Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2017

Crônica-epistolar: entre outras e todas

Sabes, pequena, alguns tesouros apenas reluzem no escuro, e, quando eu apaguei a luz, foi a tua voz que ouvi chamar. Sim, amada, a voz também reluz. Talvez seja uma premissa sábia assumir-se imensa em um segredo, embora triste. Falando de tristeza, deixa-me com ela. Falando disso, ponho aqui a palavra e na borda do copo qualquer clichê de amor mal-resolvido. Quando um amor que a gente inventa se transforma em piedade, crio um blues melodiando a minha ideologia: Senhor, dá-me coragem, porque esta carta seguirá cantando à Beija-Flor... O vocativo aqui és tu, em minha solitária confissão que te ilude, um dia. Confesso, sim, que quisera eu te ter entre as minhas mãos e a cama, entre o agora e o sempre. Entretanto te tenho entre o talvez e o quase, entre um gole e uma mordida. Sim, pequena, morena, tem pena, eu quisera te ter entre os meus desatinos e minhas faturas, entre meus livros e controles, entre o trabalho e o domingo. Entretanto te tenho entre minha voz e um segredo, entre o escu…

“Morena, tem pena. Ouve o meu lamento”

O que me faria a maior vitoriosa? Ter a cor bronze dela constantemente envolvida no meu pescoço. Ela, a morena-flor, ostenta essa medalha no peito. Quando dá às costas, os cabelos escuros, curtos, nulos de segredo com o resto do corpo, querem a vulnerabilidade do arrepio. Cabelos curtos – a nuca contornada pelo ondular final da minha imaginação escorrida com os dedos – o susto da alma, o assalto do coração, o suspiro dos poros. Quando ainda falta cama, o desejo de mudança serve café-da-manhã no colchão: “num dia é boca, é pele, é paixão. Noutro é espera, é relógio, é desilusão...”. O que ela lê nos meus sinais de fogo? Será poesia expectrada em quentes expirações confessionais? Ou mais um vício que descansa? Pelo menos, a morena-flor sabe, de longe, que conviver comigo implica me encontrar sempre próxima ao frio, da escuridão, das plantas, em posições estranhas: lendo, despindo-a das páginas. Posso realizá-la através da personagem. No fim deste recurso, a inanidade abstinente da alma…

Voa beijo em asa de borboleta

Sua tela aceita cores: seja arco-íris, seja tempestade. Ela detesta o sol, que compete com a clara dúvida de sua pele sobre o que nela se pincelará. Pele alva na qual o batom dita a regra escarlate e voa beijo em asa de borboleta. Pele de maravilhosa cor-de-inverno, cuja vacuidade de olhar para ela aterrissa o tempo e esfria os passos frenéticos em prol de apenas... Olhar para ela. Ela beija flores! Voa. A nítida boca agora é pétala estagnada na cara, na boca, na nebulosa mística de espalhar polens lembrados. Democrática, ela não sabe o significado de segredo e partilha diálogo de suas cores pejando beijos. A boca dela quase nunca fala; mas faz! Claro, deve ser isso o amor: qualquer coisa diferente das palavras. É um erro os poetas, que escrevem tanto sobre ela, não citarem que na sua tela também adorna a coroa bela e grega de sua seriedade, esse quê de cientificismo, sempre com óculos... Homens nunca a amaram pelo que ela pôde enxergar. Eles a amam pelo seu palpável presente. Mas el…

“Não era mais a mesma, mas estava em seu lugar”

(Texto adaptado da crônica que recebi dos alunos)
Deixou a bolsa, pegou o giz. Ainda não havia sorrido. Seus alunos se organizaram e, agora, esperavam os ciclos daquela letra que constelava novas histórias naquele deserto escuro de um quadro-verde. Escreveu o título, olhou-o. Não sorriu. Não contou anedota. Abaixou a cabeça e suspendeu o punho sobre o apoio do giz... Com o outro punho, cobriu as narinas. Olhou o título do conteúdo, esquivou o olhar da turma, que já procurava saber o que houve. Por que sem piada? Cadê a risada? Cadê, depois, o grito vociferado que silenciava a todos? Tremeu a voz continuando a olhar para aquele infinito verde-escuro. Algo sem conteúdo para inventar, como na música, um machado que quebrasse o gelo e a despertasse daquele pesadelo que, por ora, somente ela carregava... Fazendo jus ao título, então, ela se tornou uma heroína trovadoresca. Ergueu do desespero a coragem de um machado e quebrou o gelo soluçando-o derretido em lagrimas copiosas. Todos os alu…

Resposta (“ainda lembro que eu estava lendo...”)

