sexta-feira, 19 de maio de 2017

Resposta (“ainda lembro que eu estava lendo...”)

Vou esperar desbotar... (Foto: Larissa Pujol)

Intransigente, exercito a vaidade e o corpo até torná-lo inapetente. Indissociável da minha totalidade afim de que nada em mim seja vulgar ou descartável. Deve morar aqui, em mim, a melhor liberdade.
Procuro alguém que aceite assim: aparentemente faltando um pedaço, mas é só descuido de quem quer se despir da sua completude para encontrar e vivenciar no outro a metade que nunca soube ser.
Então, podes esquecer a cor do meu vestido e a profundidade do meu decote. Esquece quantas doses de uísque trouxeste para mim, no entanto não te esqueças daquela conversa íntima, ao pé-do-ouvido, compactuando a contribuição histórica dividida no jardim...
Sobre o glamour da intimidade, antes coragem que prepotência, antes o erro que a indecisão, antes paciência que esperança, antes experiência que exatidão, antes instrução que conclusão.
Quem sabe, meu amor, deixemos a saudade desbotar. Até que reste a plena vontade de sermos silêncio de duas almas pisando sobre o assoalho ou folheando livros. A voz nos seria o cristal cujo uso propaga um corpo outrora esquecido... Que os olhos, porém, depois, ainda vidrem como no interior de um vidro, atrás ouvidos, oblíquo o pronome em primeira pessoa. A companhia luz que ajuda a estar só.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Candinho, Toninho...

Entre os alunos é o Candinho, raramente Toninho. Melhor dizendo, professor Candinho. Numa aula magna disse a nós para amarmos a Literatura Brasileira - talvez parafraseando Cristo automaticamente concluindo em “assim como amei meus alunos”. 
Assim, logo pedi a Literatura em matrimônio. Já éramos muitos anos de relacionamento, desde os meus castigos na Biblioteca quando criança, depois passando pela Federal do Rio Grande do Sul e chegando à Universidade de São Paulo. Candinho, melhor dizendo, Antônio Cândido vestiu o poder milagroso do seu xará Santo Antônio e se tornou o santo-casamenteiro entre a pessoa e a palavra. Amar a literatura. Para isso, Candinho acolhia franciscanamente seus alunos. Tive a honra. Na primeira vez, há quase uma década atrás, indaguei boba ao meu colega de doutorado: É aquele do Discurso e a Cidade? Enfim, sim, estive eu sob a dialética do malandro que rompia a barreira do livro-massa para que conversasse em carne-e-osso com Candinho.
Professor Candinho, figura delgada com passos calmos de sua verve leitora, pincelava de social, filosófico e cultural a musa já retinta de manifestos – a Literatura Brasileira. Intuitivo, tal como a resposta às necessidades profundas do ser humano, ele contaria que Sérgio Buarque era o homem do contrário, o erudito vindo da boemia. Com os braços maternos da musa, Candinho é acolhido no testemunho unânime dos que sobre ele dialogam. Prova também aos seus alunos a confiança que o ser humano pode ter para transcender em si mesmo. Além disso, além de professor, era Candinho como se estivesse em sua própria casa.
Sete anos depois cá me encontro – uma mulher e duas cidades –, em salas do ensino médio, na raia ativa da educação, mais intuitiva que metódica, como ele ensinou. Tudo conforme a cidade em que a alma é a veemente empreendedora do social. Hoje pratico esse amor que me levou a casar com a Literatura. Agora, mais velha e saudosa com jovens tardes de sabedoria, ainda mais.
Querido mestre, gratidão!

Professor Antônio Cândido na íntegra: https://avidaaoresdochao.wordpress.com/versao-integral/

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Depois de abril: dos textos por correio que conquistam (e convencem)

“aeronaves seguem pousando sem você desembarcar...”

Minha campainha espera o seu, aliás, o teu toque. A porta quer que por ela passes. O tapete, que o pises sem dó. Caso queiras, tira o teu sapato oxford, fica à vontade, a casa é tua. Meu sofá quer que te acomodes desmanchada como tua maquiagem fugidia com a garoa de São Paulo. Meu abajur, iluminar-te. Meus livros, que os folheies. Se quiseres, eu leio para ti a insustentável leveza do ser... São apenas trezentas páginas...
Meu fogão quer cozinhar para ti, esquentar a água para o teu chimarrão. Meu refrigerador cuidar de tua sobremesa. Meu freezer conservar o gelo dedicado ao teu uísque. Meus pratos servir-te.
Meu toca-discos quer te tirar para dançar, as taças, te brindar, as paredes, guardar nosso segredo... Por fim, algo nosso. Se quiseres, podes ficar. Não importa o que a vizinhança vá pensar...
Minha cama quer te aconchegar, meu lençol se impregnar do teu cheiro, o meu relógio, que as horas tardem a passar. Se quiseres, podes me amar; se quiseres, te recebo inteira te apertando até sobrar lugar.
A mesa do café quer te dar bom-dia, a água do meu chuveiro escorrer todo o teu corpo, a toalha, envolvê-lo todo... Se quiseres, podes jogar em ti um dos meus vestidos. Se quiseres, podes ficar como estás... As cortinas servem para isto mesmo.
Meus móveis não querem que tu vás. Meus eletrodomésticos deixarão de funcionar sob protesto. Minha estante não deixará que a leia. Minha boca não pronunciará futuro. Até tu voltares...