sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sobre poesia romântica e indiretas: mas, por que não diretas?

Assim questionou minha aluna sobre os versos de Álvares de Azevedo. Pensei sobre mim, que, ao contrário do poema, não era um pesadelo mentido aquele momento. Contraste de gerações entre o poeta e a aluna. Eu me encontro no time do Álvares. Invejei o hoje: tudo normal, sabe-se, gosta e se desgosta. Tudo normal. Tudo belo. Não se perde, não se ganha. Beija sem encontrar antes o que pode lhe fazer bem.
Não há pensamento. Meus jovens filhos-de-livro seguem a linha pessoana! Ser direto que a vida num momento se sente dentro e maior em si! O Passado para esta geração dorme... Dorme jovem como o poeta questionado no princípio. Não há confessionário, há fé. Há D’us sem cobrança de religião.
A distância significa que a vida é demasiadamente veloz para não estar com quem se ama. Gostar de alguém, elogia; diferente da minha geração que se reprime com medo que a indiferença possa negar o status de conquista e felicidade. Como se a felicidade estivesse ligada a conquista... Tão distante o sonho que eu nunca beijei, porém...
A distância que tomo é de beijos fáceis de belezas (ainda que superiores a dela) que esvaziem meu riso engasgado a cada falta dela amparada no meu penar. Ser Álvares ou ser entregue? A normalidade agora desfaz contornos e empreende compreensão. Consola beijos. Desarma e ama, mesmo que seja por um curto período. Depois se despede e se reencontra como travessia. O melhor concreto caminho de realização das relações. 
Parabéns, jovens. Aqui, a experiência leva tapa na cara. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Carta-aberta-de-saudade à minha São Paulo

São Paulo, lugar de sonhos... (Foto: Larissa Pujol)

Como o veloz bater das asas de um colibri, rápido bate o meu coração de saudade e vontade de voltar para a minha cidade. Que saudade de você, São Paulo! Cidade progresso, cidade dos museus, das casas literárias, das casas diurnas e casas noturnas, que não se recolhe num aposento qualquer. Cidade que exclama seu nome com Demônios da Garoa: Isto é São Paulo!
Cidade ambiental do belo Ibirapuera, cidade olhar do belo pessoal transeunte que pelas suas ruas e avenidas percorre. Cidade inteligência! Cidade educação. Cidade que acontece.
São Paulo, menina colegial fundada em 1554, moça Paulicéia que os poetas modernos se puseram a admirar no Theatro Municipal. São Paulo que me acolheu como mãe em seu berço de total aconchego cultural. São Paulo, minha ama-de-leite de suas bibliotecas ao ar-livre, alimentando com seus seios a história de cada pessoa que em você busca o crescimento saudável da sabedoria. Embora tenha eu nascido longe de você, posso afirmar que de sua terra paulistana eu renasci. 
Há pouco, ouvindo Inezita Barroso, parecia que eu estava junto a você, São Paulo... Mas pereci porque, ao correr os olhos pelos jornais locais, não encontrei nenhuma primeira edição que noticiava a cena de ciúme num bar da Av. São João... e então... aquela coisa que sempre acontece no meu coração quando cruza a Ipiranga e a São João se desmanchou em lágrimas... Perdi o trêm, não estava em Jaçanã, não sambei no Brás, o convite do Arnesto não estava na caixinha do correio. Fui do Paraíso à, pelo menos, Consolação de cantar e dançar, embora longe de você, meu par, suas homenagens. 
Ah, minha São Paulo, Sampa de samba desde o Anhangabaú, de jazz no Terraço Itália, de música-novidade por toda a Paulista...
Meu D’us de Anchieta, São Paulo, quanta saudade você me faz...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A linha tênue entre a convenção e a convicção de amar

- Perdoa-me por me intrometer, mas não me agrada o caráter do seu marido.
- Você percebeu em tão pouco tempo o que ele é pra mim.
- É bárbaro. Cruel.
- Sim, mas o quê posso fazer? Eu o amo e o aceitei diante do altar.
- O que são as convenções quando se trata de passar a vida inteira ao lado de um crápula. Com perdão da palavra, um estupor! Ele não a merece.
- Sem falsa modéstia, eu também acho que sou boa demais para ele. No mais, fui criada para isso, para ser assim, embora sinta a crueldade.
- Confesso que fico espantada com tal revelação. Uma jovem senhora tão perfeita, digna de todas as classes de elogios... Difícil acreditar que aceite a convenção familiar machista e que ainda tente justificar e defender a própria submissão!
- Compreenda, eu nasci e cresci numa base estrutural dessa maneira. Meu pai, sempre muito austero e rigoroso, educou a mim filha assim e minha mãe se calava. No entanto, nunca me ocorreu que tais atitudes pudessem ser...
- Incivilizadas, no mínimo, para dizer algo mais gentil.
- Percebo que me recrimina.
- Sim. Sim, mas a senhora não merece ser questionada. Uma mulher tão digna, tão perfeita. É como você disse: é por força da criação. Mas uma alma boa, uma alma pura, aceita mudança de ponto de vista.
- Eu agradeço a gentileza. Prometo que de agora em diante vou ser mais generosa comigo mesma.
- Desculpe por ser grosseira, mas francamente o seu marido representa tudo aquilo que abomino. Não a merece. Uma senhora tão formosa com sua pujança e esplendor... Esplêndida como poucas, francamente, você foi aviltada!
- Fui?!
- Claro, pois ele teve coragem de difamá-la ao mostrar que deseja a outra. Perdoe-me...
- Por favor. Ele não a deseja... Ele...
- Liberte-se desse sofrimento! Mande-o às favas! Você merece ser amada por alguém que reconheça seu encanto, que a valorize. Alguém que reconheça em cada jeito seu a delicadeza das pétalas da mais bela flor.
- Sim... E você é poética e veloz em suas lisonjas como o bater das asas de um colibri.
- Você necessita de alguém que reconheça em cada palavra que seus lábios murmuram o suave sopro da brisa de outono. Você precisa de uma pessoa que a pegue ao abraço com ardor da despedida antes da última batalha... Você...
- A moça-professora me entontece com tantos galanteios.
- Uma pessoa que a beije com tal paixão que por certo a deixaria desfalecer entregue ao êxtase mais profundo, sinônima do ar e da liberdade... Ah, se você soubesse como me sinto ao vê-la.
- Por favor, não continue. Eu não poderia ter dado ouvido aos seus galanteios tão carinhosos. Nunca ouvi isso do meu marido, tampouco de algum homem. Jamais fui tão lisonjeada. Sinto-me culpada! Sou casada!  
- Ele não merece o seu respeito! Muito menos o seu amor, a sua entrega!
- Eu sei! Quando ouço suas doces palavras, enfim repreendo o desatino de mulher, o arroubo com que se entregam a um casamento pela pressa social sem saber antes o que amam. Se eu soubesse que existia amor assim, fora das páginas dos romances...
- Dona. Apaixonei-me por você à primeira vista.
- Não! Não faça eu me sentir mais culpara do que já estou. Não devia estar dando ouvidos a essas galanterias.
- Deixe-me ajudá-la.
- Não!
- Sim! – Pego-a pelo braço – Está pálida, trêmula...
- Isso vai contra toda minha educação. Não posso. Não posso.
- O que é educação senão a acreditar na liberdade da própria consciência! Acalme-se Dona. Fiz alguns versos de minha palavra em homenagem a você.
- Versos pra mim...      

sexta-feira, 31 de março de 2017

Seu doutô!

“Pelos teus exames vejo que tu tens o perfil de um jogador! Jogador de baralho de primeira!” “A-do-ro. Quando o vencer é equipado com jogo, conheço como é tratado o poder. É dizer, posso interpretar o caráter do meu adversário.” “Lari, dizer que tu chegas a conhecer o caráter de uma pessoa através do jogo de baralho é uma afirmação muito forte.” “Meu caro, o poder é o amálgama do caráter.” “Ah, como posso te recomendar academia?!” “Dizia Nabokov, caro médico: cada vez mais sábio, cada vez mais gordo. Meia-hora a mais que tenho de leitura!”

Não, não é somente o pastor que vende terreno no céu, também é o médico que ilude a todos com a eternidade prometida na escravidão da saúde.
A cada ano, a cada semestre, a cada dia são recomendados atos cotidianos obrigatórios, assim como o voto, para manter a vida um pouco mais iludida com a imortalidade na escravidão da saúde.
Diminuir para metaforicamente diminuir o gosto pela vida. Mas o que é a morte senão a cinza embevecida d’um cigarro corporal desgastado no dia vicioso de sobreviver... Heidegger foi certo: “não é privar da morte que o homem pode existir se ocultando do que lhe é mais próprio: ser-para-a-morte”. Não há placebos, tampouco ultimatos médicos que a detém. Por isso, entre o suicídio de João Gostoso e o suicídio de Ismália, prefiro antes entrar em qualquer bar nomeado com data, beber, cantar e dançar como qualquer intervalo que signifique depois que “a morte é um fato”, assim noticiado por Sartre.
Minha biografia não será escrita de receitas, nem atestados. Os garranchos dela são de “lirismo difícil e pungente dos bêbados”... Não, seu doutô! Minha saúde não precisa de desgaste físico. Deixo isso para o túmulo! Minha saúde é terapia de livros, terapia de ensino, terapia de um afago de namorada, sem pensar no peso certo enquanto degusto comidas gostosamente erradas. Não quero saber da vida “que não é libertação”!

sexta-feira, 24 de março de 2017

Entre espirros e gozos

- Oi...
- Fala, tchê...
- Eu quero dormir com alguém hoje.
- Boa sorte.
- Juju!
- O que foi? Tu disseste que queria dormir com alguém.
- Tá bom. Tá bom. Eu quero dormir contigo essa noite. Satisfeita?
- Melhorou. 
- O que foi? Quantas noites de insônia acumuladas?
- Três – disse a ela resmungando. 
- Isso anda se agravando.
- Ando trabalhando muito.
- Isso quer dizer: ando introspectiva demais para me envolver com alguém em busca de um sexo casual que me faça dormir bem durante a noite?
- Vai apostando.
- Ai, Juju. Não complica.
- Tens certeza?
- Tudo bem, tu não queres, né? 
- E tu vais bancar a difícil às vinte e três horas de um sábado à noite. 
- Eu nunca banco a difícil para ti, Juju. E duvido que qualquer mulher desse mundo o faça. 
- Que horas tu vens?
- Agora, minha Rapunzel adormecida ao avesso.
- Tu não esperarias de mim um enredo comum, sim?!
- Ainda bem que não, não carregas jeito de princesa.
- Ainda bem que tu me sabes.
- Falou a anti-herói que, em vez de procurar a sua par, correria para o Ponto de Cinema para trocar o sapatinho por um cinzeiro de cristal. 
- Gargalho! Cristal é brega!
- Gargalho eu, o sofrimento de um cigarro também, embora clássico. 
- Vem, então. Quero ler, relaxar um pouco e dormir. Pesadamente. 
- Estou indo, chego em vinte minutos. 

Em exatos vinte minutos ela chegava tocando a campainha, tamanha a intimidade com a escuridão da minha rua. Ela me abraçou com carinho, notando um livro em minhas mãos...

