Pular para o conteúdo principal

Frente ao inverno do bom-café


Então o fado me destinava... (Foto: Larissa Pujol)
Lisboa, fevereiro de 16.

“Larissa é uma poeta”, disse-me a outra mulher, cuja pele da face se aconchegava como veludo no sorriso suspeito entre os olhos predatórios, sem piscar, um tanto obscenos. Fiz-lhe uma leve mesura: o nosso sexo jamais falha em questões de tato, minha cara.
“É preciso desculpar as poetas pelo que fazem...”, continuou a lisboeta, querendo ainda me chamar de poeta. A poesia – expliquei-lhe – tal como a lei, é o derradeiro refúgio do problema, do coxo, do imbecil, do cego. Diria até, minha cara, que Cezar inventou a jurisprudência para se proteger dos poetas.
“O negócio é a tua esperteza, poeta” – continuou então com um riso melífluo, com som saído da boca das crianças... “Faz tempo que não dizes que me amas?” – cobrou-me a gaja tocando-me o rosto com a ponta dos dedos, no meu cabelo escorregadio em desalinho. “Muito tempo” – confirmou. “Desde ontem, lá na Baixa Chiado, pelo menos”, concordei e completei dizendo que a amo (como aquela camiseta do Fernando Pessoa que deixei de comprar), enquanto ela se inclinava para mim e me ouvia com sua desatenção absorta e voluptuosa, ainda me acariciando o rosto e os cabelos, mas agora com as mãos delicadas e atrevidas. Afasto-me para acender o cigarro...
Aspirei de memória uma fumaça melosa, atraindo a voga de qualquer teatro de vaudeville, talvez com escasso virtuosismo e uma predileção por nuances adocicadas daquele tabaco. Ficamos assim por algum tempo enquanto as luzes brilhavam na escura noite do Tejo.

Postagens mais visitadas deste blog

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …