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Crônica-imagem de Fidelidade

Cotidiano que me faz sorrir até perder a pose...
Já contei os homens que fui para a cama. Daqueles que bastava ordenar "leve", e com engenho leve me conduziam dispensando qualquer bebida. Contei também os homens que fiz chorar. Sorrio agora e penso, melhor ainda, que contei única a mulher que gosta de me fotografar. Essa sim, sei que conquistei...
Minha namorada me despe para os outros e às outras, esquece-se do zoom e vem se aproximando cada vez mais da minha pele. A única câmera a criar de mim sua Lilly Braun, me comendo com os olhos, eternizando o desejo alheio. Zombando da imaginação e do tesão alheio... Eu a conto única. Ela conta vantagem sobre todos os demais.
De lentes para conseguir ler, namorada que zela pelo meu corpo, esconde meus segredos efêmeros de henna, ameniza meus defeitos, receita-me apetitosa com a fôrma da minha silhueta que não a ilude.
Mulher de breves cabelos cinzas desvendando as minhas obscenidades disciplinadas de professora, desde os meus pés, minhas pernas, minhas saboneteiras, meu pescoço... Revela quando tudo o que inunda vem de dentro! Disfarça com sombra a rigidez dos meus seios recém-saídos das suas mãos! Namorada com câmera que enfatiza com luz as próprias partes carentes dela, as que ainda não tocou hoje...
Naturalidade dispensa correções. Ama-me ela sem filtros na minha pele branquinha, sem máculas e marcas de bronzeamento que envelhecem. Ela não perde o instante da minha boca entreaberta, da mão displicentemente jogada, do cabelo ruivo como véu... Escurece minhas pernas a esperá-la, clareia minhas costas com liberdade. Ela se fez única dentre todos os muitos! E, soberba, faz esses muitos que foram e os que desejam se moerem e triturarem seus corações e inflarem fantasias impossíveis comigo... Minha dona solitária do make-off com gozo! Desdenha minha vaidade e é insolente com minhas poses. Namorada-além! Pega-me desavisada, planejando aula, molhada, desprevenida. Capta o arrepio tateando meus ângulos numa óptica sua! Rima imagem com minha legenda... São palavras dela a serem colhidas em pixels para compor poesia. Possui-me de novo a cada par de olhos castanhos dela a me admirar. Ela me grafa nas retinas mecânicas ganhando todas as páginas do meu álbum. Fotografa-me, pois, a fidelidade.

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