sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tratamento

Não que fosse apenas um Narciso frente ao espelho da realidade... 

Resolveu experimentar a beleza da solidão. Um paladar egocêntrico cujas gotículas breves de um suor e outro trabalho não são aparadas pelo sintético tecido de censura. Muito pelo contrário: seguiria caminhos das reações vividas, bem como a lágrima que pode surgir e escorrer pela pele que sobra ao chão do qual ela também emerge. Emerge com o gelo por onde pisa, põe-se à ponta dos pés, cuidadosa – não com os passos – mas com a assistência de sua liberdade nos seus passes de bailarina.
Salta lá, um passo à margem! A casa, simples descanso do social, tem berço de concreto, escuro, escuso e singelo de cortinas deste espetáculo estirado num sofá frente à brisa mecânica do circundante vendaval que a livra da alta temperatura adquirida na rua.
 Jogou-se suicidamente naquele abraço que desiste da existência sobre um conforto solícito e tenro da cama. Não havia fala, tampouco atenção. Apenas as artérias cumpriam o papel passado.  Futuro, um desleixo profundo de se imaginar.
Ao teto, os olhos miravam a brancura de não poder atravessar as duras partes, ao lado, a permanência do esquivo ordenado de uma cor qualquer definindo o dia ou o que quisesse.
Com preocupações não há solidão que vença! Pena! Não soube ainda qual é o melhor de si. Percebeu sua fome. Culpa do organismo. Do fragilismo de estar desperta e atendida. Do salário do qual sobrevive, da casa para manter, da roupa para vestir e atender as tarefas.