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Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades II

- Ainda não compreendo tua tristeza desde que saímos. Tentei pegar a tua mão e te esquivaste. Tentei te acolher, mas desisti quando usaste a desculpa de preferir o envolto frio da echarpe ao meu abraço... Estás aborrecida! Diz-me por que.
- Porque tu me fizeste passar um mau momento.
- Eu?! Eu por quê? Alguém te ofendeu sem que eu visse? Ou...
- Não. Todos foram amáveis.
- Não gostaste dos meus amigos?
- Não são teus amigos! Não foi a comemoração! Não foi o local!
- Então o que foi?
- Fui eu! Eu! Eu que completamente estava fora de lugar!
-...
- Tu não imaginas, Larissa, o mal que me senti quando, por exemplo, me perguntaram “que opina: a convivência mata a paixão?”. Ah, como eu vou saber? Estou casada há mais de trinta anos. Nunca tive tempo para considerar. Outro fato “o que a senhora faz?”. Eu?! Agora estou aposentada, mas só me dediquei à minha casa, às minhas sessenta horas de colégio, a fazer as compras do mercado, a atender ao marido e aos filhos. Sim, eu tenho três filhos! – arquejou – Meu Deus! Três filhos! Que inconsciência! Que mulher hoje tem três filhos? Não, Larissa. Na minha época se tinham os filhos que se pariam e ponto! Nunca tive tempo para pensar! Tampouco para saber o que queria com uma graduação meia-boca, sei lá, e ganhar em sessenta horas de serviço o que tu recebes em vinte horas pelo teu doutorado. Ah, então, aparece quem já interagiu com textos feministas: o que a senhora pensa a respeito de Camille Paglia ou de Susan... Susan não sei quê?
- Sontag. Susan Sontag.
- Isso! Susan Sontag. Obrigada.
- Querida, há temas comuns em cada geração e conhecê-los não implica...
- Não delires, Larissa! Não me venhas com isso! Se não, o que seriam, pois, os temas comuns à minha geração? “Quanto é o quilo do tomate?” ou “assumir o sobrenome do marido e se portar em todas as festas da família dele como se a minha não existisse mais” ou as fraldas, a mamadeira do bebê... O quê?! Vamos lá, escolhe um tema dos menos chatos para “debatermos”! Mas nada de Mario de Andrade, de Lygia, de Chico Buarque, de Bakunin e ideais que me façam pensar, certo?! Ou, ah, tu consideras que trinta anos de casamento são desculpas suficientes para que o mundo existisse lá fora sem mim?
- Não, querida.
- Também não, Larissa. – Ela pega a bolsa.
- Espera! Aonde vais?
- É tarde. Acredito que... muito tarde para tudo. Menos para me lamentar... – Ela fecha a porta. E eu a abro, atrás dela:
- Claro! Afortunadamente tarde. – esbravejei – Confortavelmente tarde porque assim tu podes seguir a tua vida como até agora! Seguramente tarde porque seria difícil e doloroso se ainda estivesses a tempo de que o mundo não seguisse o seu curso sem ti, claro, porque então terias de mudar!
-...
- Espera-me, eu te levo. – acalmei e peguei as chaves do carro – Não, melhor, deixo as chaves contigo. Eu te empresto o carro. Vai. Vai antes que um resquício de vontade de viver te invada e arruíne os teus planos de não formar parte da vida.
-...
- Anda! O que esperas? Vai. Vai ao encontro da tua “idade” que te coloca venda nos olhos, tampão nos ouvidos e te canta uma canção de ninar para que a vida não te arruíne. Quem sabe assim não tenhas mais um “mau momento”.
-... – Dá meia-volta.
- Espera! Posso te perguntar uma coisa?
- Posso evitar que o faças?
- De que te lamentas? De ter me conhecido? De ter aceitado essa relação? De que passamos momentos agradáveis? De sentir? De quê?
- De não ser jovem para ti...
- Vem, querida. Vem. Não dês atenção ao que falas!
- Mas sou, Larissa. Dentro de quatro dias farei cinquenta e seis anos.
- Bom, então tu não és vinte e seis anos a mais que eu... És vinte e cinco anos e cento e trinta e quatro dias. Que alívio, verdade?!
- Lari... Lamento tanto te amar.
Aproximo-me do seu pescoço...
- Não. Não devo te amar! Tu não tinhas direito algum de entrares assim na minha vida! Tu me despertaste uns sentimentos que... não sei como lidar. Eu vivia tão tranquila antes de te conhecer. Realmente. Tranquilíssima! Sabia quem eu era... Agora vivo dependente de uma visita, de um telefonema, um “whats”, de que me chames nas horas mais erradas; ainda assim angustiada e com medo que um dia deixes de me amar...
- Agradeço-te.
- Lari, não posso viver sem ti. Sem teu sentido, sem tuas sinestesias, sem tuas poesias, teus medos, tua hipocondria... Eu não quero viver sem ti! No entanto, te parece divertido adentrar na minha vida e... levar toda minha vida adiante.
- Tu te enganas.
- Mas são sentimentos que eu jamais devo sentir! Que devia ter deixado para lá.
- Que sentimentos?
- Estes sentimentos. Estes sentimentos.
-...
- Se não tivesses me deixado sozinha, talvez eu não me aborrecesse com perguntas sobre “Susan Sontag”, por exemplo.
- Nunca te deixei sozinha.
- Não?! E quando apareceu aquela tua colega te puxando para uma conversa particular?
- Eu estava te notando a cada segundo! Não ficaste só e isso foi rápido.
- Mas eu senti que não tinhas olhos sem que fosse para ela!
- Minha ciumenta!
- Não te envaideças. – vai à janela – Além disso, por que eu teria de ter ciúme da tua colega? Para nada. Para nada porque tens razão, Larissa, sim, estou com ciúme!
- Vou te colocar ciúme mais seguidamente então... Pois te tornas linda quando me amas...
- Que vaidade é essa, professora? Vaidade de saber que os ciúmes são o amor?
- Se não são, se parecem...
Ela dá às costas.
- Olha para mim. Olha... – taco-lhe levemente a tampinha da garrafa do uísque, ela se vira e sorri docemente – Olha... Tu não tens nada a temer.
- Nada. Nada. Somente tornar-me louca por ti.
- Eu te amo, querida. Amo-te muito. – beijo-a – Pensaste em me deixar?
- Sim. Todos os dias. Enceno. Fujo de mim.
- E não consegues.
- Não. Amo-te.
- Queres acreditar que eu também?
- Sim.
- Ao invés de dizer...
Calei-me e beijei-a por tudo que era face e respiração. Abracei-a ternamente. Prendi-a entre as mãos e desfiz a sua prisão têxtil. Ela preferiu apagar a luz...        


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