Intransigente, exercito a vaidade e o corpo até torná-lo inapetente. Indissociável da minha totalidade afim de que nada em mim seja vulgar ou descartável. Deve morar aqui, em mim, a melhor liberdade. Procuro alguém que aceite assim: aparentemente faltando um pedaço, mas é só descuido de quem quer se despir da sua completude para encontrar e vivenciar no outro a metade que nunca soube ser. Então, podes esquecer a cor do meu vestido e a profundidade do meu decote. Esquece quantas doses de uísque trouxeste para mim, no entanto não te esqueças daquela conversa íntima, ao pé-do-ouvido, compactuando a contribuição histórica dividida no jardim... Sobre o glamour da intimidade, antes coragem que prepotência, antes o erro que a indecisão, antes paciência que esperança, antes experiência que exatidão, antes instrução que conclusão. Quem sabe, meu amor, deixemos a saudade desbotar. Até que reste a plena vontade de sermos silêncio de duas almas pisando sobre o assoalho ou folheando livros. A voz…

Candinho, Toninho...

Entre os alunos é o Candinho, raramente Toninho. Melhor dizendo, professor Candinho. Numa aula magna disse a nós para amarmos a Literatura Brasileira - talvez parafraseando Cristo automaticamente concluindo em “assim como amei meus alunos”.  Assim, logo pedi a Literatura em matrimônio. Já éramos muitos anos de relacionamento, desde os meus castigos na Biblioteca quando criança, depois passando pela Federal do Rio Grande do Sul e chegando à Universidade de São Paulo. Candinho, melhor dizendo, Antônio Cândido vestiu o poder milagroso do seu xará Santo Antônio e se tornou o santo-casamenteiro entre a pessoa e a palavra. Amar a literatura. Para isso, Candinho acolhia franciscanamente seus alunos. Tive a honra. Na primeira vez, há quase uma década atrás, indaguei boba ao meu colega de doutorado: É aquele do Discurso e a Cidade? Enfim, sim, estive eu sob a dialética do malandro que rompia a barreira do livro-massa para que conversasse em carne-e-osso com Candinho. Professor Candinho, figur…

Depois de abril: dos textos por correio que conquistam (e convencem)

“aeronaves seguem pousando sem você desembarcar...”
Minha campainha espera o seu, aliás, o teu toque. A porta quer que por ela passes. O tapete, que o pises sem dó. Caso queiras, tira o teu sapato oxford, fica à vontade, a casa é tua. Meu sofá quer que te acomodes desmanchada como tua maquiagem fugidia com a garoa de São Paulo. Meu abajur, iluminar-te. Meus livros, que os folheies. Se quiseres, eu leio para ti a insustentável leveza do ser... São apenas trezentas páginas... Meu fogão quer cozinhar para ti, esquentar a água para o teu chimarrão. Meu refrigerador cuidar de tua sobremesa. Meu freezer conservar o gelo dedicado ao teu uísque. Meus pratos servir-te. Meu toca-discos quer te tirar para dançar, as taças, te brindar, as paredes, guardar nosso segredo... Por fim, algo nosso. Se quiseres, podes ficar. Não importa o que a vizinhança vá pensar... Minha cama quer te aconchegar, meu lençol se impregnar do teu cheiro, o meu relógio, que as horas tardem a passar. Se quiseres, podes me …

Terceiro tema

E é fato que não sabemos se voltaríamos a encontrar o que deixamos o tempo ruir fechando os olhos mas mesmo assim eu... mesmo assim eu... queria tentar.
Náufrago com o corpo cansado no breu aguardo a tempestade decidir se me atira outra vez as tuas praias ou se enfim me leva às rochas pra descansar.
E é tudo tão covarde... deixar morrer as chances por medo que barcos de papel não suportem as cargas clandestinas que fingimos não acumular com o tempo...
E é tudo tão impossível...
Vira a mesa, vira o jogo, vira a casaca e a roleta. Vira saudade, vira poesia. Vira a página e o disco. Vira notícia, vira samba, vira lata, poeta e do avesso. Vira à esquerda, à direita, vira a via. Vira santo, criança, lobisomem, vira o tempo. Vira o dia, o mês, o ano. Vira o tempo. Vira. Fluência, enfim... Assim como o amor ama através de mitos e serás. A jornada é extensa e por ela multiplicada, mas levada ao longe. Todo o cansaço seria recompensado se eu apostasse diretamente que te alcanço. De quantos livros ela precisa …

Sobre poesia romântica e indiretas: mas, por que não diretas?

