sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Com as roupas de papai

Tenho delas uma coleção de heróis. (Foto: Larissa Pujol)

As cores delas têm o mesmo coração posto nas estampas. São retas, geométricas de ponto ensolarado, ou palatáveis ao perfume exalado. O tecido desliza, mas transpira no abraço. O abraço deixado por ele bem para sempre me serve, me acolhe, me adorna. Tão bem me molda que até participa dos demais abraços que nele repousam.
Com tais vestes estive depois em tantos lugares, calando-me como ele em muitas músicas, exaltando rimas em noites altas e esféricas. Fiz um nó com sua camisa em minha cintura e ajo dentro de mim com todos admirando a pele e o tecido nobre. Mas agora estou sozinha e com sua lembrança converso.
Acredito que vestindo-o aprendi a assumir o através de mim... Questionei a preciosidade do vício que da verdade nunca é esperado nada. Encaro hoje o sol com a mesma ambição que ele me enxerga. O poder é pouco para quem faz da tempestade a sua educação...
Sinto-me confortável vestindo e adornando a criação de papai com palavras e suas roupas. O lugar daqui não há espaço, não há tempo. Há vida inteira para ir de frente e diferente. Pela minha porta já me acompanha o melhor vício – a mulher. Mas, eu estava sozinha, e resolvi vesti-lo.
Encarnei as mais lindas cores de anjo pela sua gravata! Papai tinha bom e artístico gosto como o meu. Tinha a mesma solidão. Tinha a mesma parada da ira de um rio escuro e profundo como o sofrimento verdadeiro do ser humano.