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Mostrando postagens de 2017

Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento (III)

- Qualquer um sabe que D’us não interfere no livre arbítrio das pessoas. “Fazer” alguém amar está fora de cogitação. Basta, aliás, assistir ao Aladin para saber disso. - Cê é cruel, sabia? - Sim e estou terminando a pipoca sozinha. Cruel. Anda, responde, o que tu mudarias no mundo? - Eu inventaria um mundo novo para você, onde o dia e a noite coexistiriam. A chuva e o sol também, em que cada casamento é de viúva, de alguém capaz de valorizar o amor por já havê-lo visto morrer um dia. Um mundo à luz branda, como você gosta. Nada de raios ofuscantes em um calor indigno. Temperatura outonal, um nublado constante, sempre na expectativa da nitidez, que sabemos, desde Sócrates, nunca se alcança. Constelações com miúdas estrelas em gotas que descem cadentes e, quando pesadas pelas superfícies, explode a multiplicidade ampla dos desejos fáceis. Ah, e uma trilha sonora de saxofone que nunca cessa, somente para você ter esse semblante que gosta de ser feliz na tristeza, na introspecção mais ge…

Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento (II)

- Vamos! - A melhor pergunta da noite: no meu ou no seu? - Engraçadinha. No carro, com uma verdadeira tempestade primaveril. - Você realmente relaxou aqui... - A melhor forma de lidar com o medo: racionalizar. - Nisso cê é boa. - Grata. - Não foi um elogio. - Não sou tão austera como tu pensas. - Eu não penso. Eu sinto. - Desculpa, senhora sensível. - Convença-me do contrário. - Já cheguei a poetizar os raios. Numa legenda de rede social questionei o que as pessoas mudariam no mundo se fossem D’us. Pensei em eliminar os raios, no entanto, numa conversa despretensiosa, eu cheguei a concluir que seria anti-poético aniquilar a única coisa que une céu e terra com contínua fortaleza de energia. Quase uma metáfora do amor. Isso não é racionalizar. - O que você mudaria, então, transformaria no mundo? - Na época falei de nuvens coloridas porque o registro tinha um rastro colorido no céu. Mas, pensando bem, ficaria um tanto como um horrendo quadro do Britto. - Hahahaha... - O que tu mudarias, …

Coleções cinematográficas em Sampa: Estacionamento

- Que houve, você parece nervosa. - Temo raios. - Teme ou odeia? - Uma ação leva a outra. - A velha conversa do desconhecido e de sua consequência, etc... - Estou demasiadamente tensa para filosoficamente problematizar raios. - Mas aqui é seguro. - Descargas elétricas matam vinte por cento em casa, perde apenas para desacampados.  - Bom, eles não morrem do nada... Ou é porque estão usando aparelhos eletrônicos, ou porque talvez estejam, como vocês fazem, tomando “mate”, com a “bomba” metálica na frente da janela. Cê não está fazendo nada disso. - O medo tende a ser um costume irracional. - Parecia-me que você tinha pavor de vespas. - Tenho pavor de tudo que tenha e coloque ferrão. Um asco!  - Hahaha...  - Não há restrição de pavor por homens. - Cê quer um abraço para se sentir segura? - Se tu fosses feita de borracha... - Não é o caso... - Carros são lugares seguros, sabias? Sinto-me protegida neles. - Ué, descemos então?! - Para onde? - Para o carro. - Por que o faríamos? - Para cê …

As aspas de amamos

Para quem desejamos é dedicada a felicidade final do artista, do poeta. Sempre encontramos um ipsis litteris para a pessoa em questão, que parece que o artista a pariu, a profetizou naquele poema, naquela música, no incômodo sublime da composição. “Quando Deus te desenhou”: entrega-se ao trabalho do artista a projeção onírica da qual se emancipou as melhores submissões inspiradas “para ti”.  Bordões, citações, expressões, frases, máximas, parágrafos. Seja intimamente ou com rabiscos e grifos, sempre guardamos em nossas leituras alguns trechos que nos despertam e ficam, de forma única, impregnados em nossas mentes. Alguns levamos para toda vida, outras servem especialmente para um momento específico, mas todas importam quando as lemos, as dedicamos, ou quando ganhamos voz através do outro. Abrir aspas é deixar o outro se comunicar por si. E ela abriu as de Vinícius de Moraes na sua carta. Sem coragem de dizer quem é, a anônima que já amo confiou no poetinha para grifar, em todas as pá…

