sexta-feira, 25 de março de 2016

Deixo-o na caixa

Love brings such misery and pain
I guess I'll never be the same
Since I fell for you...
 
Enquanto as crianças brincam, são os seus saltos que sobem as escadas ditando ao coração as nervosas batidas com passos do seu vestido aveludado...
Então percorro os corredores. Abro todas as salas com a esperança que ela esteja n’alguma... Agora minha pena e minha nicotina procrastinam... Ela sempre me diz para fazer as coisas do meu jeito – que assim eu a alegro.
Quando cheguei hoje, ela passou por mim com seu bom dia... Prontamente lembrei-me dela tão linda naquela comemoração do ano passado, reclamando, inclusive, que o sol atrapalhava as luzes da festa. E, ajudando a desarrumar, perguntei sobre o enfeite de Natal. – Deixe-o na caixa. Assim, seja o material ou o meu sentimento, é o que faço: Deixo-o na caixa! Tão somente deixo-o na caixa!
Na minha carta tudo é igual e escondido. Esforço o oposto, visto que ela me conhece. Viro-me para o lado, não quero que nada nela me deite o olhar! No entanto, ao lembrar que deixei meu perfume na sua cadeira, eu disse “até logo” a ela me deixando voltar para casa com seu sorriso nos meus olhos, mas que logo deixo-o em outro corpo. Nunca no seu!   
Qualquer falso pretexto de justo sentido para que dela eu me aproxime! Permito-me chorar nos dias que não pude encontrá-la. Acredito que a amo...
Enfim, chegará a hora de preparar mais um Natal. Sobre o enfeite: busque-o na caixa. Mas, mais uma vez, meu sentimento por ela esmorecerá disfarçado e racionalmente enfeitado que deixo-o na caixa... Mais um ano, deixo-o na caixa... Tão somente, deixo-o na caixa...

sexta-feira, 18 de março de 2016

A escrava, então, não era a Isaura, nem a Poesia...

Mario e eu nesta última semana:
Também tenho uma parábola. Mario diferenciou-se com Cristo. No meu caso, entre o médico e mim existe uma diferença que estabeleço: “Seu doutô” diz: esta é a verdade. E segundo a exatidão, talvez tenha ele uma mea-razão. Digo-lhe, porém: meu corpo é a minha verdade. E tenho razão. Vamos à alegoria!
Adão teve de sua costela retirada por Hashem um ser que os homens proclamavam a coisa mais perfeita da criação: Eva. Invejoso e bocudo, o primeiro homem resolveu criar também. E como não sabia o porquê d’um bisturi para uma arte “tão interna quanto extraordinária”, tirou-lhe do próprio sangue escorrido (ou seria do próprio hemograma?) um outro ser. Era também – o primeiro plágio realístico da história – uma mulher. Humana, forte, peitos e músculos, como a letra de Caetano: linda, mais que demais!
Para dar modelo aos novos fitoterápicos, Adão, envaidecido, colocou essa mulher nua, sanguínea, logo, eterna, nos fins da Tessália. Depois que Evagrius nomeou os sete pecados capitais, estes rumaram para visitar a tal notória e maravilhosa nudez da nova criatura. Festejaram com ela, comendo e aproveitando todo frescor do luxo. Enraiveceram-se entre si. A soberba aconselhou-a sobre auto-estima, ignorando diagnósticos. E todos viraram a manhã no divã preguiçoso da ressaca... Ela despertou e envergonhou-se. Adão, assim, “colocou-lhe uma primeira coberta”: a folha de boldo.   
Caim, para forçar a sobra do rebanho de Abel, envolveu a mulher com manto em forma de faixas alvíssimas. A mais conservante indumentária. As novas gerações não lhe tiravam as vestes já existentes, mas ainda mais depositavam sobre ela novos modos de se cuidar. Os turcos, enfim, colocaram-lhe gesso. Os gregos a superstição. Qualquer um lhe dava uma rama de arnica ou uma folha de babosa. Adornavam-na de anis-estrelado conforme a previsão d’um mapa astrológico. A natureza condecorou-a de bactérias. Os indígenas, o curandeirismo; os semitas, a oração; os chineses, a meditação; os tudors bebiam sua urina...
Vindo de séculos depois de séculos, um curioso genial nascido a 1872 passou frente ao tal monte. Admirou-se por encontrar o tal “Guarniscar” de plantas, aromas, fumaças, rezas, auto-ajuda e sei lá mais que! Mas o curioso quis ver o monte e deu-lhe um chute de 25 anos naquela extravagante e heterogênea vitrine de poções. Tal qual a bruxaria, tudo desapareceu num encanto. E o garoto bigodudo descobriu a mulher nua, angustiada, ignara, ignorada, virulenta, falando crendices, desconhecendo a função dos seus órgãos, selvagem, áspera, cortada, ingênua, ad-mortem, e incrivelmente suja! 
A escrava da Tessália chamava-se Saúde.
O curioso genial era Oswaldo Cruz.
Essa mulher escandalosamente nua é que a ciência e os desesperados se puseram a adorar (muitas vezes dosando mais otimismo que inteligência).

