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Mostrando postagens de Maio, 2017

“Não era mais a mesma, mas estava em seu lugar”

(Texto adaptado da crônica que recebi dos alunos)
Deixou a bolsa, pegou o giz. Ainda não havia sorrido. Seus alunos se organizaram e, agora, esperavam os ciclos daquela letra que constelava novas histórias naquele deserto escuro de um quadro-verde. Escreveu o título, olhou-o. Não sorriu. Não contou anedota. Abaixou a cabeça e suspendeu o punho sobre o apoio do giz... Com o outro punho, cobriu as narinas. Olhou o título do conteúdo, esquivou o olhar da turma, que já procurava saber o que houve. Por que sem piada? Cadê a risada? Cadê, depois, o grito vociferado que silenciava a todos? Tremeu a voz continuando a olhar para aquele infinito verde-escuro. Algo sem conteúdo para inventar, como na música, um machado que quebrasse o gelo e a despertasse daquele pesadelo que, por ora, somente ela carregava... Fazendo jus ao título, então, ela se tornou uma heroína trovadoresca. Ergueu do desespero a coragem de um machado e quebrou o gelo soluçando-o derretido em lagrimas copiosas. Todos os alu…

Resposta (“ainda lembro que eu estava lendo...”)

Intransigente, exercito a vaidade e o corpo até torná-lo inapetente. Indissociável da minha totalidade afim de que nada em mim seja vulgar ou descartável. Deve morar aqui, em mim, a melhor liberdade. Procuro alguém que aceite assim: aparentemente faltando um pedaço, mas é só descuido de quem quer se despir da sua completude para encontrar e vivenciar no outro a metade que nunca soube ser. Então, podes esquecer a cor do meu vestido e a profundidade do meu decote. Esquece quantas doses de uísque trouxeste para mim, no entanto não te esqueças daquela conversa íntima, ao pé-do-ouvido, compactuando a contribuição histórica dividida no jardim... Sobre o glamour da intimidade, antes coragem que prepotência, antes o erro que a indecisão, antes paciência que esperança, antes experiência que exatidão, antes instrução que conclusão. Quem sabe, meu amor, deixemos a saudade desbotar. Até que reste a plena vontade de sermos silêncio de duas almas pisando sobre o assoalho ou folheando livros. A voz…

Candinho, Toninho...

Entre os alunos é o Candinho, raramente Toninho. Melhor dizendo, professor Candinho. Numa aula magna disse a nós para amarmos a Literatura Brasileira - talvez parafraseando Cristo automaticamente concluindo em “assim como amei meus alunos”.  Assim, logo pedi a Literatura em matrimônio. Já éramos muitos anos de relacionamento, desde os meus castigos na Biblioteca quando criança, depois passando pela Federal do Rio Grande do Sul e chegando à Universidade de São Paulo. Candinho, melhor dizendo, Antônio Cândido vestiu o poder milagroso do seu xará Santo Antônio e se tornou o santo-casamenteiro entre a pessoa e a palavra. Amar a literatura. Para isso, Candinho acolhia franciscanamente seus alunos. Tive a honra. Na primeira vez, há quase uma década atrás, indaguei boba ao meu colega de doutorado: É aquele do Discurso e a Cidade? Enfim, sim, estive eu sob a dialética do malandro que rompia a barreira do livro-massa para que conversasse em carne-e-osso com Candinho. Professor Candinho, figur…

Depois de abril: dos textos por correio que conquistam (e convencem)

“aeronaves seguem pousando sem você desembarcar...”
Minha campainha espera o seu, aliás, o teu toque. A porta quer que por ela passes. O tapete, que o pises sem dó. Caso queiras, tira o teu sapato oxford, fica à vontade, a casa é tua. Meu sofá quer que te acomodes desmanchada como tua maquiagem fugidia com a garoa de São Paulo. Meu abajur, iluminar-te. Meus livros, que os folheies. Se quiseres, eu leio para ti a insustentável leveza do ser... São apenas trezentas páginas... Meu fogão quer cozinhar para ti, esquentar a água para o teu chimarrão. Meu refrigerador cuidar de tua sobremesa. Meu freezer conservar o gelo dedicado ao teu uísque. Meus pratos servir-te. Meu toca-discos quer te tirar para dançar, as taças, te brindar, as paredes, guardar nosso segredo... Por fim, algo nosso. Se quiseres, podes ficar. Não importa o que a vizinhança vá pensar... Minha cama quer te aconchegar, meu lençol se impregnar do teu cheiro, o meu relógio, que as horas tardem a passar. Se quiseres, podes me …