Pular para o conteúdo principal

“Morena, tem pena. Ouve o meu lamento”

Chuva para forjar inverno. Uísque para forjar afago. Literatura para forjar amor. Fuga para forjar esquecimento.
(Imagem: Larissa Pujol)

O que me faria a maior vitoriosa? Ter a cor bronze dela constantemente envolvida no meu pescoço. Ela, a morena-flor, ostenta essa medalha no peito. Quando dá às costas, os cabelos escuros, curtos, nulos de segredo com o resto do corpo, querem a vulnerabilidade do arrepio. Cabelos curtos – a nuca contornada pelo ondular final da minha imaginação escorrida com os dedos – o susto da alma, o assalto do coração, o suspiro dos poros.
Quando ainda falta cama, o desejo de mudança serve café-da-manhã no colchão: “num dia é boca, é pele, é paixão. Noutro é espera, é relógio, é desilusão...”. O que ela lê nos meus sinais de fogo? Será poesia expectrada em quentes expirações confessionais? Ou mais um vício que descansa? Pelo menos, a morena-flor sabe, de longe, que conviver comigo implica me encontrar sempre próxima ao frio, da escuridão, das plantas, em posições estranhas: lendo, despindo-a das páginas.
Posso realizá-la através da personagem. No fim deste recurso, a inanidade abstinente da alma percebe o desfalecer de um amor. A tristeza sólida em lágrimas que me repousa em posição fetal entre os lençóis após horas que esperam as horas seguintes para novamente encontrá-la. Só escrevo para ela. Só. Escrever dói. Dói a sós. Mudam as roupas, o mesmo bom-dia me envolve. A mesma amizade que blinda os sentimentos que me engolem. Se minha mentira pudesse estar na sua piedade...  

Postagens mais visitadas deste blog

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…

Mas aquele subterfúgio de te olhar casando...

Resistir, sofrer por antecipação isolando-se numa máscara de pausa tchekhoviana ao estender-se no palco dos teus olhos. O espetáculo é meu, mas antes lamurie para o meu silêncio a vaga dessa boca a estreitar-se do muito que lhe choro dentro de mim.
É uma oração! Clamo à Resistência na súplica a fim de que esse deus se convença e se infernize mais com o meu pensamento nela... Mas mais do ínferno satiriza-se o erro de não lhe falar... Mas não... A Resistência é a sabotagem da razão; um deus dela mesma que desta cruz na abertura dos seus braços a me saudar, eu fujo.
Que de boba eu não tenho um mínimo provérbio, apenas resisto. Amigo-me confortável no resquício laborioso igualmente assistido à sua palavra... Um fenômeno desfragmentado na sua verve sofista que mais crio a nós duas, futuramente.
Resistência: ela não quer. Desistência: ela me procura. Sigo-a. Ela fecha a porta. Não me deixa entrar.
Tenho de continuar a resposta para os lados... Não é o mesmo lugar quando outra se adora sobre o…