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“Morena, tem pena. Ouve o meu lamento”

Chuva para forjar inverno. Uísque para forjar afago. Literatura para forjar amor. Fuga para forjar esquecimento.
(Imagem: Larissa Pujol)

O que me faria a maior vitoriosa? Ter a cor bronze dela constantemente envolvida no meu pescoço. Ela, a morena-flor, ostenta essa medalha no peito. Quando dá às costas, os cabelos escuros, curtos, nulos de segredo com o resto do corpo, querem a vulnerabilidade do arrepio. Cabelos curtos – a nuca contornada pelo ondular final da minha imaginação escorrida com os dedos – o susto da alma, o assalto do coração, o suspiro dos poros.
Quando ainda falta cama, o desejo de mudança serve café-da-manhã no colchão: “num dia é boca, é pele, é paixão. Noutro é espera, é relógio, é desilusão...”. O que ela lê nos meus sinais de fogo? Será poesia expectrada em quentes expirações confessionais? Ou mais um vício que descansa? Pelo menos, a morena-flor sabe, de longe, que conviver comigo implica me encontrar sempre próxima ao frio, da escuridão, das plantas, em posições estranhas: lendo, despindo-a das páginas.
Posso realizá-la através da personagem. No fim deste recurso, a inanidade abstinente da alma percebe o desfalecer de um amor. A tristeza sólida em lágrimas que me repousa em posição fetal entre os lençóis após horas que esperam as horas seguintes para novamente encontrá-la. Só escrevo para ela. Só. Escrever dói. Dói a sós. Mudam as roupas, o mesmo bom-dia me envolve. A mesma amizade que blinda os sentimentos que me engolem. Se minha mentira pudesse estar na sua piedade...  

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