- Fernando Pessoa de novo?
- Fernando Pessoa sempre.

Respondi a ela dirigindo-me para a cama. Sentei com as pernas cruzadas, na confortável posição de índio. Vesti um pedaço de pano, jaz um vestido, agora transparente de velho e com alguns buracos. Prendi os cabelos com uma "piranha" e limpava meu costumeiro óculos. Ele se sentou no lado oposto da cama, observando-me. 

- Ouve isso: “Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas. Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana boiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir”.  Notaste a genialidade? 
- Tu ficas encantadora de óculos. Agora entendo o encanto do sempre...
- Presta atenção!
- Tu terias um lapso hétero com ele...
- Quem?
- Fernando Pessoa.
- Não... Somar-se-ia muito macho por quilômetro quadrado. Ouve esta parte... 

Enquanto eu lia outro trecho do livro, ela se aproximou, beijando-me as pernas, os ombros, o pescoço e qualquer parte que a minha postura leitora não impedisse...

- Presta atenção! 
- Sabe, eu já li “O livro do desassossego” – disse ela continuando a me beijar, enquanto eu tentava dela em vão me esquivar. - Comentaram que Fernando Pessoa tinha um micro pênis.
- Quanta infâmia! – converti-me a uma guisa sisuda sustentada no corpo de forma a fixar meus olhos nos olhos dela.
- Desculpa, dei um Google e li algumas notas, desde um programa de literatura e que relatava sobre uma biografia que dizia exatamente isso...
- Rá, sites de busca: a perversidade do conhecimento! Sim, infelizmente conheço a referida biografia. É uma biografia baseada em achismos! Nada ali é comprovado! Nada ali é provado! Uma historieta para ganhar notoriedade de "likes". Um embromado linguístico para a formação de fofoqueiros, não de debatedores. Se tu queres conhecer intimamente um autor, busque interesse inteiramente pela sua obra numa biblioteca e a interprete! 
- Calma, Larissa! Não precisa jogar essa avalanche intelectual na minha cara. Não estamos numa banca de tese e tampouco o tamanho do objeto fálico do Fernando Pessoa me interessa... – repreendeu-me enquanto também me acalmava com carícias nas minhas pernas e beijos. 
- Ai, tu não te interessas por Literatura! 
- Na verdade, me interesso. Por exemplo, que tu achas que Bukowski diria sobre isso? – perguntou enquanto deslizava sua mão por entre as minhas coxas e me mordia a orelha...

Em um meio gemido convencido, soltando completamente o livro e agarrando-lhe com força as costas respondi:

- Algo como um... "que se foda"!
- Esse sabia das coisas – ela sussurrou continuando as carícias e beijando-me a boca. 

(...)

Na manhã do dia seguinte, despertei tarde. Há tempos não dormia tão bem. Era domingo e todo e qualquer excesso de tempo na cama era facilmente perdoável, principalmente com o tempo nublado. Sentia meu corpo dolorido e levemente dormente. Pensei que deveria colocar em prática a recomendação do meu cardiologista sobre o meu preparo físico, apesar da correria pedagógica diária. Os lençóis e edredom estavam no chão. Na criado-mudo ao lado esquerdo esperava-me uma bandeja. Arrumada com amor, possível de se notar no primeiro soslaio. No entanto, os itens do café da manhã pareciam peculiares: um livro do Eça, um suco de laranja, cacetinhos com patê de fígado, outros com geleia, e cartelas de comprimidos para resfriado, outras para melhorar a função hepática?!? Ao lado, um bilhete: 

“Desculpa, amor, não poder ficar. É aniversário da minha mãe, e tu sabes disso. Deves ter esquecido. Mas, não te preocupes, eu minto que tu lhe mandaste um beijo. Alimenta-te bem e toma todo o suco com os compridos para resfriado. Talvez tu te resfries e a consequência disso é o teu fígado doente por causa do medicamento. Alivia-o, logo. Essa coisa de não dormir afeta o sistema imunológico, que te complica o problema hepático. Tu deves saber disso e o amor é um tanto quanto egoísta, às vezes. Ao te ver dormir tão belamente despida a minha frente, eu não resisti... Teus pelos todos arrepiados, teus seios outrora em minha cara ainda firmes, duros, branquinhos, fartos, tão perfeitos. Teu corpo, Larissa, se fixando ao meu em busca de calor, toda expandida em tamanho, mas contraída me abraçando, me protegendo, aninhando tesão. As mãos tensas segurando o travesseiro, num conceito sinônimo entre o corpo gelado e a alva cor de tua pele macia... Eu pensei, inclusive, em desligar o ar-condicionado a treze graus que, como dizes, trazia o ambiente a um outono jazido, mas não fui capaz. No teu abraço, passeei devagar as mãos sobre os pelos loirinhos eriçados da tua coxa, me protegi apertando os músculos dos teus ombros, valorizando a iminência do toque – lembras-te disso? Apenas na legenda de uma foto de saxofone, é impressionante como tu sempre consegues um jeito para provocar - senti logo a contração da coxa na minha perna, os olhos pesadamente fechados, as rugas de incomodo na testa, os braços em volta das minhas costas, o tremor quase imperceptível por cada centímetro de pele. O ar-condicionado continuou ligado por toda a noite. Tão encantadora. Tão sempre. Perdão por isso, amada Juju! O suco de laranja garantirá a vitamina C e, os comprimidos, não hesites tomar. Se bem que seria bem excitante te imaginar de nariz vermelho por aí, necessitando de cuidados extras e xingando de maneira fanha e rouca – ah, tu rouca! - o meu nome. Não serei tão insensível assim, como tu costumas dizer aos outros, cuida-te e deixa ser cuidada. Assim que parabenizar minha mãe, volto para te aquecer. Ainda bem que não levo jeito para princesa. Com amor, 

M.”