Assim questionou minha aluna sobre os versos de Álvares de Azevedo. Pensei sobre mim, que, ao contrário do poema, não era um pesadelo mentido aquele momento. Contraste de gerações entre o poeta e a aluna. Eu me encontro no time do Álvares. Invejei o hoje: tudo normal, sabe-se, gosta e se desgosta. Tudo normal. Tudo belo. Não se perde, não se ganha. Beija sem encontrar antes o que pode lhe fazer bem. Não há pensamento. Meus jovens filhos-de-livro seguem a linha pessoana! Ser direto que a vida num momento se sente dentro e maior em si! O Passado para esta geração dorme... Dorme jovem como o poeta questionado no princípio. Não há confessionário, há fé. Há D’us sem cobrança de religião. A distância significa que a vida é demasiadamente veloz para não estar com quem se ama. Gostar de alguém, elogia; diferente da minha geração que se reprime com medo que a indiferença possa negar o status de conquista e felicidade. Como se a felicidade estivesse ligada a conquista... Tão distante o sonho q…

Carta-aberta-de-saudade à minha São Paulo

Como o veloz bater das asas de um colibri, rápido bate o meu coração de saudade e vontade de voltar para a minha cidade. Que saudade de você, São Paulo! Cidade progresso, cidade dos museus, das casas literárias, das casas diurnas e casas noturnas, que não se recolhe num aposento qualquer. Cidade que exclama seu nome com Demônios da Garoa: Isto é São Paulo! Cidade ambiental do belo Ibirapuera, cidade olhar do belo pessoal transeunte que pelas suas ruas e avenidas percorre. Cidade inteligência! Cidade educação. Cidade que acontece. São Paulo, menina colegial fundada em 1554, moça Paulicéia que os poetas modernos se puseram a admirar no Theatro Municipal. São Paulo que me acolheu como mãe em seu berço de total aconchego cultural. São Paulo, minha ama-de-leite de suas bibliotecas ao ar-livre, alimentando com seus seios a história de cada pessoa que em você busca o crescimento saudável da sabedoria. Embora tenha eu nascido longe de você, posso afirmar que de sua terra paulistana eu renasc…

A linha tênue entre a convenção e a convicção de amar

- Perdoa-me por me intrometer, mas não me agrada o caráter do seu marido. - Você percebeu em tão pouco tempo o que ele é pra mim. - É bárbaro. Cruel. - Sim, mas o quê posso fazer? Eu o amo e o aceitei diante do altar. - O que são as convenções quando se trata de passar a vida inteira ao lado de um crápula. Com perdão da palavra, um estupor! Ele não a merece. - Sem falsa modéstia, eu também acho que sou boa demais para ele. No mais, fui criada para isso, para ser assim, embora sinta a crueldade. - Confesso que fico espantada com tal revelação. Uma jovem senhora tão perfeita, digna de todas as classes de elogios... Difícil acreditar que aceite a convenção familiar machista e que ainda tente justificar e defender a própria submissão! - Compreenda, eu nasci e cresci numa base estrutural dessa maneira. Meu pai, sempre muito austero e rigoroso, educou a mim filha assim e minha mãe se calava. No entanto, nunca me ocorreu que tais atitudes pudessem ser... - Incivilizadas, no mínimo, para diz…

Seu doutô!

“Pelos teus exames vejo que tu tens o perfil de um jogador! Jogador de baralho de primeira!” “A-do-ro. Quando o vencer é equipado com jogo, conheço como é tratado o poder. É dizer, posso interpretar o caráter do meu adversário.” “Lari, dizer que tu chegas a conhecer o caráter de uma pessoa através do jogo de baralho é uma afirmação muito forte.” “Meu caro, o poder é o amálgama do caráter.” “Ah, como posso te recomendar academia?!” “Dizia Nabokov, caro médico: cada vez mais sábio, cada vez mais gordo. Meia-hora a mais que tenho de leitura!”
Não, não é somente o pastor que vende terreno no céu, também é o médico que ilude a todos com a eternidade prometida na escravidão da saúde. A cada ano, a cada semestre, a cada dia são recomendados atos cotidianos obrigatórios, assim como o voto, para manter a vida um pouco mais iludida com a imortalidade na escravidão da saúde. Diminuir para metaforicamente diminuir o gosto pela vida. Mas o que é a morte senão a cinza embevecida d’um cigarro corpor…

Entre espirros e gozos

- Oi... - Fala, tchê... - Eu quero dormir com alguém hoje. - Boa sorte. - Juju! - O que foi? Tu disseste que queria dormir com alguém. - Tá bom. Tá bom. Eu quero dormir contigo essa noite. Satisfeita? - Melhorou.  - O que foi? Quantas noites de insônia acumuladas? - Três – disse a ela resmungando.  - Isso anda se agravando. - Ando trabalhando muito. - Isso quer dizer: ando introspectiva demais para me envolver com alguém em busca de um sexo casual que me faça dormir bem durante a noite? - Vai apostando. - Ai, Juju. Não complica. - Tens certeza? - Tudo bem, tu não queres, né?  - E tu vais bancar a difícil às vinte e três horas de um sábado à noite.  - Eu nunca banco a difícil para ti, Juju. E duvido que qualquer mulher desse mundo o faça.  - Que horas tu vens? - Agora, minha Rapunzel adormecida ao avesso. - Tu não esperarias de mim um enredo comum, sim?! - Ainda bem que não, não carregas jeito de princesa. - Ainda bem que tu me sabes. - Falou a anti-herói que, em vez de procurar a sua…

Somadas à prova proustiniana as perguntas realizadas (e lisonjeadas) aleatoriamente

Qual lugar mais seguro do mundo? - Qualquer tempo em qu’eu esteja lendo Fernando Pessoa.
Qual celebridade você gostaria de passar o dia? - Antônio Abujamra.
Você sempre soube? - Que a felicidade é uma ideia velha.
Quando você disse “eu te amo” pela última vez? - Eu nunca disse “eu te amo” pela última vez.
Quais são suas bebidas favoritas? - Justamente as que causam hipertensão. Cicuta é uma delas.
Qual foi o pior lugar que você já esteve? - Colégio Santa Maria.
Qual seu famoso bordão na sala de aula? - “Dúvida, angústia, depressão, estresse?”
Você acredita de cada um tem sua alma gêmea? - Depende do número dado pela expressão “cada um”.
Você tem tatuagem? - Uso apenas henna, pois as figuras me entediam rapidamente. 
Quando foi a última vez que você chorou muito, copiosamente, durante todo o dia ou por vários dias? - No velório do meu pai, há quase vinte anos.
Qual foi seu brinquedo favorito na infância? - Um radinho a pilha.
Quem foi a última pessoa com quem você falou ao telefone? -…

Enigma e comentário

Sobre a primeira semana de aula nas turmas de primeiro ano: literatura jesuítica. A tradição espiritual ocidental é baseada no sofrimento, disse-lhes. Ensina que D’us se deleita quando vê os homens sofrendo e se prostrando. E é por isso que as pessoas religiosas, quando prometem a D’us, prometem - e poderiam prometer: Senhor, se me concederes a benção, eu Te prometo que vou ler, todos os dias, às seis da tarde, um poema de Fernando Pessoa -, mas ninguém oferece coisa boa para D’us! Oferecem, pois, subir mais de quatrocentos degraus, de joelhos, oferecem sangrar seus calcanhares sobre cascalhos, oferecem deixar seu organismo fragilizado pelo jejum...  A ideia de um D’us sádico, que fica feliz com o sofrimento de Seus filhos, é horrível! Nunca leram nas escrituras sagradas que D’us criou um jardim de delícias. Assim fomos criados para a felicidade. Uma coisa de Bachelard: o Universo tem de encontrar o seu destino de felicidade. Afinal, como resolver com a literatura, os conflitos entre…

Escrevendo e cantando com minha “bebé”: uma proposta de estudos comparados com diversão

- Amor, tomei partido das leituras na tua estante enquanto estavas no costumeiro “exílio” em São Paulo. Ficas irritada por isso? - Claro que não, meu bem, desde que os meus livros não saiam de casa. - Estou concluindo as cartas de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. - Hahahaha... Espero que esteja eu te correspondendo melhor. - Aham... Chega a ser ridícula! – brincou encostando a sua cabecinha no meu rosto – Mas um ridículo gostoso e bem aproveitado, diferente deles. Se tu criasses heterônimos, não terias nada de “Álvaro”. - Nem Pessoa o tinha. Álvaro de Campos era um retrato enfadonho do entrave masculino. Como todo homem da época, existido para esbanjar fortaleza e secura, Fernando fez-se de Álvaro para conseguir objetificar a sua realização (literária). - Os relatos de Ofélia dizem que ele se portava extremamente carinhoso, romântico, cheio de piegas para com ela. - Sertanejo... - Hahaha, o quê?! - Tive uma ideia: vamos continuar a leitura juntas e eu te digo quais as músicas sertan…

