sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sobre poesia romântica e indiretas: mas, por que não diretas?

Assim questionou minha aluna sobre os versos de Álvares de Azevedo. Pensei sobre mim, que, ao contrário do poema, não era um pesadelo mentido aquele momento. Contraste de gerações entre o poeta e a aluna. Eu me encontro no time do Álvares. Invejei o hoje: tudo normal, sabe-se, gosta e se desgosta. Tudo normal. Tudo belo. Não se perde, não se ganha. Beija sem encontrar antes o que pode lhe fazer bem.
Não há pensamento. Meus jovens filhos-de-livro seguem a linha pessoana! Ser direto que a vida num momento se sente dentro e maior em si! O Passado para esta geração dorme... Dorme jovem como o poeta questionado no princípio. Não há confessionário, há fé. Há D’us sem cobrança de religião.
A distância significa que a vida é demasiadamente veloz para não estar com quem se ama. Gostar de alguém, elogia; diferente da minha geração que se reprime com medo que a indiferença possa negar o status de conquista e felicidade. Como se a felicidade estivesse ligada a conquista... Tão distante o sonho que eu nunca beijei, porém...
A distância que tomo é de beijos fáceis de belezas (ainda que superiores a dela) que esvaziem meu riso engasgado a cada falta dela amparada no meu penar. Ser Álvares ou ser entregue? A normalidade agora desfaz contornos e empreende compreensão. Consola beijos. Desarma e ama, mesmo que seja por um curto período. Depois se despede e se reencontra como travessia. O melhor concreto caminho de realização das relações. 
Parabéns, jovens. Aqui, a experiência leva tapa na cara. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Carta-aberta-de-saudade à minha São Paulo

São Paulo, lugar de sonhos... (Foto: Larissa Pujol)

Como o veloz bater das asas de um colibri, rápido bate o meu coração de saudade e vontade de voltar para a minha cidade. Que saudade de você, São Paulo! Cidade progresso, cidade dos museus, das casas literárias, das casas diurnas e casas noturnas, que não se recolhe num aposento qualquer. Cidade que exclama seu nome com Demônios da Garoa: Isto é São Paulo!
Cidade ambiental do belo Ibirapuera, cidade olhar do belo pessoal transeunte que pelas suas ruas e avenidas percorre. Cidade inteligência! Cidade educação. Cidade que acontece.
São Paulo, menina colegial fundada em 1554, moça Paulicéia que os poetas modernos se puseram a admirar no Theatro Municipal. São Paulo que me acolheu como mãe em seu berço de total aconchego cultural. São Paulo, minha ama-de-leite de suas bibliotecas ao ar-livre, alimentando com seus seios a história de cada pessoa que em você busca o crescimento saudável da sabedoria. Embora tenha eu nascido longe de você, posso afirmar que de sua terra paulistana eu renasci. 
Há pouco, ouvindo Inezita Barroso, parecia que eu estava junto a você, São Paulo... Mas pereci porque, ao correr os olhos pelos jornais locais, não encontrei nenhuma primeira edição que noticiava a cena de ciúme num bar da Av. São João... e então... aquela coisa que sempre acontece no meu coração quando cruza a Ipiranga e a São João se desmanchou em lágrimas... Perdi o trêm, não estava em Jaçanã, não sambei no Brás, o convite do Arnesto não estava na caixinha do correio. Fui do Paraíso à, pelo menos, Consolação de cantar e dançar, embora longe de você, meu par, suas homenagens. 
Ah, minha São Paulo, Sampa de samba desde o Anhangabaú, de jazz no Terraço Itália, de música-novidade por toda a Paulista...
Meu D’us de Anchieta, São Paulo, quanta saudade você me faz...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A linha tênue entre a convenção e a convicção de amar

- Perdoa-me por me intrometer, mas não me agrada o caráter do seu marido.
- Você percebeu em tão pouco tempo o que ele é pra mim.
- É bárbaro. Cruel.
- Sim, mas o quê posso fazer? Eu o amo e o aceitei diante do altar.
- O que são as convenções quando se trata de passar a vida inteira ao lado de um crápula. Com perdão da palavra, um estupor! Ele não a merece.
- Sem falsa modéstia, eu também acho que sou boa demais para ele. No mais, fui criada para isso, para ser assim, embora sinta a crueldade.
- Confesso que fico espantada com tal revelação. Uma jovem senhora tão perfeita, digna de todas as classes de elogios... Difícil acreditar que aceite a convenção familiar machista e que ainda tente justificar e defender a própria submissão!
- Compreenda, eu nasci e cresci numa base estrutural dessa maneira. Meu pai, sempre muito austero e rigoroso, educou a mim filha assim e minha mãe se calava. No entanto, nunca me ocorreu que tais atitudes pudessem ser...
- Incivilizadas, no mínimo, para dizer algo mais gentil.
- Percebo que me recrimina.
- Sim. Sim, mas a senhora não merece ser questionada. Uma mulher tão digna, tão perfeita. É como você disse: é por força da criação. Mas uma alma boa, uma alma pura, aceita mudança de ponto de vista.
- Eu agradeço a gentileza. Prometo que de agora em diante vou ser mais generosa comigo mesma.
- Desculpe por ser grosseira, mas francamente o seu marido representa tudo aquilo que abomino. Não a merece. Uma senhora tão formosa com sua pujança e esplendor... Esplêndida como poucas, francamente, você foi aviltada!
- Fui?!
- Claro, pois ele teve coragem de difamá-la ao mostrar que deseja a outra. Perdoe-me...
- Por favor. Ele não a deseja... Ele...
- Liberte-se desse sofrimento! Mande-o às favas! Você merece ser amada por alguém que reconheça seu encanto, que a valorize. Alguém que reconheça em cada jeito seu a delicadeza das pétalas da mais bela flor.
- Sim... E você é poética e veloz em suas lisonjas como o bater das asas de um colibri.
- Você necessita de alguém que reconheça em cada palavra que seus lábios murmuram o suave sopro da brisa de outono. Você precisa de uma pessoa que a pegue ao abraço com ardor da despedida antes da última batalha... Você...
- A moça-professora me entontece com tantos galanteios.
- Uma pessoa que a beije com tal paixão que por certo a deixaria desfalecer entregue ao êxtase mais profundo, sinônima do ar e da liberdade... Ah, se você soubesse como me sinto ao vê-la.
- Por favor, não continue. Eu não poderia ter dado ouvido aos seus galanteios tão carinhosos. Nunca ouvi isso do meu marido, tampouco de algum homem. Jamais fui tão lisonjeada. Sinto-me culpada! Sou casada!  
- Ele não merece o seu respeito! Muito menos o seu amor, a sua entrega!
- Eu sei! Quando ouço suas doces palavras, enfim repreendo o desatino de mulher, o arroubo com que se entregam a um casamento pela pressa social sem saber antes o que amam. Se eu soubesse que existia amor assim, fora das páginas dos romances...
- Dona. Apaixonei-me por você à primeira vista.
- Não! Não faça eu me sentir mais culpara do que já estou. Não devia estar dando ouvidos a essas galanterias.
- Deixe-me ajudá-la.
- Não!
- Sim! – Pego-a pelo braço – Está pálida, trêmula...
- Isso vai contra toda minha educação. Não posso. Não posso.
- O que é educação senão a acreditar na liberdade da própria consciência! Acalme-se Dona. Fiz alguns versos de minha palavra em homenagem a você.
- Versos pra mim...