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Mostrando postagens de Dezembro, 2016

Estive certa de que...

Na minha versão:
Estive certa de que era amor quando soube, definitivamente, que dividiria o protagonismo na sua vida. Ser o centro é a ambição do amor. Embora haja ciências como o Teocentrismo e o Antropocentrismo, não criaram, porém, uma corrente ideológica para o amor. Pois é querido que o sentimento amor – tão fundamental, aprende-se desde a infância – seja a prioridade absoluta. Então eu a amei no exato segundo em que percebi que não seria a sua primeira escolha.  Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, acompanhei-a de longe. Braços longos, alvos e hidratados, maquilagem leve de amanhecer, o rosto erguido, os olhos tão claros que pareciam cegos, amendoados, pungentes como a maturidade carregada nos seus cinquenta anos. Uma mulher magra e modelo à Christiane Torloni, à medida perfeita de catálogos de mulher-encarada-perfeita-capa-de-revista, sinônimo de feminismo e fortaleza. Chorando. Totalmente despedaçada. Agarrada à filha jovenzinha que partiria para outro…

Sobre São Paulo a sós IV

Compromisso era entre essas duas pessoas. Relacionamentos? Boa notícia: estavam livres de mensagens detetivescas para saber onde estava e a que horas voltaria. Decidiram mais tarde ir à casa dela para arrumarem um jantar com a rapidez de uma pizza pois logo sairiam para uma noite de MPB. Marisa Monte, Ana Carolina, Maria Gadú, tributo a Gonzaguinha, Nei Matogrosso no Anhembi... Quantos passos em São Paulo! – Refletiram sorrindo estrelas de Olavo Bilac ao ler a programação na Folha. Optaram estar e espiar à margem de uma música e outra. Foram se arrumando. O préstimo das cores adornavam o riso frouxo de batom vermelho. Dos lábios dela se assoviava Elis Regina. Outra interpretação para o “atrás da porta”, sendo o assovio uma escusa para atrair e dar o bote. Frente ao espelho, a miudeza daquele corpo era pingada por um short, uma camiseta desbotada de banda, pingentes simbólicos de paz e maquiagem assombreada. Um conjunto de boneca, deveras, que descarta os preceitos e os preconceitos d…

Sobre São Paulo a sós III

- Nossa! Se aquele dissílabo sorridente gerou tal argumento dela, quem ousaria entender? Apenas sentiria o começo de uma música que faria um castelo erguer-se na sofreguidão de mil venturas (previstas). *** Caminharam sobre a extensão de diversos assuntos. O Ibirapuera não cometeria com esmero a volta das horas como a haste horizontal do sorriso amigável da conversa. - Sabia que – olhava para o minúsculo relógio de pulso – já nos conhecemos há três horas? - Será que é fácil contar os sorrisos mostrados em cento e oitenta e cinco minutos? – Indagou ela. - Quando nos vestimos com o nosso melhor, a obra é um cálculo aberto da Eternidade. - Conceito: sorria sempre. – Ordenou a pequena. - A fantasia é um clássico significado. - É o que cabe no conceito. - E diversa. O que sabe? - Você tem poesia. - Descrita, ordinária e métrica.  Não houve tarde mais esquecida em São Paulo. Pinacoteca, Avenida Paulista, café na Casa das Rosas. A pequena paulistana explicava desde o concreto dos prédios à …

Sobre São Paulo a sós II

- Esta manhã colaborou com você. Verdade? – Perguntou a ela. Ela suspira resultando aquele risinho final malicioso. - Passei toda noite na Virada Cultural e amanheci com as buzinas da Brigadeiro. Fingi estar com amnésia e ainda não voltei para casa... Nem fui ao trabalho. Até estou mascando chiclete para dar o efeito de limpeza dental. Olhe. – ela bafora lentamente próxima a boca da pessoa ao seu lado. – Disfarça bem, não é? - Aroma de tutti-frutti. – respondeu – Tem um para mim? - Ah, aham! – ela abre a bolsinha tira-colo e acha um envelope de gomas em tabletes. – Pode pegar... à vontade! – frisou. E esta adverbial vontade foi mastigada junto com o intuito de saber mais sobre a menina, aliás, moça, aliás, mulher jovem que confiava suas artimanhas jocosas. A esguia matéria contida na sua figurada breve idade atraia os olhos daquela pessoa ao seu lado, que a assiste esperando aquilo que o cinema americano tem de melhor. Tomou coragem: - Eu ainda não acompanhei a Virada este ano. - Pô,…

Sobre São Paulo a sós

- Não, eu sou solteira. Imediatamente sentiu que lhe fora dada a melhor notícia. Quem sabe a amizade, nesta hora, seja percebida por dentro? – Felizmente a megalópole não deixa a pessoa só. – pensou assim que a conheceu. E ela? Sua idade, tal qual o tamanho “p” de suas vestes, traduzia um formato balzaquiano nas cruzadas pernas de Aline, de Iturrusgarai. Caminhava pelo Ibirapuera alternando a apatia, ora na rósea bola do chiclete, ora naqueles passos que indagam o porquê de nascermos compromissados com o sustento. Apoderou-se do banco do parque estirando suas pernas num aviso de pouca amizade... Não notou que ao seu lado havia alguém que bem a observava. - Sol do meio-dia. – disse ela na pretensão de ser porta-voz de suas pernas abafadas pela meia-calça acrílica. No princípio, quem a reparava receou responder com algum monossílabo grunhido. Talvez ela estivesse pensando alto ou, na pior das hipóteses, realmente falava privadamente consigo e cortaria de vez dizendo “não estou falando …