Pular para o conteúdo principal

O segundo sopro

Resolvemos dormir. Quem confia, na aliança do hábito matrimonial, o espaço de total descompasso do repouso, sabe que o sono apenas chega com o embalo de ambas as respirações, naquele abraço circundante da mesma noite.
Entre um comentário e outro brevemente fechamos os olhos. Era “meio-da-semana” e o meu descanso já penava durante o trabalho. Talvez ela houvesse dito mais algumas palavras, que o movimento taciturno do assunto me acomodou ainda mais em seu ninho...
Passaram-se três, quatro horas de repouso até que ela me acode, me reanima assoprando todo seu ar para dentro de mim, segundo seu relato:
- Amor! Graças a Deus! Estás bem? – ela não esperou minha resposta... – Tu tiveste apnéia! Tu simplesmente paraste! Paraste de respirar! A tua pulsação parou! E tu ainda não me respondeste! – Nesta hora observei que nem meu pai havia dito tantas exclamações numa só frase... Comecei, por fim:
- Não sei... Digo... Parece que “voltei”. Estou com uma forte dor no peito, mais ainda no pescoço, em sua musculatura, e nos canais aéreos que conduzem o ar aos pulmões...
- Não fales muito. Mantém-te acordada! Vou buscar água para ti.
E lá vinha ela com rara carinha séria confundindo seus quarenta e cinco anos entre as agruras da preocupação e o medo infantil de perder algo considerado valioso. Minha pequenininha...
Bebi todo o conteúdo do copo. As dores aliviaram. Ela fez massagem com relaxante muscular nos pontos dos quais me queixei. Fui melhorando aos poucos – aliás, aos pouquinhos, para ter suas mãozinhas me abençoando por muito mais tempo... 
- Como tu “descobriste” meu mal-estar?
- Porque eu despertei com a falta do teu “embalo” e do leve sopro que sinto quando respiras. O costume faz isso... Se tu não tens o que te é cômodo, tu despertas!
- Continua...
- Então notei que teu braço estava muito pesado. Foi apenas colocá-lo estendido ao teu corpo que ele “desabou” e levou todo o teu tronco para o lado. Desci da cama, acendi a luz. A tua cena me assustou, Amor. Eu te chamei uma, duas, três vezes. Eu te gritei! Mas tu permanecias inaudível e com corpo mole. Tomei teu pulso: nada. Tentei perceber um fio de respiração: nada. Não! Não pensei, nem penei chamando o Socorro porque sei que com a lengalenga deste serviço tu não sairias dessa, querida! Assim, puxei tua cabeça para trás e te soprei todo ar que eu dispunha nos pulmões...
- Faz sentido. Enquanto “voltava” senti como se esvaziassem um balão de ar na garganta.
Olhei-a com todo significado. Tornar-se-ia para um deus enquanto ela continuava com sua carinha de precaução.
- Que curioso... – sorri-lhe tremendo os lábios - Tu me deste o segundo sopro da vida.
- Isso se chama “primeiros socorros”... – sorriu timidamente.
- E único. Bastou para pegar uma parte de ti... De ser tu...
- Daqui a pouco serás tu a me devolver o sopro.
- Quem sabe começo pela tua nuca...
De fato, então, eu me mantive acordada, suspensa pelo fio condutor da vida chamado sopro - ora chamado fôlego, ora chamado tesão! Ela não compactuou com minha exaustão cardíaca, mas beijou esta região expandindo toda sua boca... Passado o dia, voltei do trabalho; e sobre a mesinha do telefone estava um bilhete com letras graúdas e corridas, agendando meus horários para diversas especialidades médicas... A minha pequenininha, como namorada, é uma ótima mãe...

Postagens mais visitadas deste blog

Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os…

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…