Vulto e clarividência

- Meu lugar preferido para vê-la. Remete alguma experiência pós-morte. - Como assim?! Tu tiveste alguma experiência dessa? - Não, mas imagino assim alguma forma de paraíso. A visão um pouco turva com uma imagem serena como passa nos filmes. - Tu tens sido uma boa menina? - Ah, não me faça pensar nisso, Lari, não faça do meu paraíso o purgatório com suas perguntas filosóficas que causam crise existencial até em uma criança.  - Eu sei ser o inferno, “Margarida”, através de um ponto de interrogação. - Eu também não duvido que o diabo tenha essa aura celestial. As pessoas o deixam muito caricato, mas creio que ele seja bem sedutor. - Estás sentindo este cheiro de fogo e ar abafado? - Hahahaha... Sempre grata à companhia de plantão, de chão, de colchão, de boas conversas despretensiosas e ecumênicas. Entre pesquisas e textos, nossos intervalos de criação foram recheados de boas risadas.

Sobre o amor de (se) silenciar (retificado)

- Não sei se devo me orgulhar por ser a mulher que te cala.  - Tu não me calas. Tu me silencias. E, em um mundo em que milhares de vozes querendo ser ouvidas tornam todas inaudíveis, não há nada mais sublime. *** Ser é presenciar. Presença é segurança. Impublicáveis e amáveis. Amém! Paixão deve ser essa overdose de si mesma, apenas porque sou tão bela ao olhar dela... Ao silêncio dela. Maturidade: a chance de ter um romance tórrido sem se queimar. Atraio dela passos mudos num salto caqui, olhar de reticências e jogadas linguísticas desnudas. Eu, mais jovem, mais inexperiente. Bobinha aproveitável Lolita dos sonhos das aproveitáveis narrativas femininas. Minha postura profissional inevitavelmente se tomba ao seu beijo soprado quando fica só comigo, seja por marca do seu território ou por brincadeira, por descaso ou cansaço. Glamour das reuniões – ela feliz na ponta da mesa, e eu na outra. Monte de gente entre nós... Aquela piscadinha cúmplice e o mundo é apenas nós duas. O silêncio é …

Sobre o amor de (se) calar

Os símbolos da construção de uma relação são interessantes. Disse-me ela, olhando para A Força do Querer: - Se um dia casarmos, em vez de arroz, vamos pedir uma chuva de mignon sobre nós. Continuou: - Eu seria muito feliz comendo mignon todo sábado de manhã contigo. Continuou: - Eu odeio mignon com cerveja ou durante uma cena interessante de final de trama, mas, cotigo, tudo que eu odeio fica bem. As frases que eu escutei, enquanto dialogava grunhidos com bocadas de mignon mastigadas, me parecem inevitáveis que, para o resto da vida, os biscoitinhos mignon me lembrem dela. Mesmo que nossos caminhos se tornem diferentes um dia, já há eternidade em tudo que complete o coração, tome outra forma quando aberto e aquecido com as mãos, enchendo-as e ficando liquefeito e mais gostoso. Ressignificamos a vida por quem passa por nós. É bom que seja assim – Meu silêncio digeriu. Ela continuou: - Amo tudo o que a tua pele diz. Arrepiou minha liberdade, me esfarelando toda. Continuou: - Sempre ach…

Da minha criança (ou Tempo Presente)

E toda aquela infância
Que não tive (como as outras comuns)* me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Questionei-me nesse último dia 12: por que falamos sempre da infância (ou nos referimos a ela) em tom casimiriano de tempo longínquo e nostálgico? Em meio a tantos livros, uma fábula audiovisual da Disney é a minha história favorita de criança: O touro Ferdinando. Esse protagonista que vivia em meio a um código predestinado e prenominado aos touros – agressividade, competição, intrepidez – porém se regrava a uma vida paciente, só e aprendendo o que é a liberdade de si mesmo. Continuou livre, paciente e só. Ferdinando marcou-me. Pelo tamanho da pele na completude sensível de sua alma. Ele era (e sou) eu em vida desde quando assisti ao desenho... Mesmo criada em meio ao tabu padronizado de beleza competitiva entre outras mulheres acomodadas que buscam do casamento ideal e perfeito às fofocas da família, era eu a fugidia desse círculo. Quando se davam conta que eu não estava ali…

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Interpretação velada

A segunda noite. A segunda fileira do teatro. A segunda vez. A segunda voz, a minha alma ouvinte. A segunda sonata de Chopin, as segundas intenções de George. Segunda-feira. Estrofes de Musset em linhas compostas de Liszt. Segundo amigos, os coveiros tinham de levar o ataúde com a lentidão da humanidade, ora em partitura, ora em poesia. Diversas notas de seus noturnos continuaram no monólogo dela. Era uma biografia de pareceres alheios. Eram vinte vidas em oitenta anos... A voz dela! Ela tem uma voz! A voz dela é o mais fio veludo do feminino. As palavras proferidas por ela ganham vestidos de gala aos meus ouvidos. Ouvi-la: os olhos podem seguir fechados ou abertos em posição de sonho. A voz dela guia a dança entrelaçando pontos, vírgulas e valsa de sintagmas. Ela é reticente. Questão de confiança, amabilidade e até de paz. Detalhe: sabe-se o verdadeiro significado de não dormir de tanta paz. Ouvi-la: calçar o salto mais alto e devagar ser pétala que desliza junto ao caminho da rosa-…

