sexta-feira, 29 de julho de 2016

Sincronia

E no cigarro que acendo para expirar lembrança, te trago – em vício – comigo... Assim que a promessa curta se quebra anuviada, te trago – em vício – comigo... Quando aquela mulher se esvai da minha boca rápida-inalcançável, ou quando tenho da sua foto o melhor ninho. Envolvida num abraço fantasma de nicotina, te trago – em vício – comigo...
Quando resolvo despir os sentimentos escusos, te deixo – em cinzas perdidas – pelo meu caminho... Assim que deles recebo o colapso da minha existência, te deixo – em cinzas perdidas – pelo meu caminho.
De mim mesma os passos não serão encontrados; pois o vento profundo já derrotou os teus desmanches carbonizados... Eu te deixo assoprando lábios de beijo – em nuvens perdidas – pelo meu destino...
A covardia me faz traduzir a namorada numa simples inspiração: te expiro – em resignado destino – pelo meu vício. Toda tua lembrança denigre a boa-noite: em lençóis de nicotina te expiro – em resignado destino – pelo meu vício...
No fim das contas, querida, esta minha inútil expectativa ridicularizada à invisibilidade expirada, pela atmosfera que te vejo ir embora, retorna exasperada: te trago – em vício – comigo... 

Why does it always have
To end with humiliation for me?
[...]
I'm in a love with the girl, I am...
Who's smaller and stronger and brave
Than I'll ever be...
(Yoñlu)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Crônica-imagem de Fidelidade

Cotidiano que me faz sorrir até perder a pose...
Já contei os homens que fui para a cama. Daqueles que bastava ordenar "leve", e com engenho leve me conduziam dispensando qualquer bebida. Contei também os homens que fiz chorar. Sorrio agora e penso, melhor ainda, que contei única a mulher que gosta de me fotografar. Essa sim, sei que conquistei...
Minha namorada me despe para os outros e às outras, esquece-se do zoom e vem se aproximando cada vez mais da minha pele. A única câmera a criar de mim sua Lilly Braun, me comendo com os olhos, eternizando o desejo alheio. Zombando da imaginação e do tesão alheio... Eu a conto única. Ela conta vantagem sobre todos os demais.
De lentes para conseguir ler, namorada que zela pelo meu corpo, esconde meus segredos efêmeros de henna, ameniza meus defeitos, receita-me apetitosa com a fôrma da minha silhueta que não a ilude.
Mulher de breves cabelos cinzas desvendando as minhas obscenidades disciplinadas de professora, desde os meus pés, minhas pernas, minhas saboneteiras, meu pescoço... Revela quando tudo o que inunda vem de dentro! Disfarça com sombra a rigidez dos meus seios recém-saídos das suas mãos! Namorada com câmera que enfatiza com luz as próprias partes carentes dela, as que ainda não tocou hoje...
Naturalidade dispensa correções. Ama-me ela sem filtros na minha pele branquinha, sem máculas e marcas de bronzeamento que envelhecem. Ela não perde o instante da minha boca entreaberta, da mão displicentemente jogada, do cabelo ruivo como véu... Escurece minhas pernas a esperá-la, clareia minhas costas com liberdade. Ela se fez única dentre todos os muitos! E, soberba, faz esses muitos que foram e os que desejam se moerem e triturarem seus corações e inflarem fantasias impossíveis comigo... Minha dona solitária do make-off com gozo! Desdenha minha vaidade e é insolente com minhas poses. Namorada-além! Pega-me desavisada, planejando aula, molhada, desprevenida. Capta o arrepio tateando meus ângulos numa óptica sua! Rima imagem com minha legenda... São palavras dela a serem colhidas em pixels para compor poesia. Possui-me de novo a cada par de olhos castanhos dela a me admirar. Ela me grafa nas retinas mecânicas ganhando todas as páginas do meu álbum. Fotografa-me, pois, a fidelidade.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Silêncio em linha reta

Um pedido que amo à Quintana. Sem telhado, sem risco. Num céu sussurrado me declaro amando baixinho – minha baixinha – dentro da minha casa e dos meus tecidos.
Os pássaros somente em paz eu os deixo nos códigos de sua voz, que a mim deixam-me só nesse estômago seu para levar uma vida a me devorar como Cazuza amou num segundo.
Não há devagar, nem amada. Há um conjunto de breves, de ainda, de limite e de múltiplo. O paradoxo este que querer! Antes suave que tudo... Suave, consoante Drummond, como um anjo torto que vive nas sombras. Mas ao invés de dizer “vai...”, diz “vem...”
Por favor, sem perguntas sobre por que haveríamos de dançar. Se não, arrisco-te entre os meus braços provando o perigo de colocar o caos em movimento! Logo exprimo do meu corpo o nascer do sol mais lindo apenas para que aprecies despertar todo dia em mim...
Hum, namorada... Eu não ladro. Mas à Quintana te mordo baixinho rezando para um dia te encontrares e perceberes que o que falta em ti sou eu... Por enquanto desenho no vidro do banheiro embaçado um coração com nossas iniciais. Desenho conformada em ver um amor platônico se dissolver em cálidas lágrimas...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

De uma história

Com o estado d’espírito já lúcido para morrer, um caro esquecido busca a lealdade na tabacaria de Pessoa... Não nos apresentamos, fugimos da característica humana da palavra para alegrar o desconhecido que não nos alcunha.
O caro, esquecido de seu presente anoso, já revela seu infinito sensível... Compartilha ideias, trabalha seus fatos hoje desfalecendo na sua lenta linguagem afogada os pigarros por ser homem. Aproveitei-o ouvindo “a voz de Deus num poço tapado” e entendi que a ideia de felicidade é ir direto para o nada! Ainda que não haja escolha física ou honesta, sempre transitarei na rua que coloca defronte da outra a verdade e a realidade.
O caro esquecido pelos filhos também comentou que enfim fica só num canto para pensar e desvincular-se da pressa da ordem existencial. Suspirei o cigarro numa condição eterna de ser gente... E ele corrompeu a saudade num lapso esfumaçado de creditar no abandono uma melodia instrumental do vento que lhe acha a pele.
Então metade, um quarto, um sexto, um inteiro. Todas as fases são opacas. Fora da cama, a nossa verdade apenas tem sonhado para si mesmo. No entanto, tentamos conquistar o mundo sob a realidade. Ao menos, fumamos com tanta verdade extirpando do vício a acolhida das nossas filosofias. Na mesma tabacaria o caro esquecido e eu naquela mesa à Nelson Gonçalves, defronte “sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície.” Assim para que não haja metafísica que conheça a esperança de um caro esquecido. Dada a hora, tive de acenar-lhe um adeus. E ele sorriu leal ao poema de Pessoa com o mesmo universo sem ideal e vencido, “como se soubesse a verdade”...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Crônica epistolar: Um beijo no escuro

Foto: Larissa Pujol

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

                         Florbela Espanca

O fato de dizer que te amo é para mim um sofrimento, uma traição comigo mesma. Não apenas por ti, pelo amor que tu sentes por aquele outro. Uma traição minha.
Ah, como poderia eu te contar que te amo, se prometi a mim mesma este silêncio? É como se o medo fosse a cláusula presente no pacto comigo mesma, logo sucumbindo a conclusão que a esperança é um empréstimo que a felicidade nos faz.
Agora já escrevi, já me abri. O medo que eu tinha, eu não tenho mais. Não tenho! Dá-me a chance de te mostrar, minha querida. De te fazer esquecer, entre outras coisas, esse indivíduo que, mesmo vivendo sob o teu mesmo teto, nunca teve olhos para ti. Desculpa se sou egoísta, mas é que estou precisando ser para, enfim, te provar que meu amor é verdadeiro.
Desculpa... Aliás, também não tenho que te ficar pedindo desculpas! Amar é jamais ter que pedir perdão, como dizia o velho O’Neal. Eu não quero te pedir nada, quero te dar. Oferecer-te o que tem de mais puro em mim. Quero te oferece alguma coisa, muita coisa, porque dentro do meu coração sozinho apenas existe o dom de ser teu.
Eu te amo.
L.P.