- Filha da puatchimmm! 

(Whats enviado após o terceiro espirro: da próxima vez, ao menos, deixa flores!)

(Resposta do whats: "Outras vezes, acordo dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espetáculo sem ruídos" - é a continuação do trecho do Pessoa que tu me leste. Sempre presto atenção em ti.)

Porque toda lésbica gosta mesmo é de uma boa Florbela! 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Somadas à prova proustiniana as perguntas realizadas (e lisonjeadas) aleatoriamente

Qual lugar mais seguro do mundo?
- Qualquer tempo em qu’eu esteja lendo Fernando Pessoa.

Qual celebridade você gostaria de passar o dia?
- Antônio Abujamra.

Você sempre soube?
- Que a felicidade é uma ideia velha.

Quando você disse “eu te amo” pela última vez?
- Eu nunca disse “eu te amo” pela última vez.

Quais são suas bebidas favoritas?
- Justamente as que causam hipertensão. Cicuta é uma delas.

Qual foi o pior lugar que você já esteve?
- Colégio Santa Maria.

Qual seu famoso bordão na sala de aula?
- “Dúvida, angústia, depressão, estresse?”

Você acredita de cada um tem sua alma gêmea?
- Depende do número dado pela expressão “cada um”.

Você tem tatuagem?
- Uso apenas henna, pois as figuras me entediam rapidamente. 

Quando foi a última vez que você chorou muito, copiosamente, durante todo o dia ou por vários dias?
- No velório do meu pai, há quase vinte anos.

Qual foi seu brinquedo favorito na infância?
- Um radinho a pilha.

Quem foi a última pessoa com quem você falou ao telefone?
- Com uma affair paulistana.

Você já se relacionou com mulheres (heterossexualmente) casadas?
- Sim, e ainda sim. Elas me procuram, eu as adoro. Aprendo muito com elas, aprendo isso de como a heterossexualidade é um palco para a hipocrisia.  

Mulheres jovens ou mais velhas?
- Mulheres de 40, adiante! Elas querem a sorte de um amor tranquilo, como aquela música, enquanto estou no tédio afanoso da rotina. Já se transformaram em melodia, enquanto aos trinta e poucos recém aprendi a compor.

Cite algo que você coma todos os dias?
- Doces. E em todas as refeições.

Qual sua missão de vida?
- Voar como um pombo, pois cagar e andar eu já sei. 

Qual o principal aspecto de sua personalidade?
- Fluir com a certeza.

Qual a qualidade favorita num homem?
- Morrer.

Qual a qualidade favorita numa mulher?
- O substantivo beleza.

O que mais aprecia nos amigos:
- Descontração suficiente para predicar valiosamente a confiança.

Qual seu principal defeito?
- Atingir a serenidade.

Qual seu passatempo favorito?
- Namorar.

Qual sua noção de felicidade?
- Que isso pode ser uma ideia velha.

Qual sua noção de infelicidade?
- Desequilibrar-se tropeçando no idealismo ou pisando fundo nos buracos do realismo.

Se você não fosse você mesma, quem seria?
- Aquela que as pessoas atingem idealmente com sua admiração ao me conhecerem.

Onde gostaria de morar?
- Já realizei este sonho.

Qual sua cor favorita?
- Todo branco-e-preto espaço para o diverso.

Qual seu escritor favorito?
- Depende do entusiasmo no qual me encontro.

Qual seu poeta favorito?
- Idem.

Qual seu herói favorito na ficção?
- Policarpo Quaresma.

Qual sua heroína favorita na ficção?
- Diadorim.

Quais seus pintores e compositores favoritos?
- Dali, Caravaggio, Gullar, Chopin, Korsakov e os que já fizeram de mim musa.

Quais seus heróis na vida real?
- Meus alunos.

Qual sua figura feminina favorita na história?
- Bolena.

Quais seus nomes favoritos?
- Aqueles dos quais me lembro do sorriso.

O que você mais odeia?
- Dificuldade em ser calma. Cheguei à hipertensão por isso.

Quais as figuras históricas que você mais odeia?
- Fálaris de Agrigento, Delphine LaLaurie, Carlos Lacerda.

Qual evento militar que você mais admira?
- O da banda marcial nas escolas.

Qual o talento natural que você gostaria de ter?
- Capacidade de acordar sem xingar o despertador.

Como você gostaria de morrer?
- Ida e sem despedida. Já sendo hipertensa, tenho grande chance!

Qual é seu estado mental atual?
- Ansiosa por ter pensado em mim durante as perguntas.

Por qual o defeito você tem menos tolerância?
- Aqueles que não me compreendo.

Qual seu lema favorito?
- “A letra não mata, a letra dá vida”.

