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A linha tênue entre a convenção e a convicção de amar

- Perdoa-me por me intrometer, mas não me agrada o caráter do seu marido.
- Você percebeu em tão pouco tempo o que ele é pra mim.
- É bárbaro. Cruel.
- Sim, mas o quê posso fazer? Eu o amo e o aceitei diante do altar.
- O que são as convenções quando se trata de passar a vida inteira ao lado de um crápula. Com perdão da palavra, um estupor! Ele não a merece.
- Sem falsa modéstia, eu também acho que sou boa demais para ele. No mais, fui criada para isso, para ser assim, embora sinta a crueldade.
- Confesso que fico espantada com tal revelação. Uma jovem senhora tão perfeita, digna de todas as classes de elogios... Difícil acreditar que aceite a convenção familiar machista e que ainda tente justificar e defender a própria submissão!
- Compreenda, eu nasci e cresci numa base estrutural dessa maneira. Meu pai, sempre muito austero e rigoroso, educou a mim filha assim e minha mãe se calava. No entanto, nunca me ocorreu que tais atitudes pudessem ser...
- Incivilizadas, no mínimo, para dizer algo mais gentil.
- Percebo que me recrimina.
- Sim. Sim, mas a senhora não merece ser questionada. Uma mulher tão digna, tão perfeita. É como você disse: é por força da criação. Mas uma alma boa, uma alma pura, aceita mudança de ponto de vista.
- Eu agradeço a gentileza. Prometo que de agora em diante vou ser mais generosa comigo mesma.
- Desculpe por ser grosseira, mas francamente o seu marido representa tudo aquilo que abomino. Não a merece. Uma senhora tão formosa com sua pujança e esplendor... Esplêndida como poucas, francamente, você foi aviltada!
- Fui?!
- Claro, pois ele teve coragem de difamá-la ao mostrar que deseja a outra. Perdoe-me...
- Por favor. Ele não a deseja... Ele...
- Liberte-se desse sofrimento! Mande-o às favas! Você merece ser amada por alguém que reconheça seu encanto, que a valorize. Alguém que reconheça em cada jeito seu a delicadeza das pétalas da mais bela flor.
- Sim... E você é poética e veloz em suas lisonjas como o bater das asas de um colibri.
- Você necessita de alguém que reconheça em cada palavra que seus lábios murmuram o suave sopro da brisa de outono. Você precisa de uma pessoa que a pegue ao abraço com ardor da despedida antes da última batalha... Você...
- A moça-professora me entontece com tantos galanteios.
- Uma pessoa que a beije com tal paixão que por certo a deixaria desfalecer entregue ao êxtase mais profundo, sinônima do ar e da liberdade... Ah, se você soubesse como me sinto ao vê-la.
- Por favor, não continue. Eu não poderia ter dado ouvido aos seus galanteios tão carinhosos. Nunca ouvi isso do meu marido, tampouco de algum homem. Jamais fui tão lisonjeada. Sinto-me culpada! Sou casada!  
- Ele não merece o seu respeito! Muito menos o seu amor, a sua entrega!
- Eu sei! Quando ouço suas doces palavras, enfim repreendo o desatino de mulher, o arroubo com que se entregam a um casamento pela pressa social sem saber antes o que amam. Se eu soubesse que existia amor assim, fora das páginas dos romances...
- Dona. Apaixonei-me por você à primeira vista.
- Não! Não faça eu me sentir mais culpara do que já estou. Não devia estar dando ouvidos a essas galanterias.
- Deixe-me ajudá-la.
- Não!
- Sim! – Pego-a pelo braço – Está pálida, trêmula...
- Isso vai contra toda minha educação. Não posso. Não posso.
- O que é educação senão a acreditar na liberdade da própria consciência! Acalme-se Dona. Fiz alguns versos de minha palavra em homenagem a você.
- Versos pra mim...      

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