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Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

Frente ao inverno do bom-café

Lisboa, fevereiro de 16.

“Larissa é uma poeta”, disse-me a outra mulher, cuja pele da face se aconchegava como veludo no sorriso suspeito entre os olhos predatórios, sem piscar, um tanto obscenos. Fiz-lhe uma leve mesura: o nosso sexo jamais falha em questões de tato, minha cara.
“É preciso desculpar as poetas pelo que fazem...”, continuou a lisboeta, querendo ainda me chamar de poeta. A poesia – expliquei-lhe – tal como a lei, é o derradeiro refúgio do problema, do coxo, do imbecil, do cego. Diria até, minha cara, que Cezar inventou a jurisprudência para se proteger dos poetas.
“O negócio é a tua esperteza, poeta” – continuou então com um riso melífluo, com som saído da boca das crianças... “Faz tempo que não dizes que me amas?” – cobrou-me a gaja tocando-me o rosto com a ponta dos dedos, no meu cabelo escorregadio em desalinho. “Muito tempo” – confirmou. “Desde ontem, lá na Baixa Chiado, pelo menos”, concordei e completei dizendo que a amo (como aquela camiseta do Fernando Pessoa q…

Crônica epistolar: Querida

Querida,
Simpatia é o sentimento que nasce no momento sincero do coração. Tenho por ti mais do que simpatia, tenho por ti mais que admiração. Tenho por ti uma vontade imensa de penetrar no seu coração e a casa da tua alma. Sinto que tua alma é um ninho oculto nos matagais. Quem acertar o caminho, não voltará jamais... Perdoa-me por nunca identificar este meu amor que te aprecia.
Suspirei. Suspirei por este quem que és tu, o meu segredo. O suspiro é uma dedicatória, um arrepio da alma. E eu te encontro, querida, como Gilbert, que sente a poesia dentro de si. Não há fome que me apeteça mais, minha linda, do que a dificuldade de viver sem esta ilusão à toa...
Nada fui do que planejei, amada, porque sonhei contigo. Ah, quão nosso poder humano de discernir sobre o que as coisas são e o que elas poderiam ser, que Hazlitt ainda elementa o meu riso e o meu choro, na vez de sofrer mais com a perda da ilusão do que com a perda da realidade.
Como estás, minha querida?
Saudade não se define. É uma pa…

Num café comum

E quando ela sorri, o mundo inteiro para e fica olhando por um tempo...
- Faz de mim um dístico, uma rima, uma prosa dessa sua escrava da luz, da paixão dengosa desse seu jeito de mulher fogosa... – continuei:
- Depois que a vi tão bonita, com esse encanto que tem, a presença dos outros se tornou esquisita; e eu não quis mais ninguém... – confidenciei:
- Amo-a mais do que Romeu amou Julieta, Abelardo amou Heloísa, Dirceu amou Marília.
Assim ela, de sua pausa, ergueu o decomposto rosto ligeiramente prognata, com seus olhos bondosos e opacos. Viu-me a cara.
- Apenas curiosidade. Para olhar um pouco... – Disse.
Observei-a, então. Ela é ainda jovem demais para ser inconscientemente tola...

A pétala e a pele

Ambas sentem a água sobrevivente minando os pés de sua materna raiz, estendendo em si a parede equilibrada. A pétala e a pele possuem a mesma sensação de tocar em sangue. Elas, relativas, mais adiante, têm fulgor: bloqueiam a luz de quem as contempla e suas paredes voltam a reluzir.
Ambas, de início, são grotescas sombras num clarão ensanguentado de alvoroço. Formas obtusas e escuras que delas obturam uma espécie de lanterna mágica. Então delas um rosto se destaca soprando a escuridão da outra como dádiva invernal que descarrega o outono...
Elas são próprias. São as próprias coisas. A pétala e a pele possuem uma beleza absoluta e trágica. E são preservadas, entende? Macabras e invioladas; depuradas e purificadas como a rigidez do bronze, ao mesmo tempo frágeis como bolhas de sabão. Ouve-se nelas o encostar sonoro cristalizado de um oboé, ou do pífaro rústico de uma flauta... As duas brotam e envolvem suas flores diante da cadência inteligente que os arcanjos de Milton reconhecem.
A p…