sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Estive certa de que...

"É o ciclo sem fim que nos guiará, a dor e a emoção, pela fé e o amor até encontrar o nosso caminho, neste ciclo, neste ciclo sem fim..."


Na minha versão:

Estive certa de que era amor quando soube, definitivamente, que dividiria o protagonismo na sua vida. Ser o centro é a ambição do amor. Embora haja ciências como o Teocentrismo e o Antropocentrismo, não criaram, porém, uma corrente ideológica para o amor. Pois é querido que o sentimento amor – tão fundamental, aprende-se desde a infância – seja a prioridade absoluta. Então eu a amei no exato segundo em que percebi que não seria a sua primeira escolha. 
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, acompanhei-a de longe. Braços longos, alvos e hidratados, maquilagem leve de amanhecer, o rosto erguido, os olhos tão claros que pareciam cegos, amendoados, pungentes como a maturidade carregada nos seus cinquenta anos. Uma mulher magra e modelo à Christiane Torloni, à medida perfeita de catálogos de mulher-encarada-perfeita-capa-de-revista, sinônimo de feminismo e fortaleza. Chorando. Totalmente despedaçada. Agarrada à filha jovenzinha que partiria para outro país. Era o choro mais belo de assistir. O amor mais belo de assistir. Estive certa de me manter a deriva sabendo que o seu sentimento não podia ser parecido com ninguém que ela ousasse sentir. Isso fazia com que estivesse certa de amá-la assim mesmo. E por isso mesmo, ver aquela mulher machucada, totalmente vulnerável à insegurança de um suposto esquecimento da filha que substituiu o sonho pelas asas, da saudade que nascia prematura, como fosse ontem, ela nascia prematura!, da perda do seu todo pedaço, fez-me amá-la real e instantaneamente. Eu sabia que por qualquer palavra daquela adolescente que, por agora, cabia no colo nostálgico da mãe, eu seria abandonada, desmerecida. Era daquela adolescente, acima de todas as coisas, todas as pessoas. Entre minhas crises hepáticas e o dia mais feliz dela, qual seria a escolha da presença. A mão de quem ela estaria a segurar. Não seria a minha. Eu estaria pronta a deixá-la ir por ela, sem questionar. Estava apta a cada choro, queda, vitória, melancolia. Porque eu sabia que ela iria, mesmo quando aquele projeto de adulto dobrasse de tamanho e fosse maior que sua própria mãe. Mesmo quando eu estivesse a duas quadras e ela distante a milhares de quilômetros.  
Os passos seriam na direção dela. Estive certa de que era amor quando entendi porque o “amorcentrismo” não foi criado por nenhuma mente brilhante, pois já tinha o nome claro e irrefutável: chama-se Filha! Uma mulher capaz de em pleno lugar público se entregar daquela maneira, com destemida vergonha, a dor de ver uma filha ir embora era a maior certeza de amor. Abracei calada sua menina enquanto esta murmurava no meu ouvido para eu cuidar de sua mãezinha e que torcia pela nossa felicidade. Atravessou o portão de embarque. Então olhei para a mulher enquanto ela caminhava ao meu encontro e não tentava enxugar as lágrimas que lavavam sua perfeita maquiagem. Tão ferida, tão digna de amor, tão menos minha.

Na versão dela:

Estive certa de que era amor quando ela não disse nada. Qualquer palavra dela naquele momento talvez a repelisse para sempre da minha vida. Mas ela não disse nada. Fez o silêncio que eu precisava.
Dezembro passado, no aeroporto internacional Salgado Filho, eu estava me despedindo da minha filha que optou pela nacionalidade alemã e ia morar lá com seus planos de recém concluinte do Ensino Médio. A minha namorada nos acompanhou, mas observou tudo a pouca distância. Enquanto eu sentia a dor mais cruel de uma mãe, ela estava lá, mas não quis roubar para si o protagonismo do meu sofrimento. Não quis ser o consolo que eu jamais seria capaz de ter. Ela me olhava como nunca. Era um olhar avassalador. Não pedi nada a ela. Não foi preciso. É uma coisa que só nós, mulheres, temos e compartilhamos sem ao menos precisar parir, o sentimento de mãe. Ela abraçou minha filha com este carinho. Ela me deu a única coisa que eu precisava: o respeito ao meu sentimento, o maior do mundo.   
Após minha filha atravessar o portão de embarque, lembro-me de ter segurado forte a mão dela enquanto caminhávamos pelo saguão do aeroporto em direção ao carro. Lembro-me que segurei tão forte que estive certa de que a machucava. Mesmo assim, ela não disse nada. Continuou segurando capaz de suportar minha dor interna que involuntariamente transmitia aos ossos dela, da minha namorada. Estive certa de que era amor naquele momento quando ela não quis ser o que não poderia. Quando não cabia ninguém na minha solidão, e ela me assistiu perder. Quando não diminuiu meus sentimentos de mãe, e tampouco usou a ocasião para se fortalecer como centro da minha vida. Uma mulher forte, centrada, real é minha namorada. E tão jovem... Ali eu passei a ser tão mais dela, tão menos minha.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós IV

