sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Sobre amor e prêmios

"Feito avarenta conto meus minutos... Cada segundo que se esvai cuidando dela que anda noutro mundo; Ela que esbanja suas horas ao vento, aí... Às vezes ela pinta a boca e sai. Fique à vontade, eu digo, take your time!" (Recado da pessoa amada de cabelo cinza que imagina as suas cinzas-das-horas efêmeras... Respondo-lhe: você é um blues que vale a pena)
N’alguma hora da noite de sábado... Eram duas...
- Ei, espera! Uma chamada está passando na tevê. É sobre o prêmio!
- ... - A outra suspira impaciência.
- Tenho de anotar. O prazo encerra logo.
- Estávamos fazendo amor!
- Já, já eu volto... Fui menção honrosa num concurso famosíssimo. Logo, não vou perder a chance de conseguir uma classificação neste também.
- Bem disseste tu que não lecionas Literatura, mas faz amor com ela...
- Ô, meu mimo! – abraçou-a enquanto seus olhos vagos na parede branca projetavam os passos da sequência didática – Não cries em teus pensamentos um dilema como a música Boemia, que não há. Tu estás sempre à altura de uma grande poesia.
- Não é isso, amor... – escorreu nua e miúda entre os lençóis – Temo tua distância.
- Pronto! – concluindo suas anotações – Agora basta criar o relato e a avaliação.
- Não tens ambição de nós!
- Tenho ambição de ser. Não quero esperar a morte para saber que o “céu é o limite”...
- Tão linda e tão compromissada. Eu, aqui, aposentada, encontro sem limite um céu a minha frente...
- Compreende-me com tua maturidade – amontoa-se em seu colo – e confia meu repouso na aliança do teu carinho.
- Queres aquela música, minha menina?
- Por favor, minha pequena.
- “Acho que nem sei direito o que ela fala, mas não canso de contemplá-la...” – E parou – Queres algo mais importante para duas amantes? – Completou beijando-lhe as costas...