Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Junho, 2017

A calma despida

Ela pediu a minha calma emprestada, “essa serenidade de quem sabe muito bem o que fazer, sempre”. Eu não sou capaz de negar nada a ela. Sorrio com consentimento e visto pacientemente, enlaçando faixa a faixa, seu robe jogado no chão, tirado às pressas por algum motivo torpe... Estou certa de que quando ela vesti-lo novamente e se aninhar nos problemas do dia, qualquer resquício do meu olor despertará nela a tranqüilidade de me saber efêmera, mas marcante. Invasiva em qualquer detalhe cotidiano, persistente nas memórias e no laço da cintura, nas linhas entreabertas das pernas e dos seios, nas palavras. Observadora no brilho acetinado das luzes compostas de colo. A paz daquela que nunca parte, nunca esquece, nunca deixa de.
Veste a minha calma, querida. 
Então eu descobri o quanto ela me ama quando percebi qu’ela sabia – sem que eu dissesse ou exigisse – como eu adoro o lado mais álgido da cama. Apenas de observar a maneira como eu me ajeitava encolhida, muito mais prazerosamente entre…

Entre a saudade e o verbo ir, o Número

Quando o resultado de toda equação somada, multiplicada entre velocidade, distância, data e batimento cardíaco se resultará em nós duas? Quando a pressa deixará de ser inimiga e passará a ser a sabedoria que não se importa com a perfeição, com qualquer cara de cansaço assim que chega ao aeroporto, correspondendo com afã beijante ao sentimento sincero da espera? Saudade foi feita de cálculo. Mas, ao contrário, ela não é fria. Dias de numerosas contagens regressivas ou de resultados desistentes se a subtração das horas é também dividida com os decimais cotidianos da falta de tempo. É preço das passagens, é o acúmulo de novas frações para aproveitar cada segundo a espera de um lucro de afago. Foi distância de estrada e de meses. Qual das duas parece ou diz que é impossível? Por qual delas chego primeiro? Se a fórmula sintetiza os passos, por que a abstração da solução não se aplica no método para alcançá-la? É resultado poético da tristeza. Geometria apenas para ser holograma do sincero…

Crônica-epistolar: entre outras e todas

Sabes, pequena, alguns tesouros apenas reluzem no escuro, e, quando eu apaguei a luz, foi a tua voz que ouvi chamar. Sim, amada, a voz também reluz. Talvez seja uma premissa sábia assumir-se imensa em um segredo, embora triste. Falando de tristeza, deixa-me com ela. Falando disso, ponho aqui a palavra e na borda do copo qualquer clichê de amor mal-resolvido. Quando um amor que a gente inventa se transforma em piedade, crio um blues melodiando a minha ideologia: Senhor, dá-me coragem, porque esta carta seguirá cantando à Beija-Flor... O vocativo aqui és tu, em minha solitária confissão que te ilude, um dia. Confesso, sim, que quisera eu te ter entre as minhas mãos e a cama, entre o agora e o sempre. Entretanto te tenho entre o talvez e o quase, entre um gole e uma mordida. Sim, pequena, morena, tem pena, eu quisera te ter entre os meus desatinos e minhas faturas, entre meus livros e controles, entre o trabalho e o domingo. Entretanto te tenho entre minha voz e um segredo, entre o escu…

“Morena, tem pena. Ouve o meu lamento”

O que me faria a maior vitoriosa? Ter a cor bronze dela constantemente envolvida no meu pescoço. Ela, a morena-flor, ostenta essa medalha no peito. Quando dá às costas, os cabelos escuros, curtos, nulos de segredo com o resto do corpo, querem a vulnerabilidade do arrepio. Cabelos curtos – a nuca contornada pelo ondular final da minha imaginação escorrida com os dedos – o susto da alma, o assalto do coração, o suspiro dos poros. Quando ainda falta cama, o desejo de mudança serve café-da-manhã no colchão: “num dia é boca, é pele, é paixão. Noutro é espera, é relógio, é desilusão...”. O que ela lê nos meus sinais de fogo? Será poesia expectrada em quentes expirações confessionais? Ou mais um vício que descansa? Pelo menos, a morena-flor sabe, de longe, que conviver comigo implica me encontrar sempre próxima ao frio, da escuridão, das plantas, em posições estranhas: lendo, despindo-a das páginas. Posso realizá-la através da personagem. No fim deste recurso, a inanidade abstinente da alma…

Voa beijo em asa de borboleta

Sua tela aceita cores: seja arco-íris, seja tempestade. Ela detesta o sol, que compete com a clara dúvida de sua pele sobre o que nela se pincelará. Pele alva na qual o batom dita a regra escarlate e voa beijo em asa de borboleta. Pele de maravilhosa cor-de-inverno, cuja vacuidade de olhar para ela aterrissa o tempo e esfria os passos frenéticos em prol de apenas... Olhar para ela. Ela beija flores! Voa. A nítida boca agora é pétala estagnada na cara, na boca, na nebulosa mística de espalhar polens lembrados. Democrática, ela não sabe o significado de segredo e partilha diálogo de suas cores pejando beijos. A boca dela quase nunca fala; mas faz! Claro, deve ser isso o amor: qualquer coisa diferente das palavras. É um erro os poetas, que escrevem tanto sobre ela, não citarem que na sua tela também adorna a coroa bela e grega de sua seriedade, esse quê de cientificismo, sempre com óculos... Homens nunca a amaram pelo que ela pôde enxergar. Eles a amam pelo seu palpável presente. Mas el…