a nossa fotografia da cinza, porém o teu abraço ao dizer que espera por mim me faz ter o cuidado que isto não é mal...
Antes de dormir adquiri algumas pendências nas estórias que contigo adormeço. Perdi um quarto de hora nessa bossa que tu passas a ter cara de passado – embora eu tenha sequência de mim neste ninho, embora eu tenha aqui os dias que irão surgir, embora num destes dias eu não dure até o fim... Então ao dormires depois de mim me faz ter o cuidado que isto voa para a minha graça – a graça de mais um dia ao teu lado – ah, tens no abraço a minha melhor morada dos dias que se despedem da vida...
Do trabalho à porta, enfim, uma verdade que no teu beijo cesso a luta. De mãos comigo até a cozinha, tu me entregas um pedaço de bolo “receita da família” e uma xícara de chá ainda esfumaçando a miragem... Embora a casa desmoronasse neste momento, eu, te confesso, não perceberia porque estou na melhor morada desse abraço prendido e cuidadoso do meu voo para a minha graça...

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O capítulo das bolsas

Sábado, e como de costume, passei a noite anterior no apartamento da minha cônjuge. Entre os amanheceres que preparam o chimarrão, o café e as roupas para lavar, combinávamos por onde passearíamos e se sentíamos falta de algo na despensa. Acertamos de ir ao shopping próximo à residência logo após o almoço.
Arrumávamos, compartilhávamos maquiagem e vaidade. Minha pequena, muito bela enaltecia sobre o salto agulha a gala casual do jeans; eu, por outro lado, preferi me colocar na sombra de um sobretudo preto - combinado com o manto cor de creme escorrido pelo tronco - que dissimulava a calça de alfaiataria, ainda andando com todo o sorriso que me conforta um Oxford feminino... Ah, além disso... Eu já estava pronta enquanto ela concluía, já vestida e carregada de uma bolsa vermelha no ombro, a sua maquiagem.
Eu esperava por ela na sala. Relia o jornal com um pouco mais de crença. Ela se aproximou elétrica, radiante, verificando de impulso se não havia esquecido algo. E esqueceu: voltou num pé ao nosso quarto para buscar a carteira; e retornou para a sala no mesmo pé, colocando a carteira dentro da bolsa verde que estava pendurada no encosto de uma das cadeiras ali sitiada. Pegou a bolsa verde. A bolsa verde, então, se avizinhou com a bolsa vermelha no mesmo ombro da minha amada! Observei a ação, mas, como toda esposa submissa, me mantive calada fantasiando para o meu julgamento o destino que ela daria a qualquer uma daquelas bolsas – quem sabe ela levaria para um conserto, quem sabe ela faria uma troca na loja...
Assim percorremos todo aquele aglomerado comercial visualizando muito e comprando nada, embora nos divertindo com o tempo entre um assunto e um mimo. Cansamos os corpos, mas ela ainda se dispunha divertida com as duas bolsas penduradas em seu ombro... Logo mais, durante todas as ruas, os semáforos, as calçadas, voltamos com gostosos paladares de sorrisos, tornando aquele detalhe que eu notara um caso mínimo perante a tamanha beleza da risada dela. Entramos em casa e eis que ouço...
- LARISSA! POR QUE TU NÃO ME AVISASTE QUE EU ESTAVA COM DUAS BOLSAS?
... o estopim para a próxima guerra dos cem anos...

(o relato acima foi escrito – e gargalhado – durante o meu abrigo, exilado na casa fugaz de uma amiga)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sobre as cláusulas

Eis que encontro um grito de Munch já acostumado... (Foto: Larissa Pujol)

Quantos afagos constituem uma perda? Quantas lágrimas semeiam uma cura? Quantas orações atendem um milagre? Quantas promessas cegam uma ilusão? Quantos minutos contam um esquecimento? Quantos sonhos realizam uma vida? Quantas derrotas nos fazem arrependidos? Quantos abraços constroem um abrigo? Quantas recusas tentam uma nova espera? Quantas esperas geram a esperança? Quantos suspiros silenciam uma confissão? Quantos sorrisos determinam uma paixão?
Quantos sussurros sentem um arrepio? Quantas convicções formulam a ideologia? Quantas mudanças mobilizam uma revolução? Quantos sabores pintam um beijo? Quantas idas-e-vindas o amor ainda confia?
Quantas retaliações fazem a violência? Quantos direitos articulam a solução dos conflitos? Quantos conflitos somam apostas? Quantos direitos formalizam a violência? Quantos impasses cultivam o ódio? Quantas guerras decretam a falência do direito? Quantos direitos cultuam a violência? O direito fracassa na guerra? A religião coíbe ou cultiva o ódio? O direito o coíbe ou o cultiva? A dor é um erro do cuidado? O erro é um descuido da dor?
Quantos abraços acolhem um pesar? A boa intenção é feita de clichê? A grande vaidade é ser modesto? A felicidade é uma ideia velha?
Quantas dúvidas constroem a chegada?

