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Mostrando postagens de Julho, 2017

Qual minha dor, Afrodite? O teu medo.

Enquanto Safo descrevia a vicissitude das linhas corpóreas d’um deus grego frente a sua amada dele (e dela), a poeta se incompreendia entre o desejo e o ciúme. Ora, moça, desejo e ciúme são irmãos.  Foi o que observei dos dois naquela passagem festiva que vivi. Para ela, o marido, um deus grego no qual ela apoiava uma busca-amostra de amor e carinho aos olhos de todos com seus frágeis braços morenos em volta d’um pescoço velho e flácido, aos meus olhos. Pela primeira vez meu segundo corpo, o de dentro, entrou em consonância com o primeiro, o do ambiente.  Meu segundo corpo, apenas uma voz que conta toda sua escuridão, antes esquecido como oco, mas nada é oco, é deslizante como óleo e inconfundível guia que acha o fim do labirinto entre paredes moles. Do avesso é medicina, lugar escuro como a noite da festa. Boa noite, coração danadinho. Então és tu que reages repetindo o som surdo de suas partes moles e orgânicas com frenético sangue corrente, rápido, epidêmico, furioso, maquinal. Qu…

Ontem asas, agora, garras.

Numa dessas raras vezes que a sobrevivência não é algo contado, enfim, abro a janela, e não foi o dia que clareou mais uma manhã para ser. Foi o olor de infância que se adiantava concorrente com a velocidade que trespassei quase quatro décadas existindo. Era uma velocidade silenciosa daquela ser pequena incipiente de deveres e consequências. O Cheiro da Terra do Meu Quintal. Faz tempo, ignorante cresci sem dar-lhe espaço de inspirá-lo. Coube em mim compromissos de ar. Coube engrandecimento das asas. Coube, hoje, o pouso entre-quedas nesta mesma terra que cheira tão gostoso em meu quintal, quando ainda engatinhava. Possíveis retratos que desafiam o conceito de Nietzsche ao referir-me à História: a esperança não olha para trás, mas a atrai para qu’eu troque as asas pelas garras em total símbolo (de luta) pela liberdade. A própria casa, o olor do quintal. A brincadeira perene, o perfume da roupa em dias de bonança. O cheiro é o impulso do outro. Aquela coisa mansa, de casa, de ficar à v…

Um tato

Dizem que, quando transbordamos imageticamente do outro, devemos fechar os olhos para retirar essa personalização de dentro de si, colocando a pessoa sonhada em nossa frente para realizar com ela aquilo que sua angústia pede. Eu assim a abracei tão forte. Uma coisa sua que ficou em mim, sem fim, sem apelo a vida. Assim, a saudade é um tempo de dói. Um tempo que voa... Entre aeroportos. Um tempo que suspende o sofrimento sorrindo escapismos orgulhosos. Um tempo com essa vontade de voltar para ontem que se cura com o amanhã. Tenho sido gentil com quem me abre caminhos. Em todos os lugares do mundo que eu for, eu fotografo a paisagem mais bela se tu estiveres junto (pelo menos, o meu pensamento em ti). Num retrato, Amor é sombra em calor escaldante, enquanto o inverno, aqui-externo, é a preguiça do sol. Ela é um tato cego. De um lado a pose, d’outro o ensaio: jamais saberia ser bela, atraente e sensual se me pedisse que fosse. Eu, talvez, tornar-me-ia algo bizarro fidedigno d’uma risada…

Antes do voo

Mais vale a rapidez eficiente do artificial ou a lentidão bela do natural? Qual foi a última vez que tu choraste por algo que realmente te arrebatasse sem consentimento ou controle?  Aconteceu comigo. Eu me despediria da querida que muito amo. Iria onde encontrá-la. Abraçar-lhe-ia. Seria um final de manhã de sábado dela. E não consegui. Tive de cancelar por causa de uma correria, uma reunião, uma hora e outra. Passei sem olhar para os lados. E eu tive medo... Logo mais haveria eu de estar no aeroporto de Santa Maria. E mais medo. Muito medo de o tempo não ser algo qu’eu possuísse para abraçá-la. Para o tanto que quero lhe dizer o quanto a amo e sou-lhe grata por tudo qu’ela faz, fez e quer fazer por mim.  Eu chorei de tanto amor, de tanto sentimento arrebentando o meu peito, o coração acelerado de tanto medo qu’ela nunca saiba o quanto. É a única coisa em que não posso falhar na vida. A única.  Tempo, por favor, para ela, por ela, passa devagar.