Chance para o amor ser antigo e inútil

"Moonshine, take us to the stars tonight... Take us to that special place, that place we went the last time, the last time..."
A melhor demonstração de afeto e interesse é a despedida. As cartas também; pois são a expressão da distância. Principalmente as que ela me envia – por vezes endoidecida – com datas manuscritas entre uma lembrança e outra. A solidão me leva para longe. As despedidas me alcançam com longa reticência e me abraçam como um novo parágrafo que se espero do outro. Confiam a percepção da boa-sorte e a percepção que se preocupa. Confinam oximoros. Compõem letras.  São Chico, Amy, Leandro e Leonardo, Whitesnake, Tom, Vininha, Elis, Bruno Mars... Este último, lembrando-me os rastros que a lua já deixa nos cabelos dela. E ela ainda desafia: se compores uma música para mim, eu te componho uma vida inteira. Despedida desafia! Ah, a despedida é o amor que não dói. É o que Pessoa denominava uma qualidade de gente estúpida, julgando amar e se sentir amado, mas que pe…

Sobre aliança e acrobacia

A: E aí, Larissa?! Que achou do espetáculo? L: Metafórico. Principalmente a parte do anel de noivado e a acrobacia. A: ... (o olhar dela pedia uma aula) L: Aquelas inveteradas acrobacias dentro, ao redor do grande anel suspenso no palco, o véu vermelho despindo a artista e despedindo a mulher, que por obrigação do costume, acostuma seus sonhos nas acrobacias para ter um casamento. Os rodopios, então... Metáfora de um conservadorismo interpretado por uma mulher capaz pelo casamento.  A: Nossa, Larissa! Fe-no-me-nal. Me arrepiou! Sério, meu! Ninguém que eu tenha conversado me disse isso. É apenas um “gostei” e basta. L: O banquete, título do espetáculo, seria o alimento do antes e do depois do casamento, mas nunca do seu presente. Percebe, meu bem, que o presente dos noivos é se alimentarem um do outro. Enquanto ambos se dizimam da sobrevivência do outro, cansam a ilusão de que não há melhor alimento que eles, apenas, até que sua realidade recorra cada verdade de indivíduo ao banquete.…

Àquela que me espera

"Vem iluminar meu quarto escuro, vem entrando com o ar puro. Todo novo da manhã, vem a minha estrela madrugada, vem a minha namorada. Vem amada, vem urgente, vem irmã. Benvinda, benvinda, benvinda, que essa aurora está custando, que a cidade está dormindo, que eu estou sozinho, certo de estar perto da alegria, comunico finalmente que há lugar na poesia! Pode ser que você tenha um carinho para dar, ou venha pra se consolar... Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda..."
A tristeza, minha querida, testa a veracidade das nossas noites insones. Dá voz e som ao que de mais nele – e aqui dentro – existe de intenso. Mesmo em escuridão compõe o primaveril florescer de canções encharcadas (de bebida e de lágrimas). Mas, quem disse que não é belo tudo isso? Os bocejos são melodias e os cochilos, as letras. Se possível, renunciamos aos sonhos porque viver é preciso. Conecto-me com quem me amplia para dentro e para o mundo. No entanto, amada minha, durante este longo espaço que nos esp…

Coincidências outras

Quanto de mim ela ainda possui? E ainda encontra respostas em braços alheios: amiga-abriga; amiga-ouvida. Sempre ela... E lá vamos nós nos embriagarmos de cumplicidade. Quando quero parar o mundo para descer, chego perto daquela que me coloca novamente na melhor poltrona, na janela. O vento e a paisagem redimem a velocidade acachapante de um mundo apressado e ocupado demais para sentir e ouvir. Quero-quero! Assisto na paisagem a esse passarinho que apenas sabe ser livre em par... Pois é, querida, depois de João de Barro e Sabiá, um novo canto para nós duas. Nostalgia: esse romântico tanto de passado em uma palavra voltada para o futuro. Copos vazios, ela se aconchega ao meu lado com a trêmula voz e confessa que racionalizou que não seria uma boa ideia, já que eu me sentiria obrigada, que seria mais a vontade dela de ser amada por mim do que me fazer “sentir em casa”. Bobinha... Então fiz de mim a casa para recepcioná-la. Com todo prazer do mundo... Às vezes o desejo é a melhor etique…

Talhados na aparência (com amor?!)

