sexta-feira, 18 de março de 2016

A escrava, então, não era a Isaura, nem a Poesia...

Mario e eu nesta última semana:
Também tenho uma parábola. Mario diferenciou-se com Cristo. No meu caso, entre o médico e mim existe uma diferença que estabeleço: “Seu doutô” diz: esta é a verdade. E segundo a exatidão, talvez tenha ele uma mea-razão. Digo-lhe, porém: meu corpo é a minha verdade. E tenho razão. Vamos à alegoria!
Adão teve de sua costela retirada por Hashem um ser que os homens proclamavam a coisa mais perfeita da criação: Eva. Invejoso e bocudo, o primeiro homem resolveu criar também. E como não sabia o porquê d’um bisturi para uma arte “tão interna quanto extraordinária”, tirou-lhe do próprio sangue escorrido (ou seria do próprio hemograma?) um outro ser. Era também – o primeiro plágio realístico da história – uma mulher. Humana, forte, peitos e músculos, como a letra de Caetano: linda, mais que demais!
Para dar modelo aos novos fitoterápicos, Adão, envaidecido, colocou essa mulher nua, sanguínea, logo, eterna, nos fins da Tessália. Depois que Evagrius nomeou os sete pecados capitais, estes rumaram para visitar a tal notória e maravilhosa nudez da nova criatura. Festejaram com ela, comendo e aproveitando todo frescor do luxo. Enraiveceram-se entre si. A soberba aconselhou-a sobre auto-estima, ignorando diagnósticos. E todos viraram a manhã no divã preguiçoso da ressaca... Ela despertou e envergonhou-se. Adão, assim, “colocou-lhe uma primeira coberta”: a folha de boldo.   
Caim, para forçar a sobra do rebanho de Abel, envolveu a mulher com manto em forma de faixas alvíssimas. A mais conservante indumentária. As novas gerações não lhe tiravam as vestes já existentes, mas ainda mais depositavam sobre ela novos modos de se cuidar. Os turcos, enfim, colocaram-lhe gesso. Os gregos a superstição. Qualquer um lhe dava uma rama de arnica ou uma folha de babosa. Adornavam-na de anis-estrelado conforme a previsão d’um mapa astrológico. A natureza condecorou-a de bactérias. Os indígenas, o curandeirismo; os semitas, a oração; os chineses, a meditação; os tudors bebiam sua urina...
Vindo de séculos depois de séculos, um curioso genial nascido a 1872 passou frente ao tal monte. Admirou-se por encontrar o tal “Guarniscar” de plantas, aromas, fumaças, rezas, auto-ajuda e sei lá mais que! Mas o curioso quis ver o monte e deu-lhe um chute de 25 anos naquela extravagante e heterogênea vitrine de poções. Tal qual a bruxaria, tudo desapareceu num encanto. E o garoto bigodudo descobriu a mulher nua, angustiada, ignara, ignorada, virulenta, falando crendices, desconhecendo a função dos seus órgãos, selvagem, áspera, cortada, ingênua, ad-mortem, e incrivelmente suja! 
A escrava da Tessália chamava-se Saúde.
O curioso genial era Oswaldo Cruz.
Essa mulher escandalosamente nua é que a ciência e os desesperados se puseram a adorar (muitas vezes dosando mais otimismo que inteligência).