sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Talhados na aparência (com amor?!)

"A beleza se define portanto como a manifestação sensível da (própria) ideia..."

São Paulo, Rua Augusta GLS, numa roda boêmia de conversa sobre política aplicada, abre-se a discussão sobre a aparência da ministra – até então reprovada por todos, menos por mim:
- Gente, ela não é feia! Eu não consigo vê-la feia. Eu não a acho feia.
- Larissa, das duas, uma: ou você tem um coração muito bondoso, ou você tá numa carência amorosa trágica!
Gargalhamos...
- Pega o celular dela e liga pra namorada dela do Rio Grande do Sul. Diz que ela tem que pegar o primeiro voo para São Paulo... – brincou outro.
- Hahahaha... Ai, ai... Prefiro acreditar que tenho um coração bondoso. – afirmei – Minha namorada e eu estamos cumprindo bem nosso destino.
- É a primeira pessoa que afirma que ela é bonita.
- Sério, cê tá bem? Tem controlado a hipertensão? Verificou se a erva-mate que você bebe todos os dias está dentro da validade?
- Hahahaha... Gente, mas o que os faz achá-la feia?
- Ela é esquisita! Aquele rosto caído, aquele cabelo caído, aquela boca caída!
- Bento Carneiro!
- Hahahahaha, é mesmo...
- Ai, ai... – entristeci a cara – o critério de beleza ainda ligada à aparência. Jamais estaremos aptos a enxergar a maravilha do outro em sua totalidade (e realidade) se tivermos nos afogando dentro dessa redoma chamada “padrão”, e desse “padrão”, acharmos um caminho para relacionamentos saudáveis.
- Hegeliana legítima!
- Não vou negar que ela é assustadora – revelei –, mas isso não a define como feia. Não sei para vocês, mas, para mim, o feio me causa uma reação de nojo, de asco. 
- Talvez você consiga ver o caráter da pessoa.
- Pode ser. Só sei que ao meu parecer ela não é feia!
- Você a namoraria?
- Ela não. Mas uma mulher como ela, sim. Totalmente! Já observaram como ela acalenta um olhar sóbrio ao mesmo tempo mitigando um aspecto sombrio? Sim, observem também que ela carrega aquela tristeza requisitada por Vinícius, e isso, deveras, aliada à sua reserva (ou timidez), me a faz notável.  
Um dos amigos volta-se para a mesa vizinha e me faz perceber que uma moça olhava para mim atentamente:
- Já aprendeu né, colega! – Disse ele a moça - Agora é só pintar o cabelo de branco!
- Hahahahaha... – Tornei a voz mais audível – Deixa para lá, não lhe dês atenção. 
Nem para ele, nem para mim... Ela continuou me olhando como se o redor não existisse... Abaixei a voz, dedicando somente à mesa:
- Manteremos nossa prosa somente aqui. Não quero problema lá no Rio Grande do Sul.
- Hehehehe...
- Tranquilo.
- Mas voltando, vou pegar o gancho do que tu disseste para a moça: “é só pintar o cabelo de branco”. Observemos que o amor é uma metáfora da aparência! O relacionamento saudável se tornou um reino absoluto da aparência. Uma bela roupa, jantares sofisticados, regalos carinhosos, ciúmes, maquiagem, sobrenome de marido (sentido trágico da existência de uma mulher!)... Infelizmente, Amar, via de regra, é aparência! 
- A questão da beleza ser fundamental... Voltando ao Vininha.
- Mas a questão é: o que é ser beleza? O fundamental tem de ser voltado ao individual para enfim encontrar o que completa um outro. Se eu a acho bonita, tem algo dela que fundamenta em mim...
- Por isso, como nos surpreendêssemos assim, tipo, “ah, como ela fica com uma pessoa daquela”, enfim... 
- Exato. É ligado ao fundamental de cada um. E isso cabe respeito somente ao que a ti te parece fundamental. Traduzindo: cada um que cuide de si.
- Achei um vídeo da ministra na internet. – disse outro amigo.
- É mesmo. Ela tem um caminho suave de fala. Uma beleza serena até.
- Viram, pessoal! Ela não é anormal. – Tranquilizei-os.
- Gente, só a Larissa para transformar noventa e nove porcento de um achismo...
- Hehehehe, para isso basta, primeiro, prestar atenção no que a pessoa pode nos oferecer. A beleza chega depois.
- Certo. Gente, paguemos um uísque a Larissa.
- Vamos lá! – correu um deles.
- Garçom!