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“Não era mais a mesma, mas estava em seu lugar”

(Texto adaptado da crônica que recebi dos alunos)

Deixou a bolsa, pegou o giz. Ainda não havia sorrido. Seus alunos se organizaram e, agora, esperavam os ciclos daquela letra que constelava novas histórias naquele deserto escuro de um quadro-verde. Escreveu o título, olhou-o. Não sorriu. Não contou anedota. Abaixou a cabeça e suspendeu o punho sobre o apoio do giz... Com o outro punho, cobriu as narinas. Olhou o título do conteúdo, esquivou o olhar da turma, que já procurava saber o que houve. Por que sem piada? Cadê a risada? Cadê, depois, o grito vociferado que silenciava a todos?
Tremeu a voz continuando a olhar para aquele infinito verde-escuro. Algo sem conteúdo para inventar, como na música, um machado que quebrasse o gelo e a despertasse daquele pesadelo que, por ora, somente ela carregava...
Fazendo jus ao título, então, ela se tornou uma heroína trovadoresca. Ergueu do desespero a coragem de um machado e quebrou o gelo soluçando-o derretido em lagrimas copiosas. Todos os alunos se reuniram conforme os outros cavaleiros em torno da Távola... Todos ouviam a sua professora. Não acreditavam. Pela primeira vez em suas vidas, o símbolo de fortaleza, rigidez, disciplina, cálculo e frieza – chamado professor – revelava o conteúdo humano.
Ela revelava o quão era difícil, naquele momento, colocar a profissionalismo acima de si. Revelou também o motivo. Aqueles jovens, fixados nela como verdadeiros astronautas de mármore, olhavam sem crer que a professora se transformava em pessoa e chorava sem medo. Ela conversava com seus alunos buscando a última chance de tentar viver sem dor. Ela não temia a noite de não sentir... Ela descia do céu. Era a mãe contando com o esforço de todos para que se reencontrassem no próximo ano. Era a mãe pedindo para que todos eles se sentissem abraçados na despedida.

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