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O capítulo das bolsas

Sábado, e como de costume, passei a noite anterior no apartamento da minha cônjuge. Entre os amanheceres que preparam o chimarrão, o café e as roupas para lavar, combinávamos por onde passearíamos e se sentíamos falta de algo na despensa. Acertamos de ir ao shopping próximo à residência logo após o almoço.
Arrumávamos, compartilhávamos maquiagem e vaidade. Minha pequena, muito bela enaltecia sobre o salto agulha a gala casual do jeans; eu, por outro lado, preferi me colocar na sombra de um sobretudo preto - combinado com o manto cor de creme escorrido pelo tronco - que dissimulava a calça de alfaiataria, ainda andando com todo o sorriso que me conforta um Oxford feminino... Ah, além disso... Eu já estava pronta enquanto ela concluía, já vestida e carregada de uma bolsa vermelha no ombro, a sua maquiagem.
Eu esperava por ela na sala. Relia o jornal com um pouco mais de crença. Ela se aproximou elétrica, radiante, verificando de impulso se não havia esquecido algo. E esqueceu: voltou num pé ao nosso quarto para buscar a carteira; e retornou para a sala no mesmo pé, colocando a carteira dentro da bolsa verde que estava pendurada no encosto de uma das cadeiras ali sitiada. Pegou a bolsa verde. A bolsa verde, então, se avizinhou com a bolsa vermelha no mesmo ombro da minha amada! Observei a ação, mas, como toda esposa submissa, me mantive calada fantasiando para o meu julgamento o destino que ela daria a qualquer uma daquelas bolsas – quem sabe ela levaria para um conserto, quem sabe ela faria uma troca na loja...
Assim percorremos todo aquele aglomerado comercial visualizando muito e comprando nada, embora nos divertindo com o tempo entre um assunto e um mimo. Cansamos os corpos, mas ela ainda se dispunha divertida com as duas bolsas penduradas em seu ombro... Logo mais, durante todas as ruas, os semáforos, as calçadas, voltamos com gostosos paladares de sorrisos, tornando aquele detalhe que eu notara um caso mínimo perante a tamanha beleza da risada dela. Entramos em casa e eis que ouço...
- LARISSA! POR QUE TU NÃO ME AVISASTE QUE EU ESTAVA COM DUAS BOLSAS?
... o estopim para a próxima guerra dos cem anos...

(o relato acima foi escrito – e gargalhado – durante o meu abrigo, exilado na casa fugaz de uma amiga)

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