No fundo de si, mas na base de um relacionamento

Repara bem. Mesmo quando te afundas no breu da profundidade de ti mesmo, há sempre um rastro de luz para trazer-te de volta. Repara bem. Quando mergulhamos, nos sentimos como anjos de nós mesmos, voando para baixo. Saudade é querer dividir contigo tudo o que não consigo ver sozinha. Tudo que move é sagrado. Aqui dentro e lá em cima, na base. Lá em cima, sabes como é um início de relação: os assuntos ficam suspensos e há cuidado excessivo com as palavras.  Mas tudo o que precisava ser dito, foi. Mergulhei com aquelas conclusões tristes de renúncia, de paixões mal resolvidas e essa necessidade imensa de ser autossuficiente e ter certeza, ao regressar para a base, da escolha de estar junto a ti porque não há outro meio, outro rastro de luz que não seja tu. O raso tem me apavorado! Eu tinha me avisado que o sangue é mais denso e cego que a água. Tu sabias e disseste que torcerias para eu não sentir tua falta. Pareceste-me sincera. Tanto que, quando voltei à base, lá estavas tu me gratifi…

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Depois do expediente

Foges comigo para o meu lugar preferido? Quero preencher contigo a agenda vaga dos meus dias. Claro: palavra que abre caminhos. Seja no aceite, no amanhecer ou no deitar do expediente à cara do entardecer. Aeroportos e aviões e idas e vindas já me despertam normalmente uma sensação de não-pertencimento e nostalgia. Se a chuva cair... A chuva dilata qualquer sentimento. Não. Não disfarces covardia com propensão à calmaria. Joga-te, confia e ajuda-me: sê interessante, fala de ti e do mundo. Não te quero em foto perfeita, de profissão sem paisagem, de pose, de posse de cargo ocupado, de efeito e pouca comunicação. Quero-te verdade e despretensiosa porque tens emoção, tens história. Tens troca e visão além dos olhos. Ver-te beleza do dia-a-dia sem que seja nos nossos encontros e destinos passageiros.  Quero-te que me permitas ser triste e isenta. Fala do que vês, do que lês, do que sentes, do que queres. Dá-me a vontade de puxar a cadeira e servir um mate (ou passar um café). Sugere-me t…

Arcadismo e personagem

- Se um dia me contassem que eu me apaixonaria por uma ruiva, branquinha, rodando vestido florido em um amanhecer de vendaval contorcendo os trigais, eu diria que tal projeto de poesia neo-árcade é fraco, excessivamente romântico e sem criatividade. - Fico tranquila em saber que tu te negarias a fazer esse papel clichê. - A tua capacidade de incrementar versos e roteiros é impressionante, Larissa. - Alguém tem de quebrar a obviedade de um poema tranquilo e bucólico. - Bom saber do teu empenho para me fazer aceitar o papel. - Ah, que ardilosa és! - Há quem caia nas próprias armadilhas. - Deusas e poetas nunca dormem... Precisam zelar o sono alheio e sonhar antes. - És Deusa ou Poeta, Larissa? - Qualquer coisa desapegada entre uma e outra... O nome é de Deusa, mas os pecados são de Poeta.

Quando o mundo é o cortiço

Enquanto o mundo girava mais rápido pelos jornais que em torno do Sol, no andar da cobertura lá estava D’us em Sua cadeira de balanço. Ouvia-se, ao fundo, a voz de Elis Regina. D’us estava se distraindo na eternidade ao som de Casa no Campo...  Mas como ser onipresente que é, Seus ouvidos também atentaram para um burburinho fofoqueiro que citavam seu santo nome em redes sociais. Levantou-Se num rompante e pôs-Se a caminhar, meio cambaleando as cadeiras e as pernas por conta da idade, ora apoiando as mãos na parte lombo-sacra de Suas costas, preocupado em saber por que Seu nome era arquejado. D’us não é um cara de ter mídias sociais. Sempre achou antagônico ter senha para tudo, visto que a publicidade disso visava alcançar a todos (e até os “recalcados”). D’us ainda nem dispõe de tempo para tais mesquinharias, pois ao cuidar desta grande creche chamada Terra, o domínio de algumas salas às vezes torna-se inviável. São alunos problemáticos. D’us chama: - Arcanjo! E lá estavam todos os a…

