sexta-feira, 24 de junho de 2016

Ao abrir os olhos

Ao abrir os olhos já percebemos em nosso redor as sólidas experiências vestidas de guarda a nos transmitir a mais deslavada mentira sobre o verbo. Que cada ação corresponde ao seu ato com objetivo, o mesmo objetivo alcançado de Dostoiévski que principia a morte.
Tentam-nos sentar na carteira a desfrutar como terceira pessoa os casos de poesia passados nos livrinhos; mas que depois, no próprio corpo, os adultos nos convencem da nossa incapacidade de ser verdadeiros. Castigam-nos para este fim. O castigo coíbe a evolução. Logo, chegamos a crescer escusos da permissão, saboreando luas de queijo, chegando ao sétimo céu com tapete voador de borboletas e tornando-nos o próprio Epaminondas que trata o diagnóstico drummondiano incurável para o nosso sério caso de poesia.
Mesmo assim vamos nos desabsorvendo com a brevidade da sobrevivência. Existe o capital do tempo na promiscuidade das ideias. O paradoxo de viver num mundo de fronteiras e identidades fluidas. De nos informarmos no mesmo segundo sobre um atentado e sobre um ato beneficente no mundo. Com a brevidade da sobrevivência – esta sólida experiência – finalizamo-nos em corpo. A vida, lição de casa segundo Quintana, deixa as questões mais difíceis para o tempo, não mais delirando o verbo como no princípio... Adoecemos da razão de gostar do verbo e da palavra presos. Finalizamo-nos antes durante crianças de castigo e hoje endurecidos de tumor capital, sem derreter o tempo em poema e acreditando que a felicidade é um lago parado.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O registro do poema

Agora, o próximo desafio: fotografar o interior do sempre... Foto: Larissa Pujol.

Sexta-feira, antes de ir ao colégio, tentei fotografar um poema, o mesmo poema que desafiou Manoel de Barros nas figuras anímicas do silêncio. Despertei um tanto depois das suas quatro da manhã, e diferente da festa que ele voltava, eu me preparava para a semana que resta... Ainda não se ouviam ruídos nem murmúrios sorvidos do chimarrão na minha vila. 
O outono estava parindo friamente mais um dia... 
Ia pelo céu o carregador desta foto, era o mesmo silêncio que agora carregava as nuvens bêbadas. Nuvens que tropeçavam com os passos tontos do breu, esbarrando nas portas e nas frestas das janelas com pálpebras valsadas querendo pregar-se como lesma - mais à existência do que ao começo petrificado do dia. Este mendigava levantar-se olhando do alto com o mesmo azul-perdão... 
Era a mesma paisagem velha desabando sobre o teto do sempre. Mas o que se fotografa no interior do sempre? 
Logo mais, esses braços de nuvens colocariam a sua calça, e seguiriam com Manoel e Maiakovski sendo a poesia a noiva a casar-se somente de véu... 
O dia - fotografado - amanheceu legal...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Indispensável assim

Foto: Larissa Pujol.
 
E o café segue esfriando durante a névoa quente do por que... Enfim conclui a maquiagem. A fuga é a mais longa das respostas, que chovem também embaçando a janela. Nem a manhã tirou a nossa fotografia da cinza, porém o teu abraço ao dizer que espera por mim me faz ter o cuidado que isto não é mal...
Antes de dormir adquiri algumas pendências nas estórias que contigo adormeço. Perdi um quarto de hora nessa bossa que tu passas a ter cara de passado – embora eu tenha sequência de mim neste ninho, embora eu tenha aqui os dias que irão surgir, embora num destes dias eu não dure até o fim... Então ao dormires depois de mim me faz ter o cuidado que isto voa para a minha graça – a graça de mais um dia ao teu lado – ah, tens no abraço a minha melhor morada dos dias que se despedem da vida...
Do trabalho à porta, enfim, uma verdade que no teu beijo cesso a luta. De mãos comigo até a cozinha, tu me entregas um pedaço de bolo “receita da família” e uma xícara de chá ainda esfumaçando a miragem... Embora a casa desmoronasse neste momento, eu, te confesso, não perceberia porque estou na melhor morada desse abraço prendido e cuidadoso do meu voo para a minha graça...

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O capítulo das bolsas

Sábado, e como de costume, passei a noite anterior no apartamento da minha cônjuge. Entre os amanheceres que preparam o chimarrão, o café e as roupas para lavar, combinávamos por onde passearíamos e se sentíamos falta de algo na despensa. Acertamos de ir ao shopping próximo à residência logo após o almoço.
Arrumávamos, compartilhávamos maquiagem e vaidade. Minha pequena, muito bela enaltecia sobre o salto agulha a gala casual do jeans; eu, por outro lado, preferi me colocar na sombra de um sobretudo preto - combinado com o manto cor de creme escorrido pelo tronco - que dissimulava a calça de alfaiataria, ainda andando com todo o sorriso que me conforta um Oxford feminino... Ah, além disso... Eu já estava pronta enquanto ela concluía, já vestida e carregada de uma bolsa vermelha no ombro, a sua maquiagem.
Eu esperava por ela na sala. Relia o jornal com um pouco mais de crença. Ela se aproximou elétrica, radiante, verificando de impulso se não havia esquecido algo. E esqueceu: voltou num pé ao nosso quarto para buscar a carteira; e retornou para a sala no mesmo pé, colocando a carteira dentro da bolsa verde que estava pendurada no encosto de uma das cadeiras ali sitiada. Pegou a bolsa verde. A bolsa verde, então, se avizinhou com a bolsa vermelha no mesmo ombro da minha amada! Observei a ação, mas, como toda esposa submissa, me mantive calada fantasiando para o meu julgamento o destino que ela daria a qualquer uma daquelas bolsas – quem sabe ela levaria para um conserto, quem sabe ela faria uma troca na loja...
Assim percorremos todo aquele aglomerado comercial visualizando muito e comprando nada, embora nos divertindo com o tempo entre um assunto e um mimo. Cansamos os corpos, mas ela ainda se dispunha divertida com as duas bolsas penduradas em seu ombro... Logo mais, durante todas as ruas, os semáforos, as calçadas, voltamos com gostosos paladares de sorrisos, tornando aquele detalhe que eu notara um caso mínimo perante a tamanha beleza da risada dela. Entramos em casa e eis que ouço...
- LARISSA! POR QUE TU NÃO ME AVISASTE QUE EU ESTAVA COM DUAS BOLSAS?
... o estopim para a próxima guerra dos cem anos...

(o relato acima foi escrito – e gargalhado – durante o meu abrigo, exilado na casa fugaz de uma amiga)