sexta-feira, 10 de março de 2017

Enigma e comentário

Quando aprendi que a felicidade é uma outra oração. (Foto: Larissa Pujol)

Sobre a primeira semana de aula nas turmas de primeiro ano: literatura jesuítica.
A tradição espiritual ocidental é baseada no sofrimento, disse-lhes. Ensina que D’us se deleita quando vê os homens sofrendo e se prostrando. E é por isso que as pessoas religiosas, quando prometem a D’us, prometem - e poderiam prometer: Senhor, se me concederes a benção, eu Te prometo que vou ler, todos os dias, às seis da tarde, um poema de Fernando Pessoa -, mas ninguém oferece coisa boa para D’us! Oferecem, pois, subir mais de quatrocentos degraus, de joelhos, oferecem sangrar seus calcanhares sobre cascalhos, oferecem deixar seu organismo fragilizado pelo jejum... 
A ideia de um D’us sádico, que fica feliz com o sofrimento de Seus filhos, é horrível! Nunca leram nas escrituras sagradas que D’us criou um jardim de delícias. Assim fomos criados para a felicidade. Uma coisa de Bachelard: o Universo tem de encontrar o seu destino de felicidade.
Afinal, como resolver com a literatura, os conflitos entre idealismo e realismo? – desafiei-os.
Todos responderam com pausa thecoviana...
A ideologia é frágil, comecei. Ela precisa de poder, e para ter poder é preciso realismo, preciso saber como as coisas são. Mas, se eu tiver apenas realismo... as coisas não alçarão voo. A ideologia cria o voo. Logo, há de se manter essa combinação dos dois. A ideologia aliena a todos nós do medíocre da vida. Coloca-nos para fora a fim de saber sobre as condições para fazer transformações na realidade e resultá-la como resposta ao desejo.
Afinal, desse conflito colonizador-jesuítico entre fé e pecadismo podemos extrair a diferença gritante entre otimismo e esperança: a primeira procura sorrir para o futuro por causa de; a última, a despeito de.
O sinal já havia se anunciado há dez minutos. Não percebemos.