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Escrevendo e cantando com minha “bebé”: uma proposta de estudos comparados com diversão

"Volto pra casa abatida, desenganada da vida... Nos sonhos eu vou descansar, nele você está" (Ronda, Inezita Barroso)

- Amor, tomei partido das leituras na tua estante enquanto estavas no costumeiro “exílio” em São Paulo. Ficas irritada por isso?
- Claro que não, meu bem, desde que os meus livros não saiam de casa.
- Estou concluindo as cartas de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz.
- Hahahaha... Espero que esteja eu te correspondendo melhor.
- Aham... Chega a ser ridícula! – brincou encostando a sua cabecinha no meu rosto – Mas um ridículo gostoso e bem aproveitado, diferente deles. Se tu criasses heterônimos, não terias nada de “Álvaro”.
- Nem Pessoa o tinha. Álvaro de Campos era um retrato enfadonho do entrave masculino. Como todo homem da época, existido para esbanjar fortaleza e secura, Fernando fez-se de Álvaro para conseguir objetificar a sua realização (literária).
- Os relatos de Ofélia dizem que ele se portava extremamente carinhoso, romântico, cheio de piegas para com ela.
- Sertanejo...
- Hahaha, o quê?!
- Tive uma ideia: vamos continuar a leitura juntas e eu te digo quais as músicas sertanejas me lembrava cada momento ou carta.
- Hã?! Sertaneja, o quê?! Tu, Larissa?! – Riu copiosamente.
- Sertanejo antigo, minha pequena. Modão. Dos 90 para antes...
- Guria, quero só ver! Vamos lá: qual o “melô” para esse trecho aqui ó “Há três dias que não me apareces sem eu saber a que atribuir tal ausência [...] Antigamente eras mais atencioso para mim, mais carinhoso, mudaste imenso!”
- “Cada dia que se passa, mais distante...” – cantarolei – “o rosto tão bonito se perdeu na indiferença...”
- “É pena qu’este amor não teve consciência dos sonhos que sonhamos em segredo” – continuou.
- Hahaha... Isso! Olha que Pessoa nunca quis que ela revelasse algo sobre o namoro deles.
- “Vá com Deus!” – cantamos numa só voz aos risos – “o amor ainda está aqui, vá com Deus!”
- Puta merda, Larissa – continuou inflando aqueles dentes maravilhosos –, tu tens o dom de achar trilha sonora literária.
- Ah, é! Lê então João Mineiro e Marciano nesse trecho “como o Fernando não tem motivos para acabar, procede então da forma que procede. Pois bem eu assim não estou resolvida a continuar. [...] Está a sua vontade feita. [...]”
- “Você me pede na carta qu’eu desapareça; qu’eu nunca mais te procure, pra sempre te esqueça...”
- Agora olha esta foto.
- Ah... Hahahahahaha. Vamos lá, uníssonas! – ordenou.
- “Ainda ontem chorei de saudade...” – nunca choramos de tanto rir...
- Ninguém tira do meu coração que, na hora do “flagrante delitro”, o Fernando estivesse profeticamente ouvindo João Mineiro e Marciano.
- Eu não paro de rir, Larissa, com tuas análises! Agora este: “Então uma sombra bêbada ocupa lugar nas lembranças”
- Por favor, este trecho merece orquestra. Por favor, maestro, Vicente Celestino – pigarreei e embarguei a voz de vitimismo e virilidade – “Torneeei-me um ébrio na bebida, busco esquecer...”  
- Hahahahahaha... Puta música foda para esse momento do Fernandinho! Já temos aqui três para o Fantástico. Qual delas ele escolheria?
- Aos momentos que ele se localizava na Baixa, “doente de amor, procurei remédio na vida noturna...”
- Acho que não, amor. Falhaste nessa, bebé gânde.
- Mas me refiro à época que o Abel ainda tinha fachada azul.
- Hahahaha... Que tu sabes da fachada do Abel, Lari... Hahaha... 
- Vida noturna também é essa parte: “É uma hora e dez minutos (da noite) e antes de deitar venho deixar mais um jinho para o meu preto”. Lembra-me muito a minha infância essa frase da Ofélia. Alan e Aladim. “Já é tarde, é quase madrugada e eu não dormi...”
- “Com você no pensamento a insistir... Que eu não durma sem falar contigo.” – continuou com voz melíflua.
- Hehehe... Otimista, hein!
- Como toda sagitariana que tu também és, Larissa! Será que o Álvaro profetizou as músicas bregas naquele poema sobre as cartas de amor serem “ridículas”? 
- Quem sabe até compôs o arranjo dos modões.
- Imagina se alguém tivesse musicalizado o poema...
- Não faria sucesso. “Todas as cartas de amor” são uma tentativa de passar sobriedade quanto a possível maturidade de poder emparelhar, embora de maneira surreal, a razão e a força, a secura e a indiferença, pendurados na linha tênue do amorfismo. Já no sertanejo antigo é na linha tênue do romantismo caridoso. 
- “Mas afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.”
- A adjetivação aí assume outro significante... Poético Fernandinho. Coisas da gramática. E também, na mesma linha, são ridículas as que nunca leram com seu amor.
- Uma trilha para esse final “sua amiga dedicada”.
- Prefiro te oferecer um trecho: “Na hora que a noite desce, lembra-te daquela que nunca te esquece.”
- “Cá um jinho”. - Bicou um beicinho.
- Ah, esse não precisa de fala.  

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