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A pétala e a pele

Pétala inveja pele... (Foto: Larissa Pujol)

Ambas sentem a água sobrevivente minando os pés de sua materna raiz, estendendo em si a parede equilibrada. A pétala e a pele possuem a mesma sensação de tocar em sangue. Elas, relativas, mais adiante, têm fulgor: bloqueiam a luz de quem as contempla e suas paredes voltam a reluzir.
Ambas, de início, são grotescas sombras num clarão ensanguentado de alvoroço. Formas obtusas e escuras que delas obturam uma espécie de lanterna mágica. Então delas um rosto se destaca soprando a escuridão da outra como dádiva invernal que descarrega o outono...
Elas são próprias. São as próprias coisas. A pétala e a pele possuem uma beleza absoluta e trágica. E são preservadas, entende? Macabras e invioladas; depuradas e purificadas como a rigidez do bronze, ao mesmo tempo frágeis como bolhas de sabão. Ouve-se nelas o encostar sonoro cristalizado de um oboé, ou do pífaro rústico de uma flauta... As duas brotam e envolvem suas flores diante da cadência inteligente que os arcanjos de Milton reconhecem.
A pétala e a pele elevam-se em frases movimentadas de paz. O significado da paz, com constante relutância prazerosa, ainda que se as sente somente bem de perto, no toque. A pétala e a pele preenchem a sala com a presença constante do seu conteúdo: o aroma. Ora imóveis, mas a pele fita a porta pela qual havia passado. A pele volta à varanda e descansa acompanhada da já fria adstringência da pétala, como outra presença que significa a paz. Pronunciou cada palavra grave no interior do frio sino de silêncio a que por fim retornara, ouvindo-as pairar e morrer aos poucos, puras como ambas, a pétala e a pele, ao se chocarem de leve...

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