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Estive certa de que...

"É o ciclo sem fim que nos guiará, a dor e a emoção, pela fé e o amor até encontrar o nosso caminho, neste ciclo, neste ciclo sem fim..."


Na minha versão:

Estive certa de que era amor quando soube, definitivamente, que dividiria o protagonismo na sua vida. Ser o centro é a ambição do amor. Embora haja ciências como o Teocentrismo e o Antropocentrismo, não criaram, porém, uma corrente ideológica para o amor. Pois é querido que o sentimento amor – tão fundamental, aprende-se desde a infância – seja a prioridade absoluta. Então eu a amei no exato segundo em que percebi que não seria a sua primeira escolha. 
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, acompanhei-a de longe. Braços longos, alvos e hidratados, maquilagem leve de amanhecer, o rosto erguido, os olhos tão claros que pareciam cegos, amendoados, pungentes como a maturidade carregada nos seus cinquenta anos. Uma mulher magra e modelo à Christiane Torloni, à medida perfeita de catálogos de mulher-encarada-perfeita-capa-de-revista, sinônimo de feminismo e fortaleza. Chorando. Totalmente despedaçada. Agarrada à filha jovenzinha que partiria para outro país. Era o choro mais belo de assistir. O amor mais belo de assistir. Estive certa de me manter a deriva sabendo que o seu sentimento não podia ser parecido com ninguém que ela ousasse sentir. Isso fazia com que estivesse certa de amá-la assim mesmo. E por isso mesmo, ver aquela mulher machucada, totalmente vulnerável à insegurança de um suposto esquecimento da filha que substituiu o sonho pelas asas, da saudade que nascia prematura, como fosse ontem, ela nascia prematura!, da perda do seu todo pedaço, fez-me amá-la real e instantaneamente. Eu sabia que por qualquer palavra daquela adolescente que, por agora, cabia no colo nostálgico da mãe, eu seria abandonada, desmerecida. Era daquela adolescente, acima de todas as coisas, todas as pessoas. Entre minhas crises hepáticas e o dia mais feliz dela, qual seria a escolha da presença. A mão de quem ela estaria a segurar. Não seria a minha. Eu estaria pronta a deixá-la ir por ela, sem questionar. Estava apta a cada choro, queda, vitória, melancolia. Porque eu sabia que ela iria, mesmo quando aquele projeto de adulto dobrasse de tamanho e fosse maior que sua própria mãe. Mesmo quando eu estivesse a duas quadras e ela distante a milhares de quilômetros.  
Os passos seriam na direção dela. Estive certa de que era amor quando entendi porque o “amorcentrismo” não foi criado por nenhuma mente brilhante, pois já tinha o nome claro e irrefutável: chama-se Filha! Uma mulher capaz de em pleno lugar público se entregar daquela maneira, com destemida vergonha, a dor de ver uma filha ir embora era a maior certeza de amor. Abracei calada sua menina enquanto esta murmurava no meu ouvido para eu cuidar de sua mãezinha e que torcia pela nossa felicidade. Atravessou o portão de embarque. Então olhei para a mulher enquanto ela caminhava ao meu encontro e não tentava enxugar as lágrimas que lavavam sua perfeita maquiagem. Tão ferida, tão digna de amor, tão menos minha.

Na versão dela:

Estive certa de que era amor quando ela não disse nada. Qualquer palavra dela naquele momento talvez a repelisse para sempre da minha vida. Mas ela não disse nada. Fez o silêncio que eu precisava.
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, eu estava me despedindo da minha filha que optou pela nacionalidade alemã e ia morar lá com seus planos de recém concluinte do Ensino Médio. A minha namorada nos acompanhou, mas observou tudo a pouca distância. Enquanto eu sentia a dor mais cruel de uma mãe, ela estava lá, mas não quis roubar para si o protagonismo do meu sofrimento. Não quis ser o consolo que eu jamais seria capaz de ter. Ela me olhava como nunca. Era um olhar avassalador. Não pedi nada a ela. Não foi preciso. É uma coisa que só nós, mulheres, temos e compartilhamos sem ao menos precisar parir, o sentimento de mãe. Ela abraçou minha filha com este carinho. Ela me deu a única coisa que eu precisava: o respeito ao meu sentimento, o maior do mundo.   
Após minha filha atravessar o portão de embarque, lembro-me de ter segurado forte a mão dela enquanto caminhávamos pelo saguão do aeroporto em direção ao carro. Lembro-me que segurei tão forte que estive certa de que a machucava. Mesmo assim, ela não disse nada. Continuou segurando capaz de suportar minha dor interna que involuntariamente transmitia aos ossos dela, da minha namorada. Estive certa de que era amor naquele momento quando ela não quis ser o que não poderia. Quando não cabia ninguém na minha solidão, e ela me assistiu perder. Quando não diminuiu meus sentimentos de mãe, e tampouco usou a ocasião para se fortalecer como centro da minha vida. Uma mulher forte, centrada, real é minha namorada. E tão jovem... Ali eu passei a ser tão mais dela, tão menos minha.

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