Pular para o conteúdo principal

Sobre aliança e acrobacia

Casamento: uma comédia de costumes. Imagem: Larissa Pujol

A: E aí, Larissa?! Que achou do espetáculo?
L: Metafórico. Principalmente a parte do anel de noivado e a acrobacia.
A: ... (o olhar dela pedia uma aula)
L: Aquelas inveteradas acrobacias dentro, ao redor do grande anel suspenso no palco, o véu vermelho despindo a artista e despedindo a mulher, que por obrigação do costume, acostuma seus sonhos nas acrobacias para ter um casamento. Os rodopios, então... Metáfora de um conservadorismo interpretado por uma mulher capaz pelo casamento. 
A: Nossa, Larissa! Fe-no-me-nal. Me arrepiou! Sério, meu! Ninguém que eu tenha conversado me disse isso. É apenas um “gostei” e basta.
L: O banquete, título do espetáculo, seria o alimento do antes e do depois do casamento, mas nunca do seu presente. Percebe, meu bem, que o presente dos noivos é se alimentarem um do outro. Enquanto ambos se dizimam da sobrevivência do outro, cansam a ilusão de que não há melhor alimento que eles, apenas, até que sua realidade recorra cada verdade de indivíduo ao banquete. 
A: Por isso que chegamos à conclusão de que o indivíduo é do tamanho de sua fome.
L: Banquete não revela a fome, revela o apetite do convidado. Fome é sobrevivência. Apetite é vicio! Num banquete aproveitamos tudo de saboroso, de gordo, de fetiche, de maquiagem, de escondido mal-estar na cultura (como afirmaria Freud). Nada de sobrevivência. 
A: Aquelas artistas: a beleza, a solidão, a inveja.
L: Pormenores de avanço, caso as saibamos usar. Aceitas um cigarro?
A: (com os olhos e os lábios brilhando) Seu sotaque é fascinante...
L: E olha que moro aqui há quase dez anos... Mas como trabalho no Rio Grande do Sul, passo o restante do ano lá.
A: Você tem de mim uma distância de banquete.
L: Casamento, banquete, alimento de peles. Não confies em mulher que assina o sobrenome do marido!
A: Acrobacias conservadoras, nunca!
Rumamos ela e eu pela Baixa Augusta... 

Postagens mais visitadas deste blog

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa.  Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas. Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um …