Já que você admira Abujamra, responda, Larissa, o que é a vida?
- Uma imitação mal feita da morte.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Enigma e comentário

Quando aprendi que a felicidade é uma outra oração. (Foto: Larissa Pujol)

Sobre a primeira semana de aula nas turmas de primeiro ano: literatura jesuítica.
A tradição espiritual ocidental é baseada no sofrimento, disse-lhes. Ensina que D’us se deleita quando vê os homens sofrendo e se prostrando. E é por isso que as pessoas religiosas, quando prometem a D’us, prometem - e poderiam prometer: Senhor, se me concederes a benção, eu Te prometo que vou ler, todos os dias, às seis da tarde, um poema de Fernando Pessoa -, mas ninguém oferece coisa boa para D’us! Oferecem, pois, subir mais de quatrocentos degraus, de joelhos, oferecem sangrar seus calcanhares sobre cascalhos, oferecem deixar seu organismo fragilizado pelo jejum... 
A ideia de um D’us sádico, que fica feliz com o sofrimento de Seus filhos, é horrível! Nunca leram nas escrituras sagradas que D’us criou um jardim de delícias. Assim fomos criados para a felicidade. Uma coisa de Bachelard: o Universo tem de encontrar o seu destino de felicidade.
Afinal, como resolver com a literatura, os conflitos entre idealismo e realismo? – desafiei-os.
Todos responderam com pausa thecoviana...
A ideologia é frágil, comecei. Ela precisa de poder, e para ter poder é preciso realismo, preciso saber como as coisas são. Mas, se eu tiver apenas realismo... as coisas não alçarão voo. A ideologia cria o voo. Logo, há de se manter essa combinação dos dois. A ideologia aliena a todos nós do medíocre da vida. Coloca-nos para fora a fim de saber sobre as condições para fazer transformações na realidade e resultá-la como resposta ao desejo.
Afinal, desse conflito colonizador-jesuítico entre fé e pecadismo podemos extrair a diferença gritante entre otimismo e esperança: a primeira procura sorrir para o futuro por causa de; a última, a despeito de.
O sinal já havia se anunciado há dez minutos. Não percebemos.  

sexta-feira, 3 de março de 2017

Escrevendo e cantando com minha “bebé”: uma proposta de estudos comparados com diversão

"Volto pra casa abatida, desenganada da vida... Nos sonhos eu vou descansar, nele você está" (Ronda, Inezita Barroso)

- Amor, tomei partido das leituras na tua estante enquanto estavas no costumeiro “exílio” em São Paulo. Ficas irritada por isso?
- Claro que não, meu bem, desde que os meus livros não saiam de casa.
- Estou concluindo as cartas de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz.
- Hahahaha... Espero que esteja eu te correspondendo melhor.
- Aham... Chega a ser ridícula! – brincou encostando a sua cabecinha no meu rosto – Mas um ridículo gostoso e bem aproveitado, diferente deles. Se tu criasses heterônimos, não terias nada de “Álvaro”.
- Nem Pessoa o tinha. Álvaro de Campos era um retrato enfadonho do entrave masculino. Como todo homem da época, existido para esbanjar fortaleza e secura, Fernando fez-se de Álvaro para conseguir objetificar a sua realização (literária).
- Os relatos de Ofélia dizem que ele se portava extremamente carinhoso, romântico, cheio de piegas para com ela.
- Sertanejo...
- Hahaha, o quê?!
- Tive uma ideia: vamos continuar a leitura juntas e eu te digo quais as músicas sertanejas me lembrava cada momento ou carta.
- Hã?! Sertaneja, o quê?! Tu, Larissa?! – Riu copiosamente.
- Sertanejo antigo, minha pequena. Modão. Dos 90 para antes...
- Guria, quero só ver! Vamos lá: qual o “melô” para esse trecho aqui ó “Há três dias que não me apareces sem eu saber a que atribuir tal ausência [...] Antigamente eras mais atencioso para mim, mais carinhoso, mudaste imenso!”
- “Cada dia que se passa, mais distante...” – cantarolei – “o rosto tão bonito se perdeu na indiferença...”
- “É pena qu’este amor não teve consciência dos sonhos que sonhamos em segredo” – continuou.
- Hahaha... Isso! Olha que Pessoa nunca quis que ela revelasse algo sobre o namoro deles.
- “Vá com Deus!” – cantamos numa só voz aos risos – “o amor ainda está aqui, vá com Deus!”
- Puta merda, Larissa – continuou inflando aqueles dentes maravilhosos –, tu tens o dom de achar trilha sonora literária.
- Ah, é! Lê então João Mineiro e Marciano nesse trecho “como o Fernando não tem motivos para acabar, procede então da forma que procede. Pois bem eu assim não estou resolvida a continuar. [...] Está a sua vontade feita. [...]”
- “Você me pede na carta qu’eu desapareça; qu’eu nunca mais te procure, pra sempre te esqueça...”
- Agora olha esta foto.
- Ah... Hahahahahaha. Vamos lá, uníssonas! – ordenou.
- “Ainda ontem chorei de saudade...” – nunca choramos de tanto rir...
- Ninguém tira do meu coração que, na hora do “flagrante delitro”, o Fernando estivesse profeticamente ouvindo João Mineiro e Marciano.
- Eu não paro de rir, Larissa, com tuas análises! Agora este: “Então uma sombra bêbada ocupa lugar nas lembranças”
- Por favor, este trecho merece orquestra. Por favor, maestro, Vicente Celestino – pigarreei e embarguei a voz de vitimismo e virilidade – “Torneeei-me um ébrio na bebida, busco esquecer...”  
- Hahahahahaha... Puta música foda para esse momento do Fernandinho! Já temos aqui três para o Fantástico. Qual delas ele escolheria?
- Aos momentos que ele se localizava na Baixa, “doente de amor, procurei remédio na vida noturna...”
- Acho que não, amor. Falhaste nessa, bebé gânde.
- Mas me refiro à época que o Abel ainda tinha fachada azul.
- Hahahaha... Que tu sabes da fachada do Abel, Lari... Hahaha... 
- Vida noturna também é essa parte: “É uma hora e dez minutos (da noite) e antes de deitar venho deixar mais um jinho para o meu preto”. Lembra-me muito a minha infância essa frase da Ofélia. Alan e Aladim. “Já é tarde, é quase madrugada e eu não dormi...”
- “Com você no pensamento a insistir... Que eu não durma sem falar contigo.” – continuou com voz melíflua.
- Hehehe... Otimista, hein!
- Como toda sagitariana que tu também és, Larissa! Será que o Álvaro profetizou as músicas bregas naquele poema sobre as cartas de amor serem “ridículas”? 
- Quem sabe até compôs o arranjo dos modões.
- Imagina se alguém tivesse musicalizado o poema...
- Não faria sucesso. “Todas as cartas de amor” são uma tentativa de passar sobriedade quanto a possível maturidade de poder emparelhar, embora de maneira surreal, a razão e a força, a secura e a indiferença, pendurados na linha tênue do amorfismo. Já no sertanejo antigo é na linha tênue do romantismo caridoso. 
- “Mas afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.”
- A adjetivação aí assume outro significante... Poético Fernandinho. Coisas da gramática. E também, na mesma linha, são ridículas as que nunca leram com seu amor.
- Uma trilha para esse final “sua amiga dedicada”.
- Prefiro te oferecer um trecho: “Na hora que a noite desce, lembra-te daquela que nunca te esquece.”
- “Cá um jinho”. - Bicou um beicinho.
- Ah, esse não precisa de fala.  