O homem que insultava o mar

Enquanto eu passava temporada numa praia gaúcha, há mais de dez anos, deparei-me com aquele jovem senhor situado numa rocha costeira, a proferir insultos ao mar. Xingava-o, blasfemava-o. Suas palavras de baixo calão tinham peso de elegia. Uma rima perfeita entre seu corpo fraco cobiçado com a impotência do maldizer. Atirava-lhe restos de pedregulhos quando as ofensas se repetiam, pisava em seus marulhos a cada encontro com seus pés, a cada falta de como humilhar aquele gigantismo do mar. Com uma amiga, eu realizava minha caminhada matinal pelo mesmo trajeto. E lá estava ele contra o mar. Estaria ele embriagado? Indagou a moça ao meu lado. O jovem senhor percebia já na sua esqualidez a despreocupação com a própria sobrevivência, a vitamina era absorvida na energia de seus insultos ao mar. Comida perdera-lhe até então o significado. Porém, de onde incidia a fortaleza de seus insultos? Completei com mais dúvida. Era como se um ódio débil e triste socorresse-lhe a própria vingança. Ele e…

E

Extenuada, exacerbo emoções. Escrevo, exprimo, expresso. Efeito: espasmos, ecos espirituais estrondosos. Educo elogios elegendo esperança. Elimino embaraços elevando ensinamentos. Eternizo efemeridades excluindo edições. Exercito estímulos explorando experiências. Economizo energia efetuando estabilidade. Elaboro enredos executando expertise. Engulo egos e entrelinhas. Emulo edificada egressa em ebriedade. Ejeto exílio existindo êxito excitado. Excluída, existente, exequível. Extrema, exultada, exaurida, exumada. Encaderno encalistrada estranhamente encaminhada. Encargo encaixado esbanjando erotomania. Ela. Erradicada escansão escanifrada em esquálida epopéia. Escada. Encruzilhada extinta: estilhaçada, emudeço, enfim. Espero esquecimento. Emudeço extinção. Esquizofrênica, eu?! Engraçada e excelente. Encerro espetáculos enganando espectadores. Escapo escondida espiando especulações. Espiando encontro. Espetacular, especular e esquisita. Especialmente enaltecida, eloquente, estendida e…

Qual minha dor, Afrodite? O teu medo.

Enquanto Safo descrevia a vicissitude das linhas corpóreas d’um deus grego frente a sua amada dele (e dela), a poeta se incompreendia entre o desejo e o ciúme. Ora, moça, desejo e ciúme são irmãos.  Foi o que observei dos dois naquela passagem festiva que vivi. Para ela, o marido, um deus grego no qual ela apoiava uma busca-amostra de amor e carinho aos olhos de todos com seus frágeis braços morenos em volta d’um pescoço velho e flácido, aos meus olhos. Pela primeira vez meu segundo corpo, o de dentro, entrou em consonância com o primeiro, o do ambiente.  Meu segundo corpo, apenas uma voz que conta toda sua escuridão, antes esquecido como oco, mas nada é oco, é deslizante como óleo e inconfundível guia que acha o fim do labirinto entre paredes moles. Do avesso é medicina, lugar escuro como a noite da festa. Boa noite, coração danadinho. Então és tu que reages repetindo o som surdo de suas partes moles e orgânicas com frenético sangue corrente, rápido, epidêmico, furioso, maquinal. Qu…

Ontem asas, agora, garras.

Numa dessas raras vezes que a sobrevivência não é algo contado, enfim, abro a janela, e não foi o dia que clareou mais uma manhã para ser. Foi o olor de infância que se adiantava concorrente com a velocidade que trespassei quase quatro décadas existindo. Era uma velocidade silenciosa daquela ser pequena incipiente de deveres e consequências. O Cheiro da Terra do Meu Quintal. Faz tempo, ignorante cresci sem dar-lhe espaço de inspirá-lo. Coube em mim compromissos de ar. Coube engrandecimento das asas. Coube, hoje, o pouso entre-quedas nesta mesma terra que cheira tão gostoso em meu quintal, quando ainda engatinhava. Possíveis retratos que desafiam o conceito de Nietzsche ao referir-me à História: a esperança não olha para trás, mas a atrai para qu’eu troque as asas pelas garras em total símbolo (de luta) pela liberdade. A própria casa, o olor do quintal. A brincadeira perene, o perfume da roupa em dias de bonança. O cheiro é o impulso do outro. Aquela coisa mansa, de casa, de ficar à v…

