sexta-feira, 31 de março de 2017

Seu doutô!

“Pelos teus exames vejo que tu tens o perfil de um jogador! Jogador de baralho de primeira!” “A-do-ro. Quando o vencer é equipado com jogo, conheço como é tratado o poder. É dizer, posso interpretar o caráter do meu adversário.” “Lari, dizer que tu chegas a conhecer o caráter de uma pessoa através do jogo de baralho é uma afirmação muito forte.” “Meu caro, o poder é o amálgama do caráter.” “Ah, como posso te recomendar academia?!” “Dizia Nabokov, caro médico: cada vez mais sábio, cada vez mais gordo. Meia-hora a mais que tenho de leitura!”

Não, não é somente o pastor que vende terreno no céu, também é o médico que ilude a todos com a eternidade prometida na escravidão da saúde.
A cada ano, a cada semestre, a cada dia são recomendados atos cotidianos obrigatórios, assim como o voto, para manter a vida um pouco mais iludida com a imortalidade na escravidão da saúde.
Diminuir para metaforicamente diminuir o gosto pela vida. Mas o que é a morte senão a cinza embevecida d’um cigarro corporal desgastado no dia vicioso de sobreviver... Heidegger foi certo: “não é privar da morte que o homem pode existir se ocultando do que lhe é mais próprio: ser-para-a-morte”. Não há placebos, tampouco ultimatos médicos que a detém. Por isso, entre o suicídio de João Gostoso e o suicídio de Ismália, prefiro antes entrar em qualquer bar nomeado com data, beber, cantar e dançar como qualquer intervalo que signifique depois que “a morte é um fato”, assim noticiado por Sartre.
Minha biografia não será escrita de receitas, nem atestados. Os garranchos dela são de “lirismo difícil e pungente dos bêbados”... Não, seu doutô! Minha saúde não precisa de desgaste físico. Deixo isso para o túmulo! Minha saúde é terapia de livros, terapia de ensino, terapia de um afago de namorada, sem pensar no peso certo enquanto degusto comidas gostosamente erradas. Não quero saber da vida “que não é libertação”!