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“Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho que hoje eu passei batom vermelho”


A boca vermelha. Doce cor ressuscitada à Bela Adormecida do sexo. Está ela ficando velha e experiente em me deixar insone! Ao contrário das outras bocas encarnadas que ordenam aproximação, aquela boca afasta. É subvertida! E divertida ri da marca deixada por ela na minha bochecha. 
Corou essa com toda vontade dela. Da boca dela. Da palavra dela. Um desenho dela com a artística pesada daqueles lábios grosseiramente superiores a toda negação que eu lhe queira proferir... Prefiro-a! O vermelho pintou-a, tornou-a musa “alegre como dom” de sangue palpitado às nossas curvas tremidas dentro do vestido.
Deu corpo àquela carne de cor. Grudou óleo ao borrão entregue a sua nudez. Espalhou desespero e exaspero às finas arrugas dedicadas ao meu sabor. A pele minha ganha a cama da confissão dela “ao pé da boca”. Não há ouvidos senão para as promessas grunhidas daquela boca. Não há ouvido que mais se aguce senão para os desmandos daquela cor vermelha.
Desando... Desatando o laço. Dormir é uma peça de roupa que derrama em fios sem começo ou fim. Embolam-se no chão, fora do alcance do corpo, enquanto neste corpo ela costura energicamente com os dedos fios a boa-disposição da insônia. Princesa de beijo vermelho à outra princesa da cor de corpo... Ela conta a história decorando o quadro de pele de vermelho. Contamos declarações à cor do coração: feliz.


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