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Entre espirros e gozos

- Oi...
- Fala, tchê...
- Eu quero dormir com alguém hoje.
- Boa sorte.
- Juju!
- O que foi? Tu disseste que queria dormir com alguém.
- Tá bom. Tá bom. Eu quero dormir contigo essa noite. Satisfeita?
- Melhorou. 
- O que foi? Quantas noites de insônia acumuladas?
- Três – disse a ela resmungando. 
- Isso anda se agravando.
- Ando trabalhando muito.
- Isso quer dizer: ando introspectiva demais para me envolver com alguém em busca de um sexo casual que me faça dormir bem durante a noite?
- Vai apostando.
- Ai, Juju. Não complica.
- Tens certeza?
- Tudo bem, tu não queres, né? 
- E tu vais bancar a difícil às vinte e três horas de um sábado à noite. 
- Eu nunca banco a difícil para ti, Juju. E duvido que qualquer mulher desse mundo o faça. 
- Que horas tu vens?
- Agora, minha Rapunzel adormecida ao avesso.
- Tu não esperarias de mim um enredo comum, sim?!
- Ainda bem que não, não carregas jeito de princesa.
- Ainda bem que tu me sabes.
- Falou a anti-herói que, em vez de procurar a sua par, correria para o Ponto de Cinema para trocar o sapatinho por um cinzeiro de cristal. 
- Gargalho! Cristal é brega!
- Gargalho eu, o sofrimento de um cigarro também, embora clássico. 
- Vem, então. Quero ler, relaxar um pouco e dormir. Pesadamente. 
- Estou indo, chego em vinte minutos. 

Em exatos vinte minutos ela chegava tocando a campainha, tamanha a intimidade com a escuridão da minha rua. Ela me abraçou com carinho, notando um livro em minhas mãos...

- Fernando Pessoa de novo?
- Fernando Pessoa sempre.

Respondi a ela dirigindo-me para a cama. Sentei com as pernas cruzadas, na confortável posição de índio. Vesti um pedaço de pano, jaz um vestido, agora transparente de velho e com alguns buracos. Prendi os cabelos com uma "piranha" e limpava meu costumeiro óculos. Ele se sentou no lado oposto da cama, observando-me. 

- Ouve isso: “Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas. Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana boiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir”.  Notaste a genialidade? 
- Tu ficas encantadora de óculos. Agora entendo o encanto do sempre...
- Presta atenção!
- Tu terias um lapso hétero com ele...
- Quem?
- Fernando Pessoa.
- Não... Somar-se-ia muito macho por quilômetro quadrado. Ouve esta parte... 

Enquanto eu lia outro trecho do livro, ela se aproximou, beijando-me as pernas, os ombros, o pescoço e qualquer parte que a minha postura leitora não impedisse...

- Presta atenção! 
- Sabe, eu já li “O livro do desassossego” – disse ela continuando a me beijar, enquanto eu tentava dela em vão me esquivar. - Comentaram que Fernando Pessoa tinha um micro pênis.
- Quanta infâmia! – converti-me a uma guisa sisuda sustentada no corpo de forma a fixar meus olhos nos olhos dela.
- Desculpa, dei um Google e li algumas notas, desde um programa de literatura e que relatava sobre uma biografia que dizia exatamente isso...
- Rá, sites de busca: a perversidade do conhecimento! Sim, infelizmente conheço a referida biografia. É uma biografia baseada em achismos! Nada ali é comprovado! Nada ali é provado! Uma historieta para ganhar notoriedade de "likes". Um embromado linguístico para a formação de fofoqueiros, não de debatedores. Se tu queres conhecer intimamente um autor, busque interesse inteiramente pela sua obra numa biblioteca e a interprete! 
- Calma, Larissa! Não precisa jogar essa avalanche intelectual na minha cara. Não estamos numa banca de tese e tampouco o tamanho do objeto fálico do Fernando Pessoa me interessa... – repreendeu-me enquanto também me acalmava com carícias nas minhas pernas e beijos. 
- Ai, tu não te interessas por Literatura! 
- Na verdade, me interesso. Por exemplo, que tu achas que Bukowski diria sobre isso? – perguntou enquanto deslizava sua mão por entre as minhas coxas e me mordia a orelha...

