sexta-feira, 1 de julho de 2016

Crônica epistolar: Um beijo no escuro

Foto: Larissa Pujol

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

                         Florbela Espanca

O fato de dizer que te amo é para mim um sofrimento, uma traição comigo mesma. Não apenas por ti, pelo amor que tu sentes por aquele outro. Uma traição minha.
Ah, como poderia eu te contar que te amo, se prometi a mim mesma este silêncio? É como se o medo fosse a cláusula presente no pacto comigo mesma, logo sucumbindo a conclusão que a esperança é um empréstimo que a felicidade nos faz.
Agora já escrevi, já me abri. O medo que eu tinha, eu não tenho mais. Não tenho! Dá-me a chance de te mostrar, minha querida. De te fazer esquecer, entre outras coisas, esse indivíduo que, mesmo vivendo sob o teu mesmo teto, nunca teve olhos para ti. Desculpa se sou egoísta, mas é que estou precisando ser para, enfim, te provar que meu amor é verdadeiro.
Desculpa... Aliás, também não tenho que te ficar pedindo desculpas! Amar é jamais ter que pedir perdão, como dizia o velho O’Neal. Eu não quero te pedir nada, quero te dar. Oferecer-te o que tem de mais puro em mim. Quero te oferece alguma coisa, muita coisa, porque dentro do meu coração sozinho apenas existe o dom de ser teu.
Eu te amo.
L.P.