Pular para o conteúdo principal

Com as roupas de papai

Tenho delas uma coleção de heróis. (Foto: Larissa Pujol)

As cores delas têm o mesmo coração posto nas estampas. São retas, geométricas de ponto ensolarado, ou palatáveis ao perfume exalado. O tecido desliza, mas transpira no abraço. O abraço deixado por ele bem para sempre me serve, me acolhe, me adorna. Tão bem me molda que até participa dos demais abraços que nele repousam.
Com tais vestes estive depois em tantos lugares, calando-me como ele em muitas músicas, exaltando rimas em noites altas e esféricas. Fiz um nó com sua camisa em minha cintura e ajo dentro de mim com todos admirando a pele e o tecido nobre. Mas agora estou sozinha e com sua lembrança converso.
Acredito que vestindo-o aprendi a assumir o através de mim... Questionei a preciosidade do vício que da verdade nunca é esperado nada. Encaro hoje o sol com a mesma ambição que ele me enxerga. O poder é pouco para quem faz da tempestade a sua educação...
Sinto-me confortável vestindo e adornando a criação de papai com palavras e suas roupas. O lugar daqui não há espaço, não há tempo. Há vida inteira para ir de frente e diferente. Pela minha porta já me acompanha o melhor vício – a mulher. Mas, eu estava sozinha, e resolvi vesti-lo.
Encarnei as mais lindas cores de anjo pela sua gravata! Papai tinha bom e artístico gosto como o meu. Tinha a mesma solidão. Tinha a mesma parada da ira de um rio escuro e profundo como o sofrimento verdadeiro do ser humano.

Postagens mais visitadas deste blog

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …