sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós

A arte é um organismo livre...

- Não, eu sou solteira.
Imediatamente sentiu que lhe fora dada a melhor notícia. Quem sabe a amizade, nesta hora, seja percebida por dentro? – Felizmente a megalópole não deixa a pessoa só. – pensou assim que a conheceu.
E ela? Sua idade, tal qual o tamanho “p” de suas vestes, traduzia um formato balzaquiano nas cruzadas pernas de Aline, de Iturrusgarai. Caminhava pelo Ibirapuera alternando a apatia, ora na rósea bola do chiclete, ora naqueles passos que indagam o porquê de nascermos compromissados com o sustento. Apoderou-se do banco do parque estirando suas pernas num aviso de pouca amizade... Não notou que ao seu lado havia alguém que bem a observava.
- Sol do meio-dia. – disse ela na pretensão de ser porta-voz de suas pernas abafadas pela meia-calça acrílica. No princípio, quem a reparava receou responder com algum monossílabo grunhido. Talvez ela estivesse pensando alto ou, na pior das hipóteses, realmente falava privadamente consigo e cortaria de vez dizendo “não estou falando com você”, ou... Até que ela se virou para a pessoa ao lado e sorriu um “e aí?!”
O fato é que o sorriso, mesmo sem a graça dada ao vocábulo, vem a ser o divisor de águas entre o encontro de duas pessoas desconhecidas. Num cantinho tímido da boca concordaram logo os primeiros cumprimentos e as trocas ensaiadas de conversa sobre o clima de São Paulo. Entretanto, ficar no “vai ou não vai chover” fá-la-ia desistir do contato.