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chance para o amor ser antigo e inútil

"Moonshine, take us to the stars tonight... Take us to that special place, that place we went the last time, the last time..."

A melhor demonstração de afeto e interesse é a despedida. As cartas também; pois são a expressão da distância. Principalmente as que ela me envia – por vezes endoidecida – com datas manuscritas entre uma lembrança e outra.
A solidão me leva para longe. As despedidas me alcançam com longa reticência e me abraçam como um novo parágrafo que se espero do outro. Confiam a percepção da boa-sorte e a percepção que se preocupa. Confinam oximoros. Compõem letras. 
São Chico, Amy, Leandro e Leonardo, Whitesnake, Tom, Vininha, Elis, Bruno Mars... Este último, lembrando-me os rastros que a lua já deixa nos cabelos dela. E ela ainda desafia: se compores uma música para mim, eu te componho uma vida inteira.
Despedida desafia!
Ah, a despedida é o amor que não dói. É o que Pessoa denominava uma qualidade de gente estúpida, julgando amar e se sentir amado, mas que permitia-se ser feliz no mundo. Não permite ilusão; crer que o amor perdure, tampouco no idílio de paz num progresso de anos paralelo ora à felicidade, ora à desilusão.
A despedida, assim como o sofrimento, passa. Assim como a vida passa e todas as coisas que fazem parte dela passam. Despedem-se.
“Outra coisa... Não, não é nada, boca doce...”. Portão de embarque.  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sobre aliança e acrobacia

Casamento: uma comédia de costumes. Imagem: Larissa Pujol

A: E aí, Larissa?! Que achou do espetáculo?
L: Metafórico. Principalmente a parte do anel de noivado e a acrobacia.
A: ... (o olhar dela pedia uma aula)
L: Aquelas inveteradas acrobacias dentro, ao redor do grande anel suspenso no palco, o véu vermelho despindo a artista e despedindo a mulher, que por obrigação do costume, acostuma seus sonhos nas acrobacias para ter um casamento. Os rodopios, então... Metáfora de um conservadorismo interpretado por uma mulher capaz pelo casamento. 
A: Nossa, Larissa! Fe-no-me-nal. Me arrepiou! Sério, meu! Ninguém que eu tenha conversado me disse isso. É apenas um “gostei” e basta.
L: O banquete, título do espetáculo, seria o alimento do antes e do depois do casamento, mas nunca do seu presente. Percebe, meu bem, que o presente dos noivos é se alimentarem um do outro. Enquanto ambos se dizimam da sobrevivência do outro, cansam a ilusão de que não há melhor alimento que eles, apenas, até que sua realidade recorra cada verdade de indivíduo ao banquete. 
A: Por isso que chegamos à conclusão de que o indivíduo é do tamanho de sua fome.
L: Banquete não revela a fome, revela o apetite do convidado. Fome é sobrevivência. Apetite é vicio! Num banquete aproveitamos tudo de saboroso, de gordo, de fetiche, de maquiagem, de escondido mal-estar na cultura (como afirmaria Freud). Nada de sobrevivência. 
A: Aquelas artistas: a beleza, a solidão, a inveja.
L: Pormenores de avanço, caso as saibamos usar. Aceitas um cigarro?
A: (com os olhos e os lábios brilhando) Seu sotaque é fascinante...
L: E olha que moro aqui há quase dez anos... Mas como trabalho no Rio Grande do Sul, passo o restante do ano lá.
A: Você tem de mim uma distância de banquete.
L: Casamento, banquete, alimento de peles. Não confies em mulher que assina o sobrenome do marido!
A: Acrobacias conservadoras, nunca!
Rumamos ela e eu pela Baixa Augusta... 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Àquela que me espera

"Vem iluminar meu quarto escuro, vem entrando com o ar puro. Todo novo da manhã, vem a minha estrela madrugada, vem a minha namorada. Vem amada, vem urgente, vem irmã. Benvinda, benvinda, benvinda, que essa aurora está custando, que a cidade está dormindo, que eu estou sozinho, certo de estar perto da alegria, comunico finalmente que há lugar na poesia! Pode ser que você tenha um carinho para dar, ou venha pra se consolar... Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda..."