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O concreto de nós

Esta é a casa que tenho uma vontade indelével de brincar de amarelinha. O céu é logo ali, mas há quem resista desviando. Quando precisamos nos isolar para voltar a crer no mundo? Quando e como será que o mundo voltará a acreditar em nós? Paz é o significado que nós encontramos – e deixamos – no mundo? Ou que levamos conosco?
As flores que nós colhemos por conta própria têm mais perfume. Assim agrupamos o recolhido buquê como taças para que ninguém deixe de brindar. De quatro em quatro num cecererececê que logo multiplica dezesseis na orgia... As intenções se perdem em meio ao titilar dos corpos. Cirandam-se os copos e o suor das mãos como se fossem brincadeira de roda. Meus malditos inocentes. Somos essa miscelânea de boas canções. Trilhamo-nos gratos sempre enternecidos pela gratidão.
Caso a sorte desfaleça em nossa mão, plantemo-na. Há de (re)nascer em trevo de quatro folhas. Alguém sobre a brevidade colherá asas de borboletas, privilegiado do acaso de suas altruístas ações. Bonitas ambições de voo.
Nesta casa passamos o dia com releituras até que, de repente, alguém resolve participar o espetáculo mais bonito. Todos correm para a primeira janela para facilitar ser feliz... O eco da luz é a sombra. A sombra do som é o silêncio. Quem mistura as percepções sente melhor. Neste lado aproxima-se o breu do ventre gerando algo melhor...
O que guia nossos passos ramifica a nossa mente. Esta casa de abraço é para enternecer o frio e enaltecer o brio. Amanhecer nesta casa dignifica! Ensino aqui uma infância na minha saudade. A cidade natal me faz invariavelmente feliz...

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A própria caverna

Assim o toque ancestral desfez a premissa de sua angústia. De pássaros em pássaros criava seu rumo sem se esquecer do ninho, e codificava seu novo conceito cantando. Mas, epicurista no seu vestido todo branco, ela era toda ela! Nem as clássicas Rita e Pombinha dançavam alçando voo, nem a queda lhe trazia tanta satisfação nos passos...
Bicho de lápis definido na ponta fina de seu caminhar. De pássaro em suavidade, o tempo era um endosso de seu amálgama. Lá, em sua terra natal de si, Platão sequer a escurecia – pois de tom confessional, era ela uma prosaica entrega.
Foi do balanço de seus cabelos a música de uma nota só que soava desta paixão grega em solilóquio. Algures seus sintonizavam a pergunta sem que a certeza fosse pontuada n’algum necrológio... Os animais se extinguem, a poesia de Meireles na língua fica. Da perda ainda resiste o objeto à espera de inspiração. E ela segura em seus dedos o mundo todo de si com suas agruras pessoanas, respondendo à paixão grega com sua canção de cicatriz...
Ela respirou a palavra que a mim assomou seu fôlego... A vida da fruta fluiu infindável por todo o antigo labirinto no qual se encontra perdida (nela) o significado. Foi silêncio, foi a resposta de Bob Dylan soprada no vento: a fala gullariana que a poesia exume do pó, jazida sob o temor que cala a voz; este toque ancestral que ouvimos em suma para confessar sussurrando à própria caverna.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Cruzar a linha