"A beleza se define portanto como a manifestação sensível da (própria) ideia..."
São Paulo, Rua Augusta GLS, numa roda boêmia de conversa sobre política aplicada, abre-se a discussão sobre a aparência da ministra – até então reprovada por todos, menos por mim: - Gente, ela não é feia! Eu não consigo vê-la feia. Eu não a acho feia. - Larissa, das duas, uma: ou você tem um coração muito bondoso, ou você tá numa carência amorosa trágica! Gargalhamos... - Pega o celular dela e liga pra namorada dela do Rio Grande do Sul. Diz que ela tem que pegar o primeiro voo para São Paulo... – brincou outro. - Hahahaha... Ai, ai... Prefiro acreditar que tenho um coração bondoso. – afirmei – Minha namorada e eu estamos cumprindo bem nosso destino. - É a primeira pessoa que afirma que ela é bonita. - Sério, cê tá bem? Tem controlado a hipertensão? Verificou se a erva-mate que você bebe todos os dias está dentro da validade? - Hahahaha... Gente, mas o que os faz achá-la feia? - Ela é esquisita!…

Homenagem

Gente que me busca no pão e no tom. Busca-me pela mão e pelo som. Busca-me pelo corpo até a cama. Busca-me no tempo e no silêncio. Busca-me pela casa e pelas companhias. Busca-me no travesseiro e no cafuné. Busca-me pela certeza e pela fé. Busca-me pelos ouvidos e pelo chão. Busca-me na segurança e no colchão.  Gente que me busca na calma e na faca, na toalha e na água, na memória e na sala, pela máquina e pela tomada. Gente que me busca na alma e na palavra. Busca-me na risada e no relógio. Busca-me no livro, na confiança, na sapiência e na balança. Busca-me no espaço e no oxigênio. Busca-me na roupa e no apoio, no teto e no tapete, no colo e nas senhas. Gente que me busca pelo ombro e pelo lenço. Busca-me na solidão e no argumento. Busca-me pelo lar e pela energia, no instrumento e na inspiração, na cadeira e nos pés, na liberdade e na decisão. Busca-me nos fios e nas opções, na janela e na sanidade. Busca-me pelo piso frio e no cigarro quente.  Essa gente que me busca pela vida qu…

Mon amour – Caio Fernando Abreu: o caso dela e meu...

Por um fio de memória lembrar-me-ei dela naquela exposição no Museu da Diversidade. Como de costume, após o ano de trabalho, permito-me continuar eterna numa cidade que não tem mais fim. Eternamente concreta em Sampa, fui diretamente ao encontro do meu conterrâneo Caio. Estava belo e realizando o seu desejo de apaixonar alguém pelo que escreveu... Era uma sala com mimeógrafo. Nostalgia de um álcool purificador das tintas pingadas em cada letra dos seus versos que estávamos livres para rodar. Então, eis que o sorriso dela declamava com as pálpebras a rima de qualquer coisa maravilhosa e tirava minhas palavras sobreviventes desta boca com gosto podre de fracasso. O sorriso dela declamava com as pálpebras o fato de nascer e viver no bairro da Liberdade. Esse nome entregue ao ser do tempo com “cantos de alívio pelo que se foi; cantos de espera pelo que há de vir”. Ela, aberta ao tempo, se desculpava com Abreu e não escapava de mim deixando uma lembrança qualquer. Mas, eu não fiquei! Tamp…

Tratamento

Resolveu experimentar a beleza da solidão. Um paladar egocêntrico cujas gotículas breves de um suor e outro trabalho não são aparadas pelo sintético tecido de censura. Muito pelo contrário: seguiria caminhos das reações vividas, bem como a lágrima que pode surgir e escorrer pela pele que sobra ao chão do qual ela também emerge. Emerge com o gelo por onde pisa, põe-se à ponta dos pés, cuidadosa – não com os passos – mas com a assistência de sua liberdade nos seus passes de bailarina. Salta lá, um passo à margem! A casa, simples descanso do social, tem berço de concreto, escuro, escuso e singelo de cortinas deste espetáculo estirado num sofá frente à brisa mecânica do circundante vendaval que a livra da alta temperatura adquirida na rua.  Jogou-se suicidamente naquele abraço que desiste da existência sobre um conforto solícito e tenro da cama. Não havia fala, tampouco atenção. Apenas as artérias cumpriam o papel passado.  Futuro, um desleixo profundo de se imaginar. Ao teto, os olhos m…