A tristeza, minha querida, testa a veracidade das nossas noites insones. Dá voz e som ao que de mais nele – e aqui dentro – existe de intenso. Mesmo em escuridão compõe o primaveril florescer de canções encharcadas (de bebida e de lágrimas).
Mas, quem disse que não é belo tudo isso? Os bocejos são melodias e os cochilos, as letras. Se possível, renunciamos aos sonhos porque viver é preciso.
Conecto-me com quem me amplia para dentro e para o mundo. No entanto, amada minha, durante este longo espaço que nos espera, quem nunca se dissipou diante dos teus olhos? Quem permanece intacto ao poder do teu tempo? E do teu movimento? Quem nunca se desvanece na tua memória?
Por aqui, apenas entendo sobre saudade antecipada ao ouvir de ti “telefona-me assim que chegares”, enquanto minhas mãos insistem em te pedir que entres no primeiro voo para cá sem se desgrudarem do caderno.
Por aí, tu tens o privilégio de poder olhar a chuva daqui sem se molhar. E para quem telefonarei quando o segundo sol chegar?
Enquanto isso, namorada, emendo viagens, remendo amores. Coleciono memórias e leciono liberdade. Solicito caminhos, licito apego. Arremato corações, remato dores. Brinco com palavras e com o destino.
Eis minha notícia. 
Em breve retorno com mais te amo que de costume...    

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Coincidências outras

Quanto de mim ela ainda possui? E ainda encontra respostas em braços alheios: amiga-abriga; amiga-ouvida. Sempre ela... E lá vamos nós nos embriagarmos de cumplicidade.
Quando quero parar o mundo para descer, chego perto daquela que me coloca novamente na melhor poltrona, na janela. O vento e a paisagem redimem a velocidade acachapante de um mundo apressado e ocupado demais para sentir e ouvir.
Quero-quero! Assisto na paisagem a esse passarinho que apenas sabe ser livre em par... Pois é, querida, depois de João de Barro e Sabiá, um novo canto para nós duas. Nostalgia: esse romântico tanto de passado em uma palavra voltada para o futuro.
Copos vazios, ela se aconchega ao meu lado com a trêmula voz e confessa que racionalizou que não seria uma boa ideia, já que eu me sentiria obrigada, que seria mais a vontade dela de ser amada por mim do que me fazer “sentir em casa”. Bobinha... Então fiz de mim a casa para recepcioná-la. Com todo prazer do mundo...
Às vezes o desejo é a melhor etiqueta. 
E o que sobrevive aos finais das festas é sempre mais bonito, embora pareça, assim, quase destruído.  

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Talhados na aparência (com amor?!)

"A beleza se define portanto como a manifestação sensível da (própria) ideia..."

São Paulo, Rua Augusta GLS, numa roda boêmia de conversa sobre política aplicada, abre-se a discussão sobre a aparência da ministra – até então reprovada por todos, menos por mim:
- Gente, ela não é feia! Eu não consigo vê-la feia. Eu não a acho feia.
- Larissa, das duas, uma: ou você tem um coração muito bondoso, ou você tá numa carência amorosa trágica!
Gargalhamos...
- Pega o celular dela e liga pra namorada dela do Rio Grande do Sul. Diz que ela tem que pegar o primeiro voo para São Paulo... – brincou outro.
- Hahahaha... Ai, ai... Prefiro acreditar que tenho um coração bondoso. – afirmei – Minha namorada e eu estamos cumprindo bem nosso destino.
- É a primeira pessoa que afirma que ela é bonita.
- Sério, cê tá bem? Tem controlado a hipertensão? Verificou se a erva-mate que você bebe todos os dias está dentro da validade?
- Hahahaha... Gente, mas o que os faz achá-la feia?
- Ela é esquisita! Aquele rosto caído, aquele cabelo caído, aquela boca caída!
- Bento Carneiro!
- Hahahahaha, é mesmo...
- Ai, ai... – entristeci a cara – o critério de beleza ainda ligada à aparência. Jamais estaremos aptos a enxergar a maravilha do outro em sua totalidade (e realidade) se tivermos nos afogando dentro dessa redoma chamada “padrão”, e desse “padrão”, acharmos um caminho para relacionamentos saudáveis.
- Hegeliana legítima!
- Não vou negar que ela é assustadora – revelei –, mas isso não a define como feia. Não sei para vocês, mas, para mim, o feio me causa uma reação de nojo, de asco. 
- Talvez você consiga ver o caráter da pessoa.
- Pode ser. Só sei que ao meu parecer ela não é feia!
- Você a namoraria?
- Ela não. Mas uma mulher como ela, sim. Totalmente! Já observaram como ela acalenta um olhar sóbrio ao mesmo tempo mitigando um aspecto sombrio? Sim, observem também que ela carrega aquela tristeza requisitada por Vinícius, e isso, deveras, aliada à sua reserva (ou timidez), me a faz notável.  
Um dos amigos volta-se para a mesa vizinha e me faz perceber que uma moça olhava para mim atentamente:
- Já aprendeu né, colega! – Disse ele a moça - Agora é só pintar o cabelo de branco!
- Hahahahaha... – Tornei a voz mais audível – Deixa para lá, não lhe dês atenção. 
Nem para ele, nem para mim... Ela continuou me olhando como se o redor não existisse... Abaixei a voz, dedicando somente à mesa:
- Manteremos nossa prosa somente aqui. Não quero problema lá no Rio Grande do Sul.
- Hehehehe...
- Tranquilo.
- Mas voltando, vou pegar o gancho do que tu disseste para a moça: “é só pintar o cabelo de branco”. Observemos que o amor é uma metáfora da aparência! O relacionamento saudável se tornou um reino absoluto da aparência. Uma bela roupa, jantares sofisticados, regalos carinhosos, ciúmes, maquiagem, sobrenome de marido (sentido trágico da existência de uma mulher!)... Infelizmente, Amar, via de regra, é aparência! 
- A questão da beleza ser fundamental... Voltando ao Vininha.
- Mas a questão é: o que é ser beleza? O fundamental tem de ser voltado ao individual para enfim encontrar o que completa um outro. Se eu a acho bonita, tem algo dela que fundamenta em mim...
- Por isso, como nos surpreendêssemos assim, tipo, “ah, como ela fica com uma pessoa daquela”, enfim... 
- Exato. É ligado ao fundamental de cada um. E isso cabe respeito somente ao que a ti te parece fundamental. Traduzindo: cada um que cuide de si.
- Achei um vídeo da ministra na internet. – disse outro amigo.
- É mesmo. Ela tem um caminho suave de fala. Uma beleza serena até.
- Viram, pessoal! Ela não é anormal. – Tranquilizei-os.
- Gente, só a Larissa para transformar noventa e nove porcento de um achismo...
- Hehehehe, para isso basta, primeiro, prestar atenção no que a pessoa pode nos oferecer. A beleza chega depois.
- Certo. Gente, paguemos um uísque a Larissa.
- Vamos lá! – correu um deles.
- Garçom!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Homenagem

