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A calma despida

Foto: Arquivo pessoal.

Ela pediu a minha calma emprestada, “essa serenidade de quem sabe muito bem o que fazer, sempre”. Eu não sou capaz de negar nada a ela. Sorrio com consentimento e visto pacientemente, enlaçando faixa a faixa, seu robe jogado no chão, tirado às pressas por algum motivo torpe... Estou certa de que quando ela vesti-lo novamente e se aninhar nos problemas do dia, qualquer resquício do meu olor despertará nela a tranqüilidade de me saber efêmera, mas marcante. Invasiva em qualquer detalhe cotidiano, persistente nas memórias e no laço da cintura, nas linhas entreabertas das pernas e dos seios, nas palavras. Observadora no brilho acetinado das luzes compostas de colo. A paz daquela que nunca parte, nunca esquece, nunca deixa de.

Veste a minha calma, querida. 

Então eu descobri o quanto ela me ama quando percebi qu’ela sabia – sem que eu dissesse ou exigisse – como eu adoro o lado mais álgido da cama. Apenas de observar a maneira como eu me ajeitava encolhida, muito mais prazerosamente entre os fios frios do lençol coberto da unidade gélida da noite. O amor é isso, esse desvendar mudo de tudo que faz a parceira feliz. O amor é qualquer coisa diferente da viva-voz. Ainda sobre a cama, há cabeceiras que contam mais histórias que os livros que lhe pedem abrigo.

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