Um tato

Dizem que, quando transbordamos imageticamente do outro, devemos fechar os olhos para retirar essa personalização de dentro de si, colocando a pessoa sonhada em nossa frente para realizar com ela aquilo que sua angústia pede. Eu assim a abracei tão forte. Uma coisa sua que ficou em mim, sem fim, sem apelo a vida. Assim, a saudade é um tempo de dói. Um tempo que voa... Entre aeroportos. Um tempo que suspende o sofrimento sorrindo escapismos orgulhosos. Um tempo com essa vontade de voltar para ontem que se cura com o amanhã. Tenho sido gentil com quem me abre caminhos. Em todos os lugares do mundo que eu for, eu fotografo a paisagem mais bela se tu estiveres junto (pelo menos, o meu pensamento em ti). Num retrato, Amor é sombra em calor escaldante, enquanto o inverno, aqui-externo, é a preguiça do sol. Ela é um tato cego. De um lado a pose, d’outro o ensaio: jamais saberia ser bela, atraente e sensual se me pedisse que fosse. Eu, talvez, tornar-me-ia algo bizarro fidedigno d’uma risada…

Antes do voo

Mais vale a rapidez eficiente do artificial ou a lentidão bela do natural? Qual foi a última vez que tu choraste por algo que realmente te arrebatasse sem consentimento ou controle?  Aconteceu comigo. Eu me despediria da querida que muito amo. Iria onde encontrá-la. Abraçar-lhe-ia. Seria um final de manhã de sábado dela. E não consegui. Tive de cancelar por causa de uma correria, uma reunião, uma hora e outra. Passei sem olhar para os lados. E eu tive medo... Logo mais haveria eu de estar no aeroporto de Santa Maria. E mais medo. Muito medo de o tempo não ser algo qu’eu possuísse para abraçá-la. Para o tanto que quero lhe dizer o quanto a amo e sou-lhe grata por tudo qu’ela faz, fez e quer fazer por mim.  Eu chorei de tanto amor, de tanto sentimento arrebentando o meu peito, o coração acelerado de tanto medo qu’ela nunca saiba o quanto. É a única coisa em que não posso falhar na vida. A única.  Tempo, por favor, para ela, por ela, passa devagar.

A calma despida

Ela pediu a minha calma emprestada, “essa serenidade de quem sabe muito bem o que fazer, sempre”. Eu não sou capaz de negar nada a ela. Sorrio com consentimento e visto pacientemente, enlaçando faixa a faixa, seu robe jogado no chão, tirado às pressas por algum motivo torpe... Estou certa de que quando ela vesti-lo novamente e se aninhar nos problemas do dia, qualquer resquício do meu olor despertará nela a tranqüilidade de me saber efêmera, mas marcante. Invasiva em qualquer detalhe cotidiano, persistente nas memórias e no laço da cintura, nas linhas entreabertas das pernas e dos seios, nas palavras. Observadora no brilho acetinado das luzes compostas de colo. A paz daquela que nunca parte, nunca esquece, nunca deixa de.
Veste a minha calma, querida. 
Então eu descobri o quanto ela me ama quando percebi qu’ela sabia – sem que eu dissesse ou exigisse – como eu adoro o lado mais álgido da cama. Apenas de observar a maneira como eu me ajeitava encolhida, muito mais prazerosamente entre…

Entre a saudade e o verbo ir, o Número

Quando o resultado de toda equação somada, multiplicada entre velocidade, distância, data e batimento cardíaco se resultará em nós duas? Quando a pressa deixará de ser inimiga e passará a ser a sabedoria que não se importa com a perfeição, com qualquer cara de cansaço assim que chega ao aeroporto, correspondendo com afã beijante ao sentimento sincero da espera? Saudade foi feita de cálculo. Mas, ao contrário, ela não é fria. Dias de numerosas contagens regressivas ou de resultados desistentes se a subtração das horas é também dividida com os decimais cotidianos da falta de tempo. É preço das passagens, é o acúmulo de novas frações para aproveitar cada segundo a espera de um lucro de afago. Foi distância de estrada e de meses. Qual das duas parece ou diz que é impossível? Por qual delas chego primeiro? Se a fórmula sintetiza os passos, por que a abstração da solução não se aplica no método para alcançá-la? É resultado poético da tristeza. Geometria apenas para ser holograma do sincero…