"Quando estou só reconheço que existo entre outros que são como eu sós. "

Gente que me busca no pão e no tom. Busca-me pela mão e pelo som. Busca-me pelo corpo até a cama. Busca-me no tempo e no silêncio. Busca-me pela casa e pelas companhias. Busca-me no travesseiro e no cafuné. Busca-me pela certeza e pela fé. Busca-me pelos ouvidos e pelo chão. Busca-me na segurança e no colchão. 
Gente que me busca na calma e na faca, na toalha e na água, na memória e na sala, pela máquina e pela tomada.
Gente que me busca na alma e na palavra. Busca-me na risada e no relógio. Busca-me no livro, na confiança, na sapiência e na balança. Busca-me no espaço e no oxigênio. Busca-me na roupa e no apoio, no teto e no tapete, no colo e nas senhas.
Gente que me busca pelo ombro e pelo lenço. Busca-me na solidão e no argumento. Busca-me pelo lar e pela energia, no instrumento e na inspiração, na cadeira e nos pés, na liberdade e na decisão. Busca-me nos fios e nas opções, na janela e na sanidade. Busca-me pelo piso frio e no cigarro quente. 
Essa gente que me busca pela vida quando sabe que a minha não é suficiente...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mon amour – Caio Fernando Abreu: o caso dela e meu...

Que sorte a nossa, né, Caio?

Por um fio de memória lembrar-me-ei dela naquela exposição no Museu da Diversidade. Como de costume, após o ano de trabalho, permito-me continuar eterna numa cidade que não tem mais fim. Eternamente concreta em Sampa, fui diretamente ao encontro do meu conterrâneo Caio. Estava belo e realizando o seu desejo de apaixonar alguém pelo que escreveu...
Era uma sala com mimeógrafo. Nostalgia de um álcool purificador das tintas pingadas em cada letra dos seus versos que estávamos livres para rodar. Então, eis que o sorriso dela declamava com as pálpebras a rima de qualquer coisa maravilhosa e tirava minhas palavras sobreviventes desta boca com gosto podre de fracasso. O sorriso dela declamava com as pálpebras o fato de nascer e viver no bairro da Liberdade. Esse nome entregue ao ser do tempo com “cantos de alívio pelo que se foi; cantos de espera pelo que há de vir”. Ela, aberta ao tempo, se desculpava com Abreu e não escapava de mim deixando uma lembrança qualquer.
Mas, eu não fiquei! Tampouco me foi um tempo perdido. Moça oriunda da Liberdade! De temperamento zen-budista e lugar onde constantemente amanhece. Curiosa de vida agora, vivi! Não fiz uso da fatalidade da resistência, nem me suicidei com a grandiloqüência do “nunca” e do “sempre”. Foi cômodo, sem decisões. Um colo e um cafuné. Contidamente, continuamos. Que sorte a nossa, Caio! – comemorei em silêncio lembrando-me do sorriso dela. Ah, mas o sorriso...
Permiti-a: “levai-me por onde quiserdes, aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e voltar sempre inteira. Sou toda minha saudade e amor de sempre”.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tratamento

Não que fosse apenas um Narciso frente ao espelho da realidade... 

Resolveu experimentar a beleza da solidão. Um paladar egocêntrico cujas gotículas breves de um suor e outro trabalho não são aparadas pelo sintético tecido de censura. Muito pelo contrário: seguiria caminhos das reações vividas, bem como a lágrima que pode surgir e escorrer pela pele que sobra ao chão do qual ela também emerge. Emerge com o gelo por onde pisa, põe-se à ponta dos pés, cuidadosa – não com os passos – mas com a assistência de sua liberdade nos seus passes de bailarina.
Salta lá, um passo à margem! A casa, simples descanso do social, tem berço de concreto, escuro, escuso e singelo de cortinas deste espetáculo estirado num sofá frente à brisa mecânica do circundante vendaval que a livra da alta temperatura adquirida na rua.
 Jogou-se suicidamente naquele abraço que desiste da existência sobre um conforto solícito e tenro da cama. Não havia fala, tampouco atenção. Apenas as artérias cumpriam o papel passado.  Futuro, um desleixo profundo de se imaginar.
Ao teto, os olhos miravam a brancura de não poder atravessar as duras partes, ao lado, a permanência do esquivo ordenado de uma cor qualquer definindo o dia ou o que quisesse.
Com preocupações não há solidão que vença! Pena! Não soube ainda qual é o melhor de si. Percebeu sua fome. Culpa do organismo. Do fragilismo de estar desperta e atendida. Do salário do qual sobrevive, da casa para manter, da roupa para vestir e atender as tarefas.