Pular para o conteúdo principal

Àquela que me espera

"Vem iluminar meu quarto escuro, vem entrando com o ar puro. Todo novo da manhã, vem a minha estrela madrugada, vem a minha namorada. Vem amada, vem urgente, vem irmã. Benvinda, benvinda, benvinda, que essa aurora está custando, que a cidade está dormindo, que eu estou sozinho, certo de estar perto da alegria, comunico finalmente que há lugar na poesia! Pode ser que você tenha um carinho para dar, ou venha pra se consolar... Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda..."

A tristeza, minha querida, testa a veracidade das nossas noites insones. Dá voz e som ao que de mais nele – e aqui dentro – existe de intenso. Mesmo em escuridão compõe o primaveril florescer de canções encharcadas (de bebida e de lágrimas).
Mas, quem disse que não é belo tudo isso? Os bocejos são melodias e os cochilos, as letras. Se possível, renunciamos aos sonhos porque viver é preciso.
Conecto-me com quem me amplia para dentro e para o mundo. No entanto, amada minha, durante este longo espaço que nos espera, quem nunca se dissipou diante dos teus olhos? Quem permanece intacto ao poder do teu tempo? E do teu movimento? Quem nunca se desvanece na tua memória?
Por aqui, apenas entendo sobre saudade antecipada ao ouvir de ti “telefona-me assim que chegares”, enquanto minhas mãos insistem em te pedir que entres no primeiro voo para cá sem se desgrudarem do caderno.
Por aí, tu tens o privilégio de poder olhar a chuva daqui sem se molhar. E para quem telefonarei quando o segundo sol chegar?
Enquanto isso, namorada, emendo viagens, remendo amores. Coleciono memórias e leciono liberdade. Solicito caminhos, licito apego. Arremato corações, remato dores. Brinco com palavras e com o destino.
Eis minha notícia. 
Em breve retorno com mais te amo que de costume...    

Postagens mais visitadas deste blog

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …