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Frente ao inverno do bom-café


Então o fado me destinava... (Foto: Larissa Pujol)
Lisboa, fevereiro de 16.

“Larissa é uma poeta”, disse-me a outra mulher, cuja pele da face se aconchegava como veludo no sorriso suspeito entre os olhos predatórios, sem piscar, um tanto obscenos. Fiz-lhe uma leve mesura: o nosso sexo jamais falha em questões de tato, minha cara.
“É preciso desculpar as poetas pelo que fazem...”, continuou a lisboeta, querendo ainda me chamar de poeta. A poesia – expliquei-lhe – tal como a lei, é o derradeiro refúgio do problema, do coxo, do imbecil, do cego. Diria até, minha cara, que Cezar inventou a jurisprudência para se proteger dos poetas.
“O negócio é a tua esperteza, poeta” – continuou então com um riso melífluo, com som saído da boca das crianças... “Faz tempo que não dizes que me amas?” – cobrou-me a gaja tocando-me o rosto com a ponta dos dedos, no meu cabelo escorregadio em desalinho. “Muito tempo” – confirmou. “Desde ontem, lá na Baixa Chiado, pelo menos”, concordei e completei dizendo que a amo (como aquela camiseta do Fernando Pessoa que deixei de comprar), enquanto ela se inclinava para mim e me ouvia com sua desatenção absorta e voluptuosa, ainda me acariciando o rosto e os cabelos, mas agora com as mãos delicadas e atrevidas. Afasto-me para acender o cigarro...
Aspirei de memória uma fumaça melosa, atraindo a voga de qualquer teatro de vaudeville, talvez com escasso virtuosismo e uma predileção por nuances adocicadas daquele tabaco. Ficamos assim por algum tempo enquanto as luzes brilhavam na escura noite do Tejo.

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