Pular para o conteúdo principal

Sobre sapiência acadêmica e disposição animalizada de se dizer o que pensa

Dentro de um sábado de sol lá fora, rindo à vontade do quão uma conhece a outra, resolvo nostalgiar um momento:
- Recordei-me quando estávamos entre amigos e, te apresentando a eles, disse que enfim havia eu encontrado a minha deidade...
- Ah! – pôs-se a gargalhar – Que vergonha... Assim retruquei: “de idade não, Larissa! De idade, não!”
- Haha... Mas não te acanhes, linda. Todos têm diversos significados para conhecer, seja por dia ou por uma vida...
- Eu percebi que depois deste meu fora, teus amigos ficaram de risinho sonso...
- Mas que – interrompi-a – a experiência de vida não te deixou abalar nem te rebaixar. Essa é a diferença entre a soma de títulos que eles se vangloriam ter e a experiência de tua idade que paga tributo ao teu singelo e sapiente modo de dar a volta por cima: finalizando com sorriso sobre as tuas falhas. Isso denota que não te preocupas e que assumes viver tais falhas humanamente. Isso é sabedoria...
- Tu tens a melhor forma de confortar meus cinquenta e poucos... Mesmo assim admiro demais e gostaria muito de ter tido uma formação como a tua. Não tenho mais tempo para isso, logo chego à minha vitória com o orgulho que tenho de ti, amor...
- Gosto deveras de ti, namorada. És uma mulher madura de olhar acerado e, me arrisco a dizer, arrogante. Até vejo teu desdém pela cultura como algo escolar... Algo que mescla inocência e elegância, concentrando em grau o imaculado poder que te dás ao luxo de afirmar qualquer barbaridade sem que ninguém se importe... Ao contrário de mim, cuja academia leitora não permite se jogar instintivamente às críticas. No mais, ao aprender sobre relacionamentos, descobri pelo nosso namoro que há sempre uma Eduarda para alguma Mônica...
- A diferença da música é que a mais velha é a aprendiz e a mais nova é a inteligente...
- Viu como a completamos ainda mais mostrando mais um lado.
- O melhor presente que tenho é um parecer teu.
- Aprende então que a forma mais leve de lidar com notícias ruins é nos esforçarmos para melhorar o futuro. Leiamos, amada. E deixemos a imaginação fluir.

Postagens mais visitadas deste blog

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…

Mas aquele subterfúgio de te olhar casando...

Resistir, sofrer por antecipação isolando-se numa máscara de pausa tchekhoviana ao estender-se no palco dos teus olhos. O espetáculo é meu, mas antes lamurie para o meu silêncio a vaga dessa boca a estreitar-se do muito que lhe choro dentro de mim.
É uma oração! Clamo à Resistência na súplica a fim de que esse deus se convença e se infernize mais com o meu pensamento nela... Mas mais do ínferno satiriza-se o erro de não lhe falar... Mas não... A Resistência é a sabotagem da razão; um deus dela mesma que desta cruz na abertura dos seus braços a me saudar, eu fujo.
Que de boba eu não tenho um mínimo provérbio, apenas resisto. Amigo-me confortável no resquício laborioso igualmente assistido à sua palavra... Um fenômeno desfragmentado na sua verve sofista que mais crio a nós duas, futuramente.
Resistência: ela não quer. Desistência: ela me procura. Sigo-a. Ela fecha a porta. Não me deixa entrar.
Tenho de continuar a resposta para os lados... Não é o mesmo lugar quando outra se adora sobre o…