Fundei um planeta em seu rosto. Desde as pequenas conduções fluviais de gotas cansadas e somadas que dele fluem desembocando prazer de oceano gargalhado ao chegar a sua boca. Uma terra servil continente de sua pele firme no dia-a-dia, logo com céus a espreitar desse seu olhar ao alto brilhante o sonho ileso no tempo.
Do seu rosto surge um mundo que exploro no meu lado só, na guarida mais recôndita das desculpas antes de cruzar a linha... Porque não na ponte que me leve à criação que lhe fiz... Mas há um suspiro, um toque de voz, um amor que causa o caminho, um invisível que vê no rosto dela toda a metafísica que cria a liberdade. Um invisível que vê na presença dela uma abstração da eternidade.
As luas que compõem suas feições sorriem, fantasiam, choram, traem sobre escolhas plantadas, ceifadas ou mortas. Seus astros fazem o muro desta linha entre ela e mim. O amor é um caso que se põe frente a mim – a face realidade na ferida de um desastre herdado. Eu criei esse rosto, que antes é seu.
       Mas há um suspiro, um toque de voz, um amor que causa o caminho,
            um invisível que vê no rosto dela toda a metafísica que cria a liberdade.
     Um invisível que vê na presença dela uma abstração da eternidade.
Um planeta que percorro com os passos dos olhos, chegando por trás de suas montanhas ao sorrir; que logo faço meu ser de areia para ela, seu mar, me levar... Levar-me no seu bem, no seu mal... Da sua eternidade, minha amada, o que virá de mim? Qualquer abismo é a acolhida do novo e da certeza. Se o amor também causa este caminho, atrás da linha permaneço com o seu bem. Permaneço como o mundo parece, como o mundo é seu, como o mundo que de ti gero num suspiro, num toque de voz, invisível na presença física de compreensível final...

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Minha amada, minha oração

Assim leio os versos de Hafez, lembrando a oração que minha amada me é. Aquela que se encontra o Supremo somente ao citar seu nome. Os desertos saberiam que do beijo seu oriunda toda uma vertente expressa de olores e paraíso diáfano: um sorriso pausado com aqueles seus grandes olhos – amor. Sim, o Eterno criou a ordem do Éden a partir daquela face retratada à maravilha sobre o mundo. Amada minha: minha oração.
Ela também chora na minha presença; e digo que quão tempestuosa revolta se dá dentro de mim, que suas águas refletem de mim alguém desconhecido pela ira. No entanto sei que o dilúvio dela interna a mim provando a mudança camuflada pela serenidade, naquele ímpeto primitivo e corpóreo de destruir tudo para que ela, tão somente ela!, desfrute a soberania.
Possuo o prazer egoísta de cuidar dela. Em surdina persigo-a a minha frente, impedindo que o seu sorriso se inquiete com as noites desse mundo... Levo o mundo a sério pela minha amada, minha oração, para que as chagas deste não maculem o esplendor do céu refletido nas suas raras pérolas sorridas. Procuro que seus ouvidos humanos ouçam apenas a palavra dos anjos; e que por trás do véu da compreensão, minha amada, alegre, se envaideça na casa do amor vivamente maior que os fardos traduzidos em palavras cotidianas.
Das loucuras a faço de vinho. Aquela que perdoa, aquela que esquece. Mas, diferente do sábio, nunca a aconselharei a conhecer o segredo desta que lhe transforma em vinho. Embora ainda seu sorriso nos lábios me faça aceitar a vida e a taça com meu coração a sangrar... Todavia, ela não geme as dores do tempo-espaço como alaúde; e se põe a dançar. Feliz permaneço da minha oração à minha amada.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Aurora branda

Erguendo a maré amarga do tempo, aquilo que mantive retornou um passo à frente e a fundo de mim que conheço supostamente. Quem me deu um abraço assim, maior que esta fama da maré? Velhos amigos indo rosto-a-rosto, levados à frente e a fundo de mim, apagando-se da mente.
Te voilà! – Imortalidade à sombra da expressão “bom-amigo”. Alguns personagens sepultos, à ode dos vermes, que jucundos desaparecem os vultos, urgem logo adiante na prosa famigerados como cães e percepções! No mais existiu alguma amada como amou Catulo... Mencionada hoje nos becos onde suga óbolos do magnânimo Remo. Vênus e Cupido choram a maré da apóstrofe moral: uma das permitidas deidades do amor.
Outra cauda já recolhida como Lálage encerra a sina repetida da âncora decorosa que um trecho verbal se desprendeu. A todo nu da estátua de Isolda merecida como metonímia dos laços do corpete que apertam, ainda faço a franqueza da dama emprestada com meus dedos de Hera presos entre as suas fendas; e escorrendo, a mesma maré olorosa em sedas do instinto me passeia fluindo na liquefação de nossas vestes, à frente e a fundo de mim...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Gôngula em papiro II