Em um meio gemido convencido, soltando completamente o livro e agarrando-lhe com força as costas respondi:

- Algo como um... "que se foda"!
- Esse sabia das coisas – ela sussurrou continuando as carícias e beijando-me a boca. 

(...)

Na manhã do dia seguinte, despertei tarde. Há tempos não dormia tão bem. Era domingo e todo e qualquer excesso de tempo na cama era facilmente perdoável, principalmente com o tempo nublado. Sentia meu corpo dolorido e levemente dormente. Pensei que deveria colocar em prática a recomendação do meu cardiologista sobre o meu preparo físico, apesar da correria pedagógica diária. Os lençóis e edredom estavam no chão. Na criado-mudo ao lado esquerdo esperava-me uma bandeja. Arrumada com amor, possível de se notar no primeiro soslaio. No entanto, os itens do café da manhã pareciam peculiares: um livro do Eça, um suco de laranja, cacetinhos com patê de fígado, outros com geleia, e cartelas de comprimidos para resfriado, outras para melhorar a função hepática?!? Ao lado, um bilhete: 

“Desculpa, amor, não poder ficar. É aniversário da minha mãe, e tu sabes disso. Deves ter esquecido. Mas, não te preocupes, eu minto que tu lhe mandaste um beijo. Alimenta-te bem e toma todo o suco com os compridos para resfriado. Talvez tu te resfries e a consequência disso é o teu fígado doente por causa do medicamento. Alivia-o, logo. Essa coisa de não dormir afeta o sistema imunológico, que te complica o problema hepático. Tu deves saber disso e o amor é um tanto quanto egoísta, às vezes. Ao te ver dormir tão belamente despida a minha frente, eu não resisti... Teus pelos todos arrepiados, teus seios outrora em minha cara ainda firmes, duros, branquinhos, fartos, tão perfeitos. Teu corpo, Larissa, se fixando ao meu em busca de calor, toda expandida em tamanho, mas contraída me abraçando, me protegendo, aninhando tesão. As mãos tensas segurando o travesseiro, num conceito sinônimo entre o corpo gelado e a alva cor de tua pele macia... Eu pensei, inclusive, em desligar o ar-condicionado a treze graus que, como dizes, trazia o ambiente a um outono jazido, mas não fui capaz. No teu abraço, passeei devagar as mãos sobre os pelos loirinhos eriçados da tua coxa, me protegi apertando os músculos dos teus ombros, valorizando a iminência do toque – lembras-te disso? Apenas na legenda de uma foto de saxofone, é impressionante como tu sempre consegues um jeito para provocar - senti logo a contração da coxa na minha perna, os olhos pesadamente fechados, as rugas de incomodo na testa, os braços em volta das minhas costas, o tremor quase imperceptível por cada centímetro de pele. O ar-condicionado continuou ligado por toda a noite. Tão encantadora. Tão sempre. Perdão por isso, amada Juju! O suco de laranja garantirá a vitamina C e, os comprimidos, não hesites tomar. Se bem que seria bem excitante te imaginar de nariz vermelho por aí, necessitando de cuidados extras e xingando de maneira fanha e rouca – ah, tu rouca! - o meu nome. Não serei tão insensível assim, como tu costumas dizer aos outros, cuida-te e deixa ser cuidada. Assim que parabenizar minha mãe, volto para te aquecer. Ainda bem que não levo jeito para princesa. Com amor, 

M.”

- Filha da puatchimmm! 

(Whats enviado após o terceiro espirro: da próxima vez, ao menos, deixa flores!)

(Resposta do whats: "Outras vezes, acordo dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espetáculo sem ruídos" - é a continuação do trecho do Pessoa que tu me leste. Sempre presto atenção em ti.)

Porque toda lésbica gosta mesmo é de uma boa Florbela! 

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