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Depois de abril: dos textos por correio que conquistam (e convencem)

“aeronaves seguem pousando sem você desembarcar...”

Minha campainha espera o seu, aliás, o teu toque. A porta quer que por ela passes. O tapete, que o pises sem dó. Caso queiras, tira o teu sapato oxford, fica à vontade, a casa é tua. Meu sofá quer que te acomodes desmanchada como tua maquiagem fugidia com a garoa de São Paulo. Meu abajur, iluminar-te. Meus livros, que os folheies. Se quiseres, eu leio para ti a insustentável leveza do ser... São apenas trezentas páginas...
Meu fogão quer cozinhar para ti, esquentar a água para o teu chimarrão. Meu refrigerador cuidar de tua sobremesa. Meu freezer conservar o gelo dedicado ao teu uísque. Meus pratos servir-te.
Meu toca-discos quer te tirar para dançar, as taças, te brindar, as paredes, guardar nosso segredo... Por fim, algo nosso. Se quiseres, podes ficar. Não importa o que a vizinhança vá pensar...
Minha cama quer te aconchegar, meu lençol se impregnar do teu cheiro, o meu relógio, que as horas tardem a passar. Se quiseres, podes me amar; se quiseres, te recebo inteira te apertando até sobrar lugar.
A mesa do café quer te dar bom-dia, a água do meu chuveiro escorrer todo o teu corpo, a toalha, envolvê-lo todo... Se quiseres, podes jogar em ti um dos meus vestidos. Se quiseres, podes ficar como estás... As cortinas servem para isto mesmo.
Meus móveis não querem que tu vás. Meus eletrodomésticos deixarão de funcionar sob protesto. Minha estante não deixará que a leia. Minha boca não pronunciará futuro. Até tu voltares...  

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