sexta-feira, 11 de março de 2016

Para me conhecer, tive de amá-la

Podemos arranjar um tempo para sermos mais que amigas? De frente para a porta eu converso com o pessoal, porque atento a cada movimento desta que pode trazê-la, dentre os sorrisos possíveis, sorrindo para mim... Mas o seu sorriso possível é para todos, nunca é apenas para mim; e você não apareceu...
Faço deste nunca um lugar seguro para nós duas! Entretanto, nem mesmo uma catarse isso nos é. Depois do expediente, amor, eu tenho bebido. Respondo aos recados da minha namorada forjando um engano ao escrever para você. Desculpo-me do “te amo” enviado, e retorno pela manhã juntando conhecimento com algumas (de) nossas palavras idiotas que me fizeram feliz na hora de mimá-la. É perigoso quando todos funcionam ao nosso redor... Faz tempo que eu tenho calado em cada abraço: Podemos ficar a sós?
Quando o nosso tempo será para usufruirmos mais que amigas? Mais que amigas!
Eu não tenho medo, tampouco vergonha. Contudo, fico na minha e evito acreditando que a minha culpa pode desesperá-la, matá-la... Se você não iniciar agora, ninguém mais a amará como eu!
Então, precisamos encontrar o tal tempo para aprontarmos logo essa besteira juntas! Mais que amigas!
Isso pode piorar... Eu quero tocá-la! Mas como todo o gado de mulheres domesticadas, você vai para a sua casa servir o jantar ao marido... Isso dói demais porque tive de amá-la para me conhecer. Amá-la num tempo que nos permite ser apenas amigas... Apenas amigas...

Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa...

sexta-feira, 4 de março de 2016

Frente ao inverno do bom café (cena noturna)

Ah, e a lisboeta ali, em outro vácuo temporário de descontentamento, erguendo para si um mundo que se movia romanticamente, requintadamente e um tanto tragicamente comigo sentada à sua frente... Eu tanto a observava na personagem trágica que se impusera, como a mim mesma desempenhando o papel de uma atriz cujo termo balzaquiano se adere ao meu perfil dissolvido n’algumas dobras adiposas de pele, mas capaz de atuar a menor deixa em qualquer momento. Doutro lado, enquanto isso, as mais jovens amarguradamente roem as unhas tingidas nos bastidores.
“Vem cá!”, ordenou, e eu atendi. Na sua lusitana fosca pretensão surgiu-lhe novamente a trágica e jovem acossada sensação de perda. Então me dei conta da triste fecundidade do mundo e do realismo esperançoso que engana a si mesmo. “Quero um beijo teu!”, fixou ela, Joana, tornando-se um animal desajeitado e decomposto pela obsessão.
Não! Eu não lhe tinha sequer o mais fraco movimento de rejeição. Suas mãos tombaram sobre minhas coxas enquanto eu continha o instintivo e brusco ataque de fuga... Isto deixou no crepúsculo um antagonismo invisível e defensivo, expandido em constantes ondas cumulativas que levavam a mim e a ela pelo Tejo.