Crônica-epistolar: entre outras e todas

Sabes, pequena, alguns tesouros apenas reluzem no escuro, e, quando eu apaguei a luz, foi a tua voz que ouvi chamar. Sim, amada, a voz também reluz. Talvez seja uma premissa sábia assumir-se imensa em um segredo, embora triste. Falando de tristeza, deixa-me com ela. Falando disso, ponho aqui a palavra e na borda do copo qualquer clichê de amor mal-resolvido. Quando um amor que a gente inventa se transforma em piedade, crio um blues melodiando a minha ideologia: Senhor, dá-me coragem, porque esta carta seguirá cantando à Beija-Flor... O vocativo aqui és tu, em minha solitária confissão que te ilude, um dia. Confesso, sim, que quisera eu te ter entre as minhas mãos e a cama, entre o agora e o sempre. Entretanto te tenho entre o talvez e o quase, entre um gole e uma mordida. Sim, pequena, morena, tem pena, eu quisera te ter entre os meus desatinos e minhas faturas, entre meus livros e controles, entre o trabalho e o domingo. Entretanto te tenho entre minha voz e um segredo, entre o escu…

“Morena, tem pena. Ouve o meu lamento”

O que me faria a maior vitoriosa? Ter a cor bronze dela constantemente envolvida no meu pescoço. Ela, a morena-flor, ostenta essa medalha no peito. Quando dá às costas, os cabelos escuros, curtos, nulos de segredo com o resto do corpo, querem a vulnerabilidade do arrepio. Cabelos curtos – a nuca contornada pelo ondular final da minha imaginação escorrida com os dedos – o susto da alma, o assalto do coração, o suspiro dos poros. Quando ainda falta cama, o desejo de mudança serve café-da-manhã no colchão: “num dia é boca, é pele, é paixão. Noutro é espera, é relógio, é desilusão...”. O que ela lê nos meus sinais de fogo? Será poesia expectrada em quentes expirações confessionais? Ou mais um vício que descansa? Pelo menos, a morena-flor sabe, de longe, que conviver comigo implica me encontrar sempre próxima ao frio, da escuridão, das plantas, em posições estranhas: lendo, despindo-a das páginas. Posso realizá-la através da personagem. No fim deste recurso, a inanidade abstinente da alma…

Voa beijo em asa de borboleta

Sua tela aceita cores: seja arco-íris, seja tempestade. Ela detesta o sol, que compete com a clara dúvida de sua pele sobre o que nela se pincelará. Pele alva na qual o batom dita a regra escarlate e voa beijo em asa de borboleta. Pele de maravilhosa cor-de-inverno, cuja vacuidade de olhar para ela aterrissa o tempo e esfria os passos frenéticos em prol de apenas... Olhar para ela. Ela beija flores! Voa. A nítida boca agora é pétala estagnada na cara, na boca, na nebulosa mística de espalhar polens lembrados. Democrática, ela não sabe o significado de segredo e partilha diálogo de suas cores pejando beijos. A boca dela quase nunca fala; mas faz! Claro, deve ser isso o amor: qualquer coisa diferente das palavras. É um erro os poetas, que escrevem tanto sobre ela, não citarem que na sua tela também adorna a coroa bela e grega de sua seriedade, esse quê de cientificismo, sempre com óculos... Homens nunca a amaram pelo que ela pôde enxergar. Eles a amam pelo seu palpável presente. Mas el…

“Não era mais a mesma, mas estava em seu lugar”

(Texto adaptado da crônica que recebi dos alunos)
Deixou a bolsa, pegou o giz. Ainda não havia sorrido. Seus alunos se organizaram e, agora, esperavam os ciclos daquela letra que constelava novas histórias naquele deserto escuro de um quadro-verde. Escreveu o título, olhou-o. Não sorriu. Não contou anedota. Abaixou a cabeça e suspendeu o punho sobre o apoio do giz... Com o outro punho, cobriu as narinas. Olhou o título do conteúdo, esquivou o olhar da turma, que já procurava saber o que houve. Por que sem piada? Cadê a risada? Cadê, depois, o grito vociferado que silenciava a todos? Tremeu a voz continuando a olhar para aquele infinito verde-escuro. Algo sem conteúdo para inventar, como na música, um machado que quebrasse o gelo e a despertasse daquele pesadelo que, por ora, somente ela carregava... Fazendo jus ao título, então, ela se tornou uma heroína trovadoresca. Ergueu do desespero a coragem de um machado e quebrou o gelo soluçando-o derretido em lagrimas copiosas. Todos os alu…

Resposta (“ainda lembro que eu estava lendo...”)

Intransigente, exercito a vaidade e o corpo até torná-lo inapetente. Indissociável da minha totalidade afim de que nada em mim seja vulgar ou descartável. Deve morar aqui, em mim, a melhor liberdade. Procuro alguém que aceite assim: aparentemente faltando um pedaço, mas é só descuido de quem quer se despir da sua completude para encontrar e vivenciar no outro a metade que nunca soube ser. Então, podes esquecer a cor do meu vestido e a profundidade do meu decote. Esquece quantas doses de uísque trouxeste para mim, no entanto não te esqueças daquela conversa íntima, ao pé-do-ouvido, compactuando a contribuição histórica dividida no jardim... Sobre o glamour da intimidade, antes coragem que prepotência, antes o erro que a indecisão, antes paciência que esperança, antes experiência que exatidão, antes instrução que conclusão. Quem sabe, meu amor, deixemos a saudade desbotar. Até que reste a plena vontade de sermos silêncio de duas almas pisando sobre o assoalho ou folheando livros. A voz…

Candinho, Toninho...

