Pular para o conteúdo principal

Mon amour – Caio Fernando Abreu: o caso dela e meu...

Que sorte a nossa, né, Caio?

Por um fio de memória lembrar-me-ei dela naquela exposição no Museu da Diversidade. Como de costume, após o ano de trabalho, permito-me continuar eterna numa cidade que não tem mais fim. Eternamente concreta em Sampa, fui diretamente ao encontro do meu conterrâneo Caio. Estava belo e realizando o seu desejo de apaixonar alguém pelo que escreveu...
Era uma sala com mimeógrafo. Nostalgia de um álcool purificador das tintas pingadas em cada letra dos seus versos que estávamos livres para rodar. Então, eis que o sorriso dela declamava com as pálpebras a rima de qualquer coisa maravilhosa e tirava minhas palavras sobreviventes desta boca com gosto podre de fracasso. O sorriso dela declamava com as pálpebras o fato de nascer e viver no bairro da Liberdade. Esse nome entregue ao ser do tempo com “cantos de alívio pelo que se foi; cantos de espera pelo que há de vir”. Ela, aberta ao tempo, se desculpava com Abreu e não escapava de mim deixando uma lembrança qualquer.
Mas, eu não fiquei! Tampouco me foi um tempo perdido. Moça oriunda da Liberdade! De temperamento zen-budista e lugar onde constantemente amanhece. Curiosa de vida agora, vivi! Não fiz uso da fatalidade da resistência, nem me suicidei com a grandiloqüência do “nunca” e do “sempre”. Foi cômodo, sem decisões. Um colo e um cafuné. Contidamente, continuamos. Que sorte a nossa, Caio! – comemorei em silêncio lembrando-me do sorriso dela. Ah, mas o sorriso...
Permiti-a: “levai-me por onde quiserdes, aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e voltar sempre inteira. Sou toda minha saudade e amor de sempre”.

Postagens mais visitadas deste blog

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…

Puseram a culpa

Puseram a culpa na pedra. Nesta que a água tanto bate até que fura. Nesta que Drummond encontrou poesia pelo caminho. Nesta pela qual João Cabral construiu sua educação.
Tem uma chuva vinda de vez em quando para lhe escorrer temporais fios de cabelo. Um e outro pássaro que ali pousa enfeitando com asas a suposição pesada de voar. Pessoa que ali se escora, pisa, senta e evapora a própria condição concreta de ser humano.
A vegetação morre, a pedra ali espera. É iludida. Não tem consciência da morte. Tem como companhia o dia, a noite e todo sentimento que se despede. A pedra ali espera. Uma lufa lhe acaricia nunca a deixando só.
A sós com sua rija confiança, o elemento cinza, pesaroso ao olhar dos outros, não elenca na sua cegueira quem nela se deposita. Machuca, às vezes, quem a ela chuta, por pura educação primitiva de ser pedra.
Bem sabe ela do tempo. Não mais respira, mas aguarda e inspira. Morte dos outros apenas... Os minerais de Augusto dos Anjos já a permanecem sem que ela nasça. Os…