Não há por aqui tal primavera cidônia de Íbico, aquela que traz seu séquito. As Mélides e as ninfas chegam emergidas d’água durante a corrente no asfalto, simulacras à ventania ruidosa, paisagística e selvática da Trácia.
Vulto tênue que se apega. Dela é movida em meio ao ciclo do vinhedo coberto de um feroz brilho. Vai-se sem deixar pulso nas veias – ela que então torna-se árvore agarrada a sua vida sem ar que a parta.
Folhas se esvaem das Mélides simulacras. Uma álgida folha cinza-oliva dela desliza na boa relva que passos perduram úmidos. Cada uma, pequena canção nua e impudente ao pé-ligeiro do sopro. Pertinente preferência d’alguma ninfa iludida e arguida vertigem da emoção.
Pintura dela que não nega a sua progênie. Fino supor da estação em seus quarenta anos. Aqui sou-lhe de arcaísmos sisudos a cumprimentá-la de língua para fora; às vezes contando as anedotas de Cibele, e ruflando sua saia pudica ao falar-lhe sobre joelhos e quadril. Dela, sobre os seus joelhos e seu quadril, vem a pessoa prática: vive para sempre, uma Mélide contraste à Gautier.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Gôngula em papiro

O outono se despe, e a gente se veste... Foto: Larissa Pujol

Plácido, o outono se despe à essência da solidão característica. Visto-me no tanto de seu ocultismo a sentir leve frustração que purifique a dose da nostalgia. A casa, flagrante lembrança do caminho na relva, entristecia não me ser todas as partes; ou que todos os outonos não fossem um único outono, tal como as mulheres de Byron.
Acredito estar concentrada em um único objeto ao meu favor. Ter força imita, porém, algo que valha a pena. No fim aqueles que se escusam na excessiva chama de candeia tropeçam na guardada paz transcrita em luz. Reger-se pela escuridão tempestuosa e outonal restaura a visão à confiança da própria covardia burlando-a um pouco.
Ler como o outono ousa significar de si mesmo. Qualquer modo cumpre a missão limitada e virginal à inquieta emancipação do dilúvio. Morto como um inteiro, a hora psíquica do breu cuida o evento de pequenos cosmos sacudidos. Em seus lugares, a força que se sabe está referido aos outros de si em movimento...
Páginas têxteis idolatrando a dúvida sem sair antes de observar. Ah, tão contrária tal atitude da beleza, que raramente poucos a bebem dessa fonte. O outono beberia da nossa mente; todo prometido, mas franco velho inexplicável.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Reia

Provoca-me Reia com seu gemido grego proferido dos lábios finos. Inquieta como o resto cansado, a saciedade de Reia ainda me é intacta em seus seios pequenos. Toda ela pequena...
Aos corações do pó, Reia conta seus segredos de boas entrelinhas das soluções que alguém acerte o enredo. Tem a garganta em Chalais: o junto não a iguala. Discórdia que me lavra a separação dantesca na última pessoa do inferno.
Que suporia Reia ao tramar-se com aliança? Erguia, pois, os olhos distanciando-se como os altos álamos... Lá onde cheguei um dia a compor-lhe, ciumenta, tais floreios que adornassem sua atenção melhor que o outro! - Ah, se tu, outro, soubesses que as angústias de Reia já se apoiaram sem fôlego em mim, o seu muro. – Reia, a andorinha de momento, tingindo os cumes altos da exclusividade dos sonetos petrarqueanos, embora retorne à canção olhando curiosa e ávida o meu rosto, lembrando-se das mortas esquecidas nele.
Reia é para pequenas emoções, não para o epos... Tampouco ela dança; ninguém lhe escreve. Apenas eu a testemunho em grande consideração. Reia é um ótimo resultado de poesia – apesar da ilustração de seus cortes imagéticos. Súbita e acentuada, Reia tem corpo estruturado em vórtices. Um quadro vendido à ficção sobre as figuras do passado. Extensão de um épico insuficiente. 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Deixo-o na caixa

Love brings such misery and pain
I guess I'll never be the same
Since I fell for you...
 