Entre os alunos é o Candinho, raramente Toninho. Melhor dizendo, professor Candinho. Numa aula magna disse a nós para amarmos a Literatura Brasileira - talvez parafraseando Cristo automaticamente concluindo em “assim como amei meus alunos”.  Assim, logo pedi a Literatura em matrimônio. Já éramos muitos anos de relacionamento, desde os meus castigos na Biblioteca quando criança, depois passando pela Federal do Rio Grande do Sul e chegando à Universidade de São Paulo. Candinho, melhor dizendo, Antônio Cândido vestiu o poder milagroso do seu xará Santo Antônio e se tornou o santo-casamenteiro entre a pessoa e a palavra. Amar a literatura. Para isso, Candinho acolhia franciscanamente seus alunos. Tive a honra. Na primeira vez, há quase uma década atrás, indaguei boba ao meu colega de doutorado: É aquele do Discurso e a Cidade? Enfim, sim, estive eu sob a dialética do malandro que rompia a barreira do livro-massa para que conversasse em carne-e-osso com Candinho. Professor Candinho, figur…

Depois de abril: dos textos por correio que conquistam (e convencem)

“aeronaves seguem pousando sem você desembarcar...”
Minha campainha espera o seu, aliás, o teu toque. A porta quer que por ela passes. O tapete, que o pises sem dó. Caso queiras, tira o teu sapato oxford, fica à vontade, a casa é tua. Meu sofá quer que te acomodes desmanchada como tua maquiagem fugidia com a garoa de São Paulo. Meu abajur, iluminar-te. Meus livros, que os folheies. Se quiseres, eu leio para ti a insustentável leveza do ser... São apenas trezentas páginas... Meu fogão quer cozinhar para ti, esquentar a água para o teu chimarrão. Meu refrigerador cuidar de tua sobremesa. Meu freezer conservar o gelo dedicado ao teu uísque. Meus pratos servir-te. Meu toca-discos quer te tirar para dançar, as taças, te brindar, as paredes, guardar nosso segredo... Por fim, algo nosso. Se quiseres, podes ficar. Não importa o que a vizinhança vá pensar... Minha cama quer te aconchegar, meu lençol se impregnar do teu cheiro, o meu relógio, que as horas tardem a passar. Se quiseres, podes me …

Terceiro tema

E é fato que não sabemos se voltaríamos a encontrar o que deixamos o tempo ruir fechando os olhos mas mesmo assim eu... mesmo assim eu... queria tentar.
Náufrago com o corpo cansado no breu aguardo a tempestade decidir se me atira outra vez as tuas praias ou se enfim me leva às rochas pra descansar.
E é tudo tão covarde... deixar morrer as chances por medo que barcos de papel não suportem as cargas clandestinas que fingimos não acumular com o tempo...
E é tudo tão impossível...
Vira a mesa, vira o jogo, vira a casaca e a roleta. Vira saudade, vira poesia. Vira a página e o disco. Vira notícia, vira samba, vira lata, poeta e do avesso. Vira à esquerda, à direita, vira a via. Vira santo, criança, lobisomem, vira o tempo. Vira o dia, o mês, o ano. Vira o tempo. Vira. Fluência, enfim... Assim como o amor ama através de mitos e serás. A jornada é extensa e por ela multiplicada, mas levada ao longe. Todo o cansaço seria recompensado se eu apostasse diretamente que te alcanço. De quantos livros ela precisa …

Sobre poesia romântica e indiretas: mas, por que não diretas?

Assim questionou minha aluna sobre os versos de Álvares de Azevedo. Pensei sobre mim, que, ao contrário do poema, não era um pesadelo mentido aquele momento. Contraste de gerações entre o poeta e a aluna. Eu me encontro no time do Álvares. Invejei o hoje: tudo normal, sabe-se, gosta e se desgosta. Tudo normal. Tudo belo. Não se perde, não se ganha. Beija sem encontrar antes o que pode lhe fazer bem. Não há pensamento. Meus jovens filhos-de-livro seguem a linha pessoana! Ser direto que a vida num momento se sente dentro e maior em si! O Passado para esta geração dorme... Dorme jovem como o poeta questionado no princípio. Não há confessionário, há fé. Há D’us sem cobrança de religião. A distância significa que a vida é demasiadamente veloz para não estar com quem se ama. Gostar de alguém, elogia; diferente da minha geração que se reprime com medo que a indiferença possa negar o status de conquista e felicidade. Como se a felicidade estivesse ligada a conquista... Tão distante o sonho q…

