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Mostrando postagens de Junho, 2016

Ao abrir os olhos

Ao abrir os olhos já percebemos em nosso redor as sólidas experiências vestidas de guarda a nos transmitir a mais deslavada mentira sobre o verbo. Que cada ação corresponde ao seu ato com objetivo, o mesmo objetivo alcançado de Dostoiévski que principia a morte.
Tentam-nos sentar na carteira a desfrutar como terceira pessoa os casos de poesia passados nos livrinhos; mas que depois, no próprio corpo, os adultos nos convencem da nossa incapacidade de ser verdadeiros. Castigam-nos para este fim. O castigo coíbe a evolução. Logo, chegamos a crescer escusos da permissão, saboreando luas de queijo, chegando ao sétimo céu com tapete voador de borboletas e tornando-nos o próprio Epaminondas que trata o diagnóstico drummondiano incurável para o nosso sério caso de poesia.
Mesmo assim vamos nos desabsorvendo com a brevidade da sobrevivência. Existe o capital do tempo na promiscuidade das ideias. O paradoxo de viver num mundo de fronteiras e identidades fluidas. De nos informarmos no mesmo segund…

O registro do poema

Sexta-feira, antes de ir ao colégio, tentei fotografar um poema, o mesmo poema que desafiou Manoel de Barros nas figuras anímicas do silêncio. Despertei um tanto depois das suas quatro da manhã, e diferente da festa que ele voltava, eu me preparava para a semana que resta... Ainda não se ouviam ruídos nem murmúrios sorvidos do chimarrão na minha vila.  O outono estava parindo friamente mais um dia...  Ia pelo céu o carregador desta foto, era o mesmo silêncio que agora carregava as nuvens bêbadas. Nuvens que tropeçavam com os passos tontos do breu, esbarrando nas portas e nas frestas das janelas com pálpebras valsadas querendo pregar-se como lesma - mais à existência do que ao começo petrificado do dia. Este mendigava levantar-se olhando do alto com o mesmo azul-perdão...  Era a mesma paisagem velha desabando sobre o teto do sempre. Mas o que se fotografa no interior do sempre?  Logo mais, esses braços de nuvens colocariam a sua calça, e seguiriam com Manoel e Maiakovski sendo a poesi…

Indispensável assim

E o café segue esfriando durante a névoa quente do por que... Enfim conclui a maquiagem. A fuga é a mais longa das respostas, que chovem também embaçando a janela. Nem a manhã tirou a nossa fotografia da cinza, porém o teu abraço ao dizer que espera por mim me faz ter o cuidado que isto não é mal...
Antes de dormir adquiri algumas pendências nas estórias que contigo adormeço. Perdi um quarto de hora nessa bossa que tu passas a ter cara de passado – embora eu tenha sequência de mim neste ninho, embora eu tenha aqui os dias que irão surgir, embora num destes dias eu não dure até o fim... Então ao dormires depois de mim me faz ter o cuidado que isto voa para a minha graça – a graça de mais um dia ao teu lado – ah, tens no abraço a minha melhor morada dos dias que se despedem da vida...
Do trabalho à porta, enfim, uma verdade que no teu beijo cesso a luta. De mãos comigo até a cozinha, tu me entregas um pedaço de bolo “receita da família” e uma xícara de chá ainda esfumaçando a miragem... …

O capítulo das bolsas

Sábado, e como de costume, passei a noite anterior no apartamento da minha cônjuge. Entre os amanheceres que preparam o chimarrão, o café e as roupas para lavar, combinávamos por onde passearíamos e se sentíamos falta de algo na despensa. Acertamos de ir ao shopping próximo à residência logo após o almoço.
Arrumávamos, compartilhávamos maquiagem e vaidade. Minha pequena, muito bela enaltecia sobre o salto agulha a gala casual do jeans; eu, por outro lado, preferi me colocar na sombra de um sobretudo preto - combinado com o manto cor de creme escorrido pelo tronco - que dissimulava a calça de alfaiataria, ainda andando com todo o sorriso que me conforta um Oxford feminino... Ah, além disso... Eu já estava pronta enquanto ela concluía, já vestida e carregada de uma bolsa vermelha no ombro, a sua maquiagem.
Eu esperava por ela na sala. Relia o jornal com um pouco mais de crença. Ela se aproximou elétrica, radiante, verificando de impulso se não havia esquecido algo. E esqueceu: voltou …