Enquanto as crianças brincam, são os seus saltos que sobem as escadas ditando ao coração as nervosas batidas com passos do seu vestido aveludado...
Então percorro os corredores. Abro todas as salas com a esperança que ela esteja n’alguma... Agora minha pena e minha nicotina procrastinam... Ela sempre me diz para fazer as coisas do meu jeito – que assim eu a alegro.
Quando cheguei hoje, ela passou por mim com seu bom dia... Prontamente lembrei-me dela tão linda naquela comemoração do ano passado, reclamando, inclusive, que o sol atrapalhava as luzes da festa. E, ajudando a desarrumar, perguntei sobre o enfeite de Natal. – Deixe-o na caixa. Assim, seja o material ou o meu sentimento, é o que faço: Deixo-o na caixa! Tão somente deixo-o na caixa!
Na minha carta tudo é igual e escondido. Esforço o oposto, visto que ela me conhece. Viro-me para o lado, não quero que nada nela me deite o olhar! No entanto, ao lembrar que deixei meu perfume na sua cadeira, eu disse “até logo” a ela me deixando voltar para casa com seu sorriso nos meus olhos, mas que logo deixo-o em outro corpo. Nunca no seu!   
Qualquer falso pretexto de justo sentido para que dela eu me aproxime! Permito-me chorar nos dias que não pude encontrá-la. Acredito que a amo...
Enfim, chegará a hora de preparar mais um Natal. Sobre o enfeite: busque-o na caixa. Mas, mais uma vez, meu sentimento por ela esmorecerá disfarçado e racionalmente enfeitado que deixo-o na caixa... Mais um ano, deixo-o na caixa... Tão somente, deixo-o na caixa...

sexta-feira, 18 de março de 2016

A escrava, então, não era a Isaura, nem a Poesia...

Mario e eu nesta última semana:
Também tenho uma parábola. Mario diferenciou-se com Cristo. No meu caso, entre o médico e mim existe uma diferença que estabeleço: “Seu doutô” diz: esta é a verdade. E segundo a exatidão, talvez tenha ele uma mea-razão. Digo-lhe, porém: meu corpo é a minha verdade. E tenho razão. Vamos à alegoria!
Adão teve de sua costela retirada por Hashem um ser que os homens proclamavam a coisa mais perfeita da criação: Eva. Invejoso e bocudo, o primeiro homem resolveu criar também. E como não sabia o porquê d’um bisturi para uma arte “tão interna quanto extraordinária”, tirou-lhe do próprio sangue escorrido (ou seria do próprio hemograma?) um outro ser. Era também – o primeiro plágio realístico da história – uma mulher. Humana, forte, peitos e músculos, como a letra de Caetano: linda, mais que demais!
Para dar modelo aos novos fitoterápicos, Adão, envaidecido, colocou essa mulher nua, sanguínea, logo, eterna, nos fins da Tessália. Depois que Evagrius nomeou os sete pecados capitais, estes rumaram para visitar a tal notória e maravilhosa nudez da nova criatura. Festejaram com ela, comendo e aproveitando todo frescor do luxo. Enraiveceram-se entre si. A soberba aconselhou-a sobre auto-estima, ignorando diagnósticos. E todos viraram a manhã no divã preguiçoso da ressaca... Ela despertou e envergonhou-se. Adão, assim, “colocou-lhe uma primeira coberta”: a folha de boldo.   
Caim, para forçar a sobra do rebanho de Abel, envolveu a mulher com manto em forma de faixas alvíssimas. A mais conservante indumentária. As novas gerações não lhe tiravam as vestes já existentes, mas ainda mais depositavam sobre ela novos modos de se cuidar. Os turcos, enfim, colocaram-lhe gesso. Os gregos a superstição. Qualquer um lhe dava uma rama de arnica ou uma folha de babosa. Adornavam-na de anis-estrelado conforme a previsão d’um mapa astrológico. A natureza condecorou-a de bactérias. Os indígenas, o curandeirismo; os semitas, a oração; os chineses, a meditação; os tudors bebiam sua urina...
Vindo de séculos depois de séculos, um curioso genial nascido a 1872 passou frente ao tal monte. Admirou-se por encontrar o tal “Guarniscar” de plantas, aromas, fumaças, rezas, auto-ajuda e sei lá mais que! Mas o curioso quis ver o monte e deu-lhe um chute de 25 anos naquela extravagante e heterogênea vitrine de poções. Tal qual a bruxaria, tudo desapareceu num encanto. E o garoto bigodudo descobriu a mulher nua, angustiada, ignara, ignorada, virulenta, falando crendices, desconhecendo a função dos seus órgãos, selvagem, áspera, cortada, ingênua, ad-mortem, e incrivelmente suja! 
A escrava da Tessália chamava-se Saúde.
O curioso genial era Oswaldo Cruz.
Essa mulher escandalosamente nua é que a ciência e os desesperados se puseram a adorar (muitas vezes dosando mais otimismo que inteligência).