Carta-aberta-de-saudade à minha São Paulo

Como o veloz bater das asas de um colibri, rápido bate o meu coração de saudade e vontade de voltar para a minha cidade. Que saudade de você, São Paulo! Cidade progresso, cidade dos museus, das casas literárias, das casas diurnas e casas noturnas, que não se recolhe num aposento qualquer. Cidade que exclama seu nome com Demônios da Garoa: Isto é São Paulo! Cidade ambiental do belo Ibirapuera, cidade olhar do belo pessoal transeunte que pelas suas ruas e avenidas percorre. Cidade inteligência! Cidade educação. Cidade que acontece. São Paulo, menina colegial fundada em 1554, moça Paulicéia que os poetas modernos se puseram a admirar no Theatro Municipal. São Paulo que me acolheu como mãe em seu berço de total aconchego cultural. São Paulo, minha ama-de-leite de suas bibliotecas ao ar-livre, alimentando com seus seios a história de cada pessoa que em você busca o crescimento saudável da sabedoria. Embora tenha eu nascido longe de você, posso afirmar que de sua terra paulistana eu renasc…

A linha tênue entre a convenção e a convicção de amar

- Perdoa-me por me intrometer, mas não me agrada o caráter do seu marido. - Você percebeu em tão pouco tempo o que ele é pra mim. - É bárbaro. Cruel. - Sim, mas o quê posso fazer? Eu o amo e o aceitei diante do altar. - O que são as convenções quando se trata de passar a vida inteira ao lado de um crápula. Com perdão da palavra, um estupor! Ele não a merece. - Sem falsa modéstia, eu também acho que sou boa demais para ele. No mais, fui criada para isso, para ser assim, embora sinta a crueldade. - Confesso que fico espantada com tal revelação. Uma jovem senhora tão perfeita, digna de todas as classes de elogios... Difícil acreditar que aceite a convenção familiar machista e que ainda tente justificar e defender a própria submissão! - Compreenda, eu nasci e cresci numa base estrutural dessa maneira. Meu pai, sempre muito austero e rigoroso, educou a mim filha assim e minha mãe se calava. No entanto, nunca me ocorreu que tais atitudes pudessem ser... - Incivilizadas, no mínimo, para diz…

Seu doutô!

“Pelos teus exames vejo que tu tens o perfil de um jogador! Jogador de baralho de primeira!” “A-do-ro. Quando o vencer é equipado com jogo, conheço como é tratado o poder. É dizer, posso interpretar o caráter do meu adversário.” “Lari, dizer que tu chegas a conhecer o caráter de uma pessoa através do jogo de baralho é uma afirmação muito forte.” “Meu caro, o poder é o amálgama do caráter.” “Ah, como posso te recomendar academia?!” “Dizia Nabokov, caro médico: cada vez mais sábio, cada vez mais gordo. Meia-hora a mais que tenho de leitura!”
Não, não é somente o pastor que vende terreno no céu, também é o médico que ilude a todos com a eternidade prometida na escravidão da saúde. A cada ano, a cada semestre, a cada dia são recomendados atos cotidianos obrigatórios, assim como o voto, para manter a vida um pouco mais iludida com a imortalidade na escravidão da saúde. Diminuir para metaforicamente diminuir o gosto pela vida. Mas o que é a morte senão a cinza embevecida d’um cigarro corpor…

Entre espirros e gozos

- Oi... - Fala, tchê... - Eu quero dormir com alguém hoje. - Boa sorte. - Juju! - O que foi? Tu disseste que queria dormir com alguém. - Tá bom. Tá bom. Eu quero dormir contigo essa noite. Satisfeita? - Melhorou.  - O que foi? Quantas noites de insônia acumuladas? - Três – disse a ela resmungando.  - Isso anda se agravando. - Ando trabalhando muito. - Isso quer dizer: ando introspectiva demais para me envolver com alguém em busca de um sexo casual que me faça dormir bem durante a noite? - Vai apostando. - Ai, Juju. Não complica. - Tens certeza? - Tudo bem, tu não queres, né?  - E tu vais bancar a difícil às vinte e três horas de um sábado à noite.  - Eu nunca banco a difícil para ti, Juju. E duvido que qualquer mulher desse mundo o faça.  - Que horas tu vens? - Agora, minha Rapunzel adormecida ao avesso. - Tu não esperarias de mim um enredo comum, sim?! - Ainda bem que não, não carregas jeito de princesa. - Ainda bem que tu me sabes. - Falou a anti-herói que, em vez de procurar a sua…