sexta-feira, 29 de abril de 2016

Minha amada, minha oração

Assim leio os versos de Hafez, lembrando a oração que minha amada me é. Aquela que se encontra o Supremo somente ao citar seu nome. Os desertos saberiam que do beijo seu oriunda toda uma vertente expressa de olores e paraíso diáfano: um sorriso pausado com aqueles seus grandes olhos – amor. Sim, o Eterno criou a ordem do Éden a partir daquela face retratada à maravilha sobre o mundo. Amada minha: minha oração.
Ela também chora na minha presença; e digo que quão tempestuosa revolta se dá dentro de mim, que suas águas refletem de mim alguém desconhecido pela ira. No entanto sei que o dilúvio dela interna a mim provando a mudança camuflada pela serenidade, naquele ímpeto primitivo e corpóreo de destruir tudo para que ela, tão somente ela!, desfrute a soberania.
Possuo o prazer egoísta de cuidar dela. Em surdina persigo-a a minha frente, impedindo que o seu sorriso se inquiete com as noites desse mundo... Levo o mundo a sério pela minha amada, minha oração, para que as chagas deste não maculem o esplendor do céu refletido nas suas raras pérolas sorridas. Procuro que seus ouvidos humanos ouçam apenas a palavra dos anjos; e que por trás do véu da compreensão, minha amada, alegre, se envaideça na casa do amor vivamente maior que os fardos traduzidos em palavras cotidianas.
Das loucuras a faço de vinho. Aquela que perdoa, aquela que esquece. Mas, diferente do sábio, nunca a aconselharei a conhecer o segredo desta que lhe transforma em vinho. Embora ainda seu sorriso nos lábios me faça aceitar a vida e a taça com meu coração a sangrar... Todavia, ela não geme as dores do tempo-espaço como alaúde; e se põe a dançar. Feliz permaneço da minha oração à minha amada.