sexta-feira, 11 de março de 2016

Para me conhecer, tive de amá-la

Podemos arranjar um tempo para sermos mais que amigas? De frente para a porta eu converso com o pessoal, porque atento a cada movimento desta que pode trazê-la, dentre os sorrisos possíveis, sorrindo para mim... Mas o seu sorriso possível é para todos, nunca é apenas para mim; e você não apareceu...
Faço deste nunca um lugar seguro para nós duas! Entretanto, nem mesmo uma catarse isso nos é. Depois do expediente, amor, eu tenho bebido. Respondo aos recados da minha namorada forjando um engano ao escrever para você. Desculpo-me do “te amo” enviado, e retorno pela manhã juntando conhecimento com algumas (de) nossas palavras idiotas que me fizeram feliz na hora de mimá-la. É perigoso quando todos funcionam ao nosso redor... Faz tempo que eu tenho calado em cada abraço: Podemos ficar a sós?
Quando o nosso tempo será para usufruirmos mais que amigas? Mais que amigas!
Eu não tenho medo, tampouco vergonha. Contudo, fico na minha e evito acreditando que a minha culpa pode desesperá-la, matá-la... Se você não iniciar agora, ninguém mais a amará como eu!
Então, precisamos encontrar o tal tempo para aprontarmos logo essa besteira juntas! Mais que amigas!
Isso pode piorar... Eu quero tocá-la! Mas como todo o gado de mulheres domesticadas, você vai para a sua casa servir o jantar ao marido... Isso dói demais porque tive de amá-la para me conhecer. Amá-la num tempo que nos permite ser apenas amigas... Apenas amigas...

Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa...

sexta-feira, 4 de março de 2016

Frente ao inverno do bom café (cena noturna)

Ah, e a lisboeta ali, em outro vácuo temporário de descontentamento, erguendo para si um mundo que se movia romanticamente, requintadamente e um tanto tragicamente comigo sentada à sua frente... Eu tanto a observava na personagem trágica que se impusera, como a mim mesma desempenhando o papel de uma atriz cujo termo balzaquiano se adere ao meu perfil dissolvido n’algumas dobras adiposas de pele, mas capaz de atuar a menor deixa em qualquer momento. Doutro lado, enquanto isso, as mais jovens amarguradamente roem as unhas tingidas nos bastidores.
“Vem cá!”, ordenou, e eu atendi. Na sua lusitana fosca pretensão surgiu-lhe novamente a trágica e jovem acossada sensação de perda. Então me dei conta da triste fecundidade do mundo e do realismo esperançoso que engana a si mesmo. “Quero um beijo teu!”, fixou ela, Joana, tornando-se um animal desajeitado e decomposto pela obsessão.
Não! Eu não lhe tinha sequer o mais fraco movimento de rejeição. Suas mãos tombaram sobre minhas coxas enquanto eu continha o instintivo e brusco ataque de fuga... Isto deixou no crepúsculo um antagonismo invisível e defensivo, expandido em constantes ondas cumulativas que levavam a mim e a ela pelo Tejo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Frente ao inverno do bom-café


Então o fado me destinava... (Foto: Larissa Pujol)
Lisboa, fevereiro de 16.

“Larissa é uma poeta”, disse-me a outra mulher, cuja pele da face se aconchegava como veludo no sorriso suspeito entre os olhos predatórios, sem piscar, um tanto obscenos. Fiz-lhe uma leve mesura: o nosso sexo jamais falha em questões de tato, minha cara.
“É preciso desculpar as poetas pelo que fazem...”, continuou a lisboeta, querendo ainda me chamar de poeta. A poesia – expliquei-lhe – tal como a lei, é o derradeiro refúgio do problema, do coxo, do imbecil, do cego. Diria até, minha cara, que Cezar inventou a jurisprudência para se proteger dos poetas.
“O negócio é a tua esperteza, poeta” – continuou então com um riso melífluo, com som saído da boca das crianças... “Faz tempo que não dizes que me amas?” – cobrou-me a gaja tocando-me o rosto com a ponta dos dedos, no meu cabelo escorregadio em desalinho. “Muito tempo” – confirmou. “Desde ontem, lá na Baixa Chiado, pelo menos”, concordei e completei dizendo que a amo (como aquela camiseta do Fernando Pessoa que deixei de comprar), enquanto ela se inclinava para mim e me ouvia com sua desatenção absorta e voluptuosa, ainda me acariciando o rosto e os cabelos, mas agora com as mãos delicadas e atrevidas. Afasto-me para acender o cigarro...
Aspirei de memória uma fumaça melosa, atraindo a voga de qualquer teatro de vaudeville, talvez com escasso virtuosismo e uma predileção por nuances adocicadas daquele tabaco. Ficamos assim por algum tempo enquanto as luzes brilhavam na escura noite do Tejo.