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Entre amigas: a passividade do possível


Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso antes da Primeira Guerra... Pegando o seu eixo freudiano, sem a infelicidade, a frustração e o trauma, provavelmente não haveria cultura. Já interagiste com o Mal-Estar na Cultura?
M: Não, mas já trato de procurá-lo! Adoro Freud.
L: A fascinação pelos períodos difíceis deixa-nos revelar que o interesse pela felicidade é aparente. Há, sim, uma sedução pela tirania, pelo terror, pela morte e, consequentemente, pela infelicidade.
M: Mas agora, por favor, completa isso com João Cabral!
L: Ah, sim... – Sorri – “A felicidade dá trabalho!”
M: Este “trabalho” parece algo de mau-gosto...
L: Falar sobre felicidade foi se conduzindo para ser um estímulo à inveja, pois ainda é importante a pessoa manifestar certa dor existencial.
M: Felicidade é cultuada por alguns como sendo “falta de consciência”... Pois, se tomamos vista, por exemplo, os casos de miséria, fome, desigualdade e outros tais que indagam “por que você está rindo?” e ordenam com chantagem “você devia estar chorando!”, vimos que o ato de ser feliz tornou-se algo delituoso.
L: Por exemplo, por que os períodos de felicidade política, como na Grécia clássica, eram importantes, mas também períodos como o nosso, do individual, é causada pela “auto-ajuda”, já que hoje o indivíduo – desobedecendo Drummond – é mais importante que o coletivo?
M: Que perguntas mais tu recomendas? Amemos a ignorância!
L: Hahahaha... Amar é temer jamais. Isso cria uma epifania maravilhosa: pesquisa e textos bons! Ler é uma companhia enorme.
M: Perguntas interessantes com resultados difíceis, mas que sejam uma experiência permanente.
L: Tu sabes que esta experiência é chamada de Democracia, né?! Ela revela absolutamente a capacidade do ser humano de integrar a diversidade...
M: Temos a habilidade de criar história.
L: No entanto, sem escolher circunstâncias, não como bem entendemos, ao passo que diria Marx, e sim baseados naquilo que nos foi transmitido pelo passado.
M: ...
L: Bom, já é tarde. Vamos lá, precisamos ir e deixar segunda acontecer.

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