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Voa beijo em asa de borboleta

"Pela rambla o estandarte das cores: Catalunya, Barceloneta, Blaugrana a mirar-lhe o olhar de mil homens, bailarina dança na roda sardana [...] Menina mulher da pele branca, a bela da tarde com charme encanta. Filme de Buñel, obra de Gaudi ou tela de Miró?"

Sua tela aceita cores: seja arco-íris, seja tempestade. Ela detesta o sol, que compete com a clara dúvida de sua pele sobre o que nela se pincelará. Pele alva na qual o batom dita a regra escarlate e voa beijo em asa de borboleta. Pele de maravilhosa cor-de-inverno, cuja vacuidade de olhar para ela aterrissa o tempo e esfria os passos frenéticos em prol de apenas... Olhar para ela.
Ela beija flores! Voa. A nítida boca agora é pétala estagnada na cara, na boca, na nebulosa mística de espalhar polens lembrados. Democrática, ela não sabe o significado de segredo e partilha diálogo de suas cores pejando beijos. A boca dela quase nunca fala; mas faz! Claro, deve ser isso o amor: qualquer coisa diferente das palavras.
É um erro os poetas, que escrevem tanto sobre ela, não citarem que na sua tela também adorna a coroa bela e grega de sua seriedade, esse quê de cientificismo, sempre com óculos... Homens nunca a amaram pelo que ela pôde enxergar. Eles a amam pelo seu palpável presente. Mas ela não perde tempo com homens... Ela é sábia. Ela ama mulher! E isso é bom. Todas que a namoram, todas elas, aceitaram a carência dos seus olhos. 
Ela nunca sabe dizer qual foi o último dia que se amou profundamente... A tela branca junta à sua versatilidade o amor-próprio. Ela se reforma no casulo de dentro para fora de um autorrespeito inseparável e reforçado... Quando reclamam de saudade para ela, ignora. Ainda sobre ela, o problema da saudade é esse: não acompanha mudanças. E o fundo branco apaga e desenha novamente. Beija sua boca e nada acontece. Da tela branca de sua pele, o outro é mero espectador. 

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