Compromisso era entre essas duas pessoas. Relacionamentos? Boa notícia: estavam livres de mensagens detetivescas para saber onde estava e a que horas voltaria. Decidiram mais tarde ir à casa dela para arrumarem um jantar com a rapidez de uma pizza pois logo sairiam para uma noite de MPB.
Marisa Monte, Ana Carolina, Maria Gadú, tributo a Gonzaguinha, Nei Matogrosso no Anhembi... Quantos passos em São Paulo! – Refletiram sorrindo estrelas de Olavo Bilac ao ler a programação na Folha. Optaram estar e espiar à margem de uma música e outra.
Foram se arrumando. O préstimo das cores adornavam o riso frouxo de batom vermelho. Dos lábios dela se assoviava Elis Regina. Outra interpretação para o “atrás da porta”, sendo o assovio uma escusa para atrair e dar o bote.
Frente ao espelho, a miudeza daquele corpo era pingada por um short, uma camiseta desbotada de banda, pingentes simbólicos de paz e maquiagem assombreada. Um conjunto de boneca, deveras, que descarta os preceitos e os preconceitos de princesa. Muito rápida como um poema marginal, ela se transmitiu a verve das meias três-quartos, intercalou rima do colar dourado que escorria pelo seu tronco encontrando nela a luz em que a outra moça, ao fundo, na porta do dormitório, era sombra observante. A outra moça observava inebriada e cantarolava o pensamento para a sua pequena: “És fascinação. Amor...”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós III

A liberdade quando amada torna-se intimidade.

- Nossa! Se aquele dissílabo sorridente gerou tal argumento dela, quem ousaria entender? Apenas sentiria o começo de uma música que faria um castelo erguer-se na sofreguidão de mil venturas (previstas).
***
Caminharam sobre a extensão de diversos assuntos. O Ibirapuera não cometeria com esmero a volta das horas como a haste horizontal do sorriso amigável da conversa.
- Sabia que – olhava para o minúsculo relógio de pulso – já nos conhecemos há três horas?
- Será que é fácil contar os sorrisos mostrados em cento e oitenta e cinco minutos? – Indagou ela.
- Quando nos vestimos com o nosso melhor, a obra é um cálculo aberto da Eternidade.
- Conceito: sorria sempre. – Ordenou a pequena.
- A fantasia é um clássico significado.
- É o que cabe no conceito.
- E diversa. O que sabe?
- Você tem poesia.
- Descrita, ordinária e métrica. 
Não houve tarde mais esquecida em São Paulo. Pinacoteca, Avenida Paulista, café na Casa das Rosas. A pequena paulistana explicava desde o concreto dos prédios à poesia de Haroldo de Campos. Pelo tempo que juntava, percebeu que este era o seu único compromisso: uma liberdade assistida de amar. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós II

"Deve ser louca, deve ser animal. Hálito de gim, vai fingir, vai gemer e dizer: Ai de mim! E de repente deve ter um engenho, um poder que é pra menina fraquejar, alucinar, derreter..."

- Esta manhã colaborou com você. Verdade? – Perguntou a ela.
Ela suspira resultando aquele risinho final malicioso.
- Passei toda noite na Virada Cultural e amanheci com as buzinas da Brigadeiro. Fingi estar com amnésia e ainda não voltei para casa... Nem fui ao trabalho. Até estou mascando chiclete para dar o efeito de limpeza dental. Olhe. – ela bafora lentamente próxima a boca da pessoa ao seu lado. – Disfarça bem, não é?
- Aroma de tutti-frutti. – respondeu – Tem um para mim?
- Ah, aham! – ela abre a bolsinha tira-colo e acha um envelope de gomas em tabletes. – Pode pegar... à vontade! – frisou.
E esta adverbial vontade foi mastigada junto com o intuito de saber mais sobre a menina, aliás, moça, aliás, mulher jovem que confiava suas artimanhas jocosas. A esguia matéria contida na sua figurada breve idade atraia os olhos daquela pessoa ao seu lado, que a assiste esperando aquilo que o cinema americano tem de melhor. Tomou coragem:
- Eu ainda não acompanhei a Virada este ano.
- Pô, está lin-da! Cê curte MPB?
- Claro! – Disse com o claro contentamento de enfim estar compartilhando um bom gosto.
- Parabéns, seus olhos brilharam! – Surpreende-se. – Não é comum encontrar alguém que afirme com tanto entusiasmo seus interesses. Quando pergunto, geralmente um marasmo inaudível mostra a incompleta capacidade de amar o que se acredita. Não sei se você me entende, mas tenha certeza de que sua resposta me emocionou!  

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre São Paulo a sós

A arte é um organismo livre...

- Não, eu sou solteira.
Imediatamente sentiu que lhe fora dada a melhor notícia. Quem sabe a amizade, nesta hora, seja percebida por dentro? – Felizmente a megalópole não deixa a pessoa só. – pensou assim que a conheceu.
E ela? Sua idade, tal qual o tamanho “p” de suas vestes, traduzia um formato balzaquiano nas cruzadas pernas de Aline, de Iturrusgarai. Caminhava pelo Ibirapuera alternando a apatia, ora na rósea bola do chiclete, ora naqueles passos que indagam o porquê de nascermos compromissados com o sustento. Apoderou-se do banco do parque estirando suas pernas num aviso de pouca amizade... Não notou que ao seu lado havia alguém que bem a observava.
- Sol do meio-dia. – disse ela na pretensão de ser porta-voz de suas pernas abafadas pela meia-calça acrílica. No princípio, quem a reparava receou responder com algum monossílabo grunhido. Talvez ela estivesse pensando alto ou, na pior das hipóteses, realmente falava privadamente consigo e cortaria de vez dizendo “não estou falando com você”, ou... Até que ela se virou para a pessoa ao lado e sorriu um “e aí?!”
O fato é que o sorriso, mesmo sem a graça dada ao vocábulo, vem a ser o divisor de águas entre o encontro de duas pessoas desconhecidas. Num cantinho tímido da boca concordaram logo os primeiros cumprimentos e as trocas ensaiadas de conversa sobre o clima de São Paulo. Entretanto, ficar no “vai ou não vai